Seis Grand Slams, três ATP Finals e uma medalha de ouro olímpica. Boris Becker foi um dos melhores tenistas da sua geração e um dos nomes de proa do ténis nas décadas de 80 e 90, mantendo-se na alta roda da modalidade como treinador de Novak Djokovic e também Holger Rune depois de deixar os courts. Agora, e depois de ter estado oito meses preso por crimes financeiros, é comentador da Eurosport e tem muito para dizer sobre o universo que domina.
Em conversa com o Observador, o antigo tenista alemão fez uma breve antevisão a Roland Garros, que arranca já este domingo. Boris Becker acredita que Carlos Alcaraz é o grande favorito a revalidar o troféu que conquistou em Paris há um ano, principalmente depois de ter vencido Jannik Sinner na final do Open de Roma há poucos dias, mas descarta a possibilidade de o italiano surpreender. No quadro feminino, considera que Aryna Sabalenka tem todas as hipóteses de destronar Iga Swiatek, que ganhou das últimas cinco edições do Grand Slam francês.
Roland Garros traz também o fim da parceria entre Novak Djokovic e Andy Murray, algo que deixou Boris Becker “sem palavras”, e a participação de Nuno Borges, atual 41.º do ranking ATP que entrou diretamente para o quadro principal em Paris. Sobre o português, o alemão lembra que “nem todos podem ganhar Wimbledon” – mas não tem dúvidas na hora de defender que é “um tenista de classe mundial”.
▲ Carlos Alcaraz venceu Jannik Sinner na final do Open de Roma, no passado fim de semana
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Alcaraz e Sabalenka partem como favoritos, mas que ninguém se esqueça de Sinner e Swiatek
Boris Becker não demora muito tempo a fazer a matemática: se tivermos em conta que Carlos Alcaraz perdeu a final do Open de Barcelona para Holger Rune devido a uma lesão, a verdade é que o tenista espanhol ainda não deixou fugir qualquer partida na atual temporada de terra batida. Ganhou em Monte Carlo e ganhou em Roma, partindo para Roland Garros com bons indicadores para reconquistar o Grand Slam que alcançou há um ano.
“Acho que o Carlos Alcaraz dominou a temporada de terra batida. Sou um grande fã do Carlos. É o golden boy do ténis. É muito carismático, joga um ténis fascinante e de sorriso na cara. Quem é que não gosta do Carlos Alcaraz? O caminho até ao topo é muito difícil e o caminho para permanecer no topo é ainda mais difícil. Acho que não devemos compará-lo a Rafa Nadal ou a qualquer outro porque ele é ele próprio, tem um estilo próprio. Vamos ver onde estará em dez ou 15 anos, espero que continue a jogar até lá e que seja bem sucedido. O Carlos vai escrever o próprio caminho. E estou entusiasmado para assistir a isso mesmo”, explicou o antigo tenista alemão ao Observador, dentro de uma conferência de imprensa com órgãos de comunicação social de vários países.
Aos 57 anos, Boris Becker é atualmente comentador da Eurosport. Foi treinador de Novak Djokovic e Holger Rune depois de terminar a carreira de tenista, mas é dos feitos dentro de court que todos se recordam: duas vitórias no Open da Austrália, três vitórias em Wimbledon, uma vitória no US Open, três vitórias no ATP Finals e ainda uma medalha de ouro no torneio de pares dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, ao lado de Michael Stich. Ou seja, e apesar de ter sido um dos melhores jogadores das décadas de 80 e 90, nunca ganhou em Roland Garros. Logo, é a pessoa certa para explicar o quão difícil é festejar em Paris.
“É um torneio muito difícil de ganhar. Temos de encontrar uma maneira de lidar com os adeptos parisienses. Quando estão contra ti, acreditem, não há qualquer hipótese. Temos de encontrar uma maneira de sermos amigos deles e de, idealmente, nos apoiarem. Podem mesmo fazer a diferença”, garante o alemão, que não esconde que gostava de ter “ganhado mais” ao longo da carreira.
“Nunca é suficiente. Dei o meu melhor com as oportunidades que tive, mas olhando para trás… Sou mais inteligente agora. Nunca ganhei um grande título em terra batida. Sim, fui a finais em Roma, Monte Carlo, Hamburgo, cheguei três vezes às meias-finais em Roland Garros, mas não ganhei. Gostava de ter vencido um grande torneio de terra batida. Mas, na altura, o Andre Agassi era melhor do que eu em terra batida, o Mats Wilander também. E temos de aceitar isso. Como perfecionista, claro que gostava de ter vencido em todas as superfícies”, explica.
Voltando ao presente, Boris Becker acredita que Carlos Alcaraz parte como grande favorito para revalidar a conquista de Roland Garros – ainda assim, recorda que é sempre necessário contar com Jannik Sinner, que começou a temporada a ganhar o Open da Austrália e acabou de se mostrar a um bom nível no Open de Roma, onde só perdeu na final com o tenista espanhol.
▲ Boris Becker sublinhou a dedicação e o compromisso de Nuno Borges, que está no quadro principal de Roland Garros
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“Não é segredo para ninguém que, de todas as superfícies, a terra batida é a mais fraca do Jannik Sinner. Ainda assim, acabou de fazer um torneio fantástico em Roma. Venceu especialistas, mesmo tendo perdido na final. Se conseguir repetir essa prestação torna-se muito perigoso. A pressão está do lado do Carlos Alcaraz, o mundo inteiro está à espera de que seja ele a ganhar. A pressão não está do lado do Sinner e isso pode jogar a favor dele”, atira, acrescentando que “não ficaria surpreendido” se 2025 terminasse como 2024, com dois Grand Slams para cada um dos tenistas.
Do lado feminino do quadro, a história é diferente. Vencedora de quatro das últimas cinco edições de Roland Garros e tricampeã em título, Iga Swiatek não vence qualquer torneio precisamente desde que festejou em Paris, há cerca de um ano, e tem tido muitas dificuldades para colocar em prática a sua melhor versão. Aryna Sabalenka tem aproveitado, com os triunfos no US Open e no Open da Austrália e a consolidação da liderança do ranking WTA, e Boris Becker acredita que a bielorrussa parte com alguma vantagem.
“Não diria que o reinado da Iga Swiatek na terra batida terminou, mas claro que está sob pressão. Não tem estado a jogar ao nível a que estávamos habituados. Quando um campeão em título regressa ao sítio onde já conquistou vitórias gigantes, como é o caso da Iga Swiatek em Roland Garros, acho que joga a favor dela. Mas claro que a temporada dela não está a correr como devia. Não sei porquê, mas parece-me óbvio que algo não está a funcionar, há qualquer coisa que não está a resultar. Mas nunca devemos apostar contra o campeão em título. Já ganhou várias vezes em Paris e vai aparecer no melhor momento emocional e mental que teve em todo o ano, posso garantir”, defende o antigo tenista alemão.
A conversa permite ainda uma questão rápida sobre Nuno Borges, atual 41.º do ranking ATP que caiu na segunda ronda do Open de Genebra e arrancou diretamente para Paris, onde tem entrada direta no quadro principal. Sobre o português, Boris Becker lembra que “nem todos podem ganhar Wimbledon”, mas saúda a dedicação do tenista natural da Maia. “É bom! É um jogador talentoso, trabalha muito, tenta sempre dar o seu melhor. E isso é a única coisa que podemos fazer enquanto tenistas. Há muito espaço para ser muito bom e o Nuno está a fazer o melhor que pode com as oportunidades que está a ter. Temos de admirar isso. Não tem 1,90 metros, não tem o melhor serviço ou a pancada mais forte, mas é um tenista de classe mundial. Isso agrada-me muito”, vinca.
A separação que deixou Boris Becker “sem palavras”
Ora, a antecâmara de Roland Garros trouxe uma notícia que apanhou praticamente toda a gente de surpresa: depois de terem prolongado a parceria no início do ano, na sequência dos bons resultados no Open da Austrália, Novak Djokovic e Andy Murray separaram-se e o britânico deixou de ser o treinador do sérvio. Algo que, para Boris Becker, foi um autêntico choque.
“Fiquei um bocadinho surpreendido pelo fim da parceria deles a uma semana de Roland Garros. Pensei que Melbourne tinha sido um grande sucesso, fiquei feliz por ver o Andy Murray de volta e com o Djokovic. Queria mesmo voltar a vê-los, até em Wimbledon, porque o Murray sabe umas coisas sobre ganhar em Wimbledon. Fiquei mesmo sem palavras, não sei o porquê de se terem separado mesmo antes do segundo Grand Slam do ano”, começa por dizer.
▲ Andy Murray e Novak Djokovic trabalharam juntos no Open da Austrália, no início do ano
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Certo é que Novak Djokovic, atualmente com 38 anos e sem ganhar um Grand Slam desde 2023, vai aparecer em Roland Garros ao lado de Dusan Vemic, o seu antigo companheiro de pares que vai servir como solução interina até o sérvio contratar um novo treinador. Boris Becker, porém, garante que o tenista “é inteligente e sabe o que está a fazer”, garantindo que não terá grande pressa para escolher um substituto para Andy Murray.
“Espero que isto não tenha grande impacto na prestação dele. O Novak nunca deve ser subestimado, é sempre uma competição muito forte e tem sempre qualquer coisa na manga. Sabe basicamente tudo sobre ténis. Com quem é que ele pode falar que saiba mais? O desafio é encontrar alguém que ele respeite, com quem possa aprender, e isso é muito difícil. Porque ele é muito bom, porque sabe demasiado, porque já fez tudo o que há para fazer no ténis. Acho que é essa a dificuldade”, diz o alemão, que treinou o sérvio entre 2013 e 2016 e que o vê como “um irmão mais novo”.
Um irmão mais novo que, a aproximar-se dos 40 anos, ainda não parece estar pronto para deixar os courts. Boris Becker acredita que Novak Djokovic “ainda tem ténis dentro dele”, mas espera que o sérvio seja “realista” na hora de terminar a carreira. “Não está a ficar mais novo e não pode jogar para sempre. Tem de lidar com a realidade e começar a pensar até quando quer jogar. Acho que seria a coisa mais sábia a fazer”, indica.
O aproximar da retirada de Novak Djokovic, acompanhado pelo fim das carreiras de Rafa Nadal, Roger Federer e Andy Murray, leva Boris Becker a realizar uma reflexão sobre aquela que é considerada a melhor geração de sempre – e tem muitas dificuldades na hora de confirmar que o ténis da atualidade é o melhor que já se viu.
“Sou um bocadinho antiquado, no sentido em que me custa comparar gerações. Hoje há raquetes diferentes, sapatilhas diferentes, um sistema diferente daquele que existia nos anos 70, 80, 90. Não sei quem era melhor, Rod Laver ou Jannik Sinner, John McEnroe ou Carlos Alcaraz? E o Roger, o Novak, o Rafa? Só podemos ir pelos números e aí acho que podemos todos concordar que o tenista mais bem sucedido de sempre é o Djokovic. Mas é o melhor jogador? Vencia McEnroe na relva? Vencia-me a mim na relva? Não sabemos. É por isso que não gosto de comparar. Mas acho que o ténis pode estar descansado porque a passagem de testemunho foi bem feita”, afirma o alemão, que lembra a nova vaga liderada por Ben Shelton, João Fonseca, Arthur Fils ou Jakub Mensik.