Índice
Índice
Cristiano Ronaldo passou o último Natal na Lapónia, a lendária terra do Pai Natal. E no dia 24 de dezembro, foi à rua numa temperatura de -20º celsius e, em boxers, entrou na piscina, com a água a -2º celsius. Já com os ombros embaixo d’água, olhou para o filho mais velho, que assistia a tudo bem agasalhado do lado de fora da piscina, e disse: “Muito frio”. Permaneceu cerca de um minuto dentro d’água e depois saiu. O vídeo, partilhado nas redes sociais, teve quase 500 milhões de visualizações, e mostra um hábito que já é conhecido do público há alguns anos.
O jogador usa a técnica para recuperar o físico após os treinos e jogos. “Tento usar os banhos de gelo o mais frequentemente possível, para ajudar o meu corpo a recuperar para os próximos jogos”, escreveu no X em novembro. Outros atletas internacionais usam a mesma técnica, como David Beckham ou Lebron James. E não é só no mundo dos desportos que os banhos de gelo fazem sucesso. Entre as cantoras, como Madonna, Lady Gaga ou Anitta até às atrizes de Hollywood como Jessica Biel ou Gwyneth Paltrow, todos já se mostraram a entrar numa banheira de gelo.
Onde ir a banhos
Em Portugal a tendência cresceu principalmente nos últimos dois anos. Rui Unas é uma das figuras públicas que vai a banhos regularmente e criou um equipamento específico para a imersão em água gelada. Na mesma linha segue um novo centro de recuperação, que abriu no final de 2024, em Cascais. O Effekt é especializado em recuperação, com banheiras para crioterapia, saunas e saunas infravermelhas. A equipa de cinco treinadores experientes orienta com técnicas de respiração e iniciação, passo a passo. Entre os principais clientes estão atletas e desportistas como corredores, ciclistas e surfistas, além de profissionais de alta performance. Mas ao Observador os responsáveis pelo espaço dizem que também recebem “entusiastas do bem-estar, pessoas que procuram um equilíbrio físico e mental, redução do stress e melhoria da clareza mental”.
Já o Hot Cold Club, que abriu no Príncipe Real, em Lisboa, no início do ano, tem uma proposta um pouco diferente. Com uma decoração mais cool e num espaço aberto, as banheiras e saunas também acabam por ser um espaço de socialização. As redes sociais denunciam que os principais frequentadores são estrangeiros — pessoas que vivem ou estão de passagem por Portugal. Antes de chegar ao pátio onde estão as banheiras, também chama a atenção o café/restaurante em que a chef Céline Bangay-Wilding cria pratos veganos e com foco nos cogumelos.
Também com a ideia da socialização vem o Longevity House Club, que se autodenomina “o primeiro clube social de longevidade da Europa”. Criado por um casal de britânicos, defende oito pilares de bem-estar e saúde para a longevidade, como os exercícios físicos, o sono ou as conexões sociais. Apesar de não ter um espaço físico, ao longo do último ano o grupo organizou eventos “Fire & Ice”, com sessões de banhos de gelo, sauna e exercícios de respiração, com o objetivo de “ativar a circulação, reduzir o stress e melhorar o humor”.
Para quem prefere uma experiência de luxo, a imersão em água gelada já está disponível em alguns hotéis cinco estrelas de Lisboa. O Spa Felicitás, do Palácio do Governador, vai passar a oferecer a partir do final de março sessões de respiração seguidas de sauna e banho de gelo por 25 euros, com acesso de duas horas ao circuito do spa. Já no spa do Hotel Corinthia, em Lisboa, o circuito de hidroterapia inclui duches sensoriais, piscina hidrodinâmica, piscina de hidromassagem estilo jacuzzi, sauna, banho turco, balde de água fria, tanque de imersão frio, fonte de gelo e pedilúvio. Nas banheiras para o chamado cold plunge, a temperatura varia entre os 10 e os 15 graus, e a equipa tem profissionais que orientam os que têm pouca experiência neste tipo de terapia. Para usufruir de uma hora no circuito o valor é 40 euros, já duas horas para desfrutar de toda a estrutura sai por 60 euros. Em 2024 o The Spa do Hotel Corinthia venceu o Spa Awards na categoria Melhor Day Spa.
O homem de gelo
A prática torna-se cada vez mais popular, mas para muitos os banhos de gelo são mais do que um momento de relaxamento, socialização ou recuperação — fazem parte de uma filosofia de vida. Em 2020 Gwyneth Paltrow documentou a jornada da sua equipa nos tratamentos de exposição ao frio na série da Netflix The Goop Lab, onde se mostra a conversar com Wim Hof, o criador do método que inclui técnicas de respiração e banhos de água gelada. O episódio mostra a equipa do The Goop a fazer um workshop com sessões de respiração, ginástica no gelo e banhos no lago Tahoe, na Califórnia. “Quero começar a fazer isto. Adoro tomar duches frios de vez em quando“, diz Paltrow durante a entrevista ao guru. No final da conversa, a atriz ainda experimenta alguns exercícios de respiração. Depois, executa 30 flexões. “Pensei que ia desmaiar por um momento, enquanto fazia a respiração. Então, de repente, passou”, disse. Apesar de não ir a banhos na série, dois anos depois a atriz mostrou ter uma banheira para imersão em água gelada no seu spa de casa.
▲ Gwyneth Paltrow experimentou os exercícios de respiração de Wim Hof na série da Netflix The Goop Lab
O método tem o nome do seu criador, um atleta de temperaturas extremas de origem holandesa que ficou conhecido internacionalmente como “Iceman”, ou o “homem de gelo”. Se a alcunha por si só não fosse autoexplicativa, basta listar algumas das suas “conquistas”, como escalar o Kilimanjaro usando apenas calções, correr uma meia maratona completamente descalço no ártico ou mergulhar a mais de 60 metros debaixo do gelo. No Youtube as façanhas estão documentadas em dezenas de vídeos. “Amazing”, diz o próprio, de forma muito enfática, ao longo dos seus discursos motivacionais, que incentivam quem assiste a “tomar o maldito duche frio” e usar a mente para “transformar o inverno em verão”.
Destas experiências extremas Wim Hof criou o método, que consiste em três pilares — comprometimento, respiração e exposição ao frio, conforme explica ao Observador Ricardo Pinhão, instrutor nível 2 no método, e que tirou o curso com o próprio Wim Hof, na Polónia, há cerca de 5 anos. Para o instrutor, o hábito diário mais importante e transformador do método é o duche frio. “Já é o suficiente para muita coisa mudar no nosso equilíbrio químico. Às vezes as pessoas dizem que isto até parece magia. Não é magia. Isto é essencialmente químico. É uma alteração química que nós estamos a colocar no nosso corpo quando nos colocamos e nos expomos ao frio, que não é nova. É uma coisa que o nosso corpo já faz há milhões de anos”, diz o instrutor. “Habituámos-nos muito rapidamente ao conforto, ao esquentador, à água quentinha, aos 22 graus no ar-condicionado, ao Netflix e à pipoca. E o nosso corpo começou a deixar de estar exposto a situações de stress. Existe muito stress no trabalho, no trânsito, na sociedade, mas é um stress mais mental. E o nosso corpo necessita disso para estar em equilíbrio bioquímico“. Entre os benefícios que Ricardo Pinhão diz que a prática traz está o fortalecimento do sistema imunológico, uma melhora no humor e no estado emocional e o aumento da sensação de energia. O site do método lista ainda pelo menos 10 benefícios físicos e cognitivos, como melhorias no sono, redução de processos inflamatórios, melhora da circulação sanguínea, aumento nos níveis de foco e controlo da mente e do corpo.
▲ Ricardo Pinhão dá cursos e workshops do método Him Hof
O que diz a ciência
Henrique Chaló já era praticante de crossfit e surf antes de fazer a formação no método Wim Hof, há cerca de dois anos. O arquiteto de 41 anos conta que atualmente toma duches frios todos os dias após os treinos, e percebe que fica “com menos dores musculares e que a recuperação acaba por ser mais fácil. E depois também tem outra vantagem. Se estiver um bocado cansado, também saio do duche com mais energia. Normalmente, quando tomo banho na água fria, saio do banho e já não dá vontade de voltar para lá”.
Quando o assunto é recuperação muscular, a exposição ao frio, ou a chamada crioterapia, já tem bastante base científica, conforme explica ao Observador a médica Diana Ferreira, especialista em medicina desportiva na Unidade de Medicina Desportiva e Performance do Hospital CUF Tejo. “Se estamos a falar meramente da recuperação após uma sessão de treino, tem efetivamente a evidência demonstrada. Quando pensamos na crioterapia, pensamos muitas vezes na aplicação de gelo após uma lesão muscular ou uma lesão tendinosa, e o gelo geralmente tem este efeito anti-inflamatório. Portanto, esse também é um efeito global que obtemos com a exposição ao frio”, diz a especialista. Mas há outros benefícios a nível físico. “Pelos seus efeitos a nível do sistema cardiovascular, o aumento da frequência respiratória e cardíaca, existe também o aumento do metabolismo basal e este é um efeito que se obtém não só no momento da exposição, mas até passadas algumas horas.”
Entretanto, a exposição ao frio não é recomendada a todas as pessoas nem a todos os tipos de treino. De acordo com uma revisão de estudos prévios, publicada em 2023, os banhos de gelo podem ajudar na recuperação muscular após os treinos de endurance, ou seja de resistência. “Vamos imaginar que está a treinar para uma maratona. O seu objetivo seria estar a fazer o treino mais prolongado no tempo e com baixa intensidade. Então, tem mais benefícios se fizer a exposição imediatamente a seguir ao treino”, explica a médica. Porém, outros estudos descobriram que o banho de gelo pode reduzir o ganho de massa muscular. “Quem está a fazer um treino de força, para não bloquear os efeitos de hipertrofia muscular que vêm pelo treino, então aconselha-se a esperar no mínimo 4 horas antes da exposição ao frio ou então fazê-lo no dia seguinte ao treino”.
▲ Wim Hof mantém o recorde de meia maratona mais rápida descalço no gelo. Em 2007 fez 21 km em 2 horas e 16 minutos.
Instagram @iceman_hof
A partir de 2011 Wim Hof submeteu-se a uma série de estudos para avaliar o verdadeiro poder das técnicas de respiração e dos protocolos de exposição ao frio que ensina no seu método. Contudo, ainda são investigações limitadas. Uma outra revisão de 2024, que analisou estudos anteriores sobre os efeitos do método Wim Hof, considera que a prática dos banhos de gelo aliados às técnicas de respiração pode ter benefícios antinflamatórios, porém mais pesquisas são necessárias. Os estudos existentes ainda são poucos e não são capazes de apontar um protocolo definitivo.”Muitas vezes existem alguns protocolos que não conseguimos fazer aprovar em comissões éticas, porque vêm mesmo nessa questão do desconhecimento que existe a nível científico”, explica a médica Diana Ferreira. “A ciência que encontramos acaba por ser com base em estudos ou em casos um pouco anedóticos, de pequenos grupos que por experimentar veem que isto funciona. Porque algum treinador que tem experiência com exposição ao frio reparou que os atletas nórdicos recuperavam melhor porque tinham esta exposição às saunas e aos lagos gelados, comparando com outros grupos populacionais. Acabamos por retirar a evidência científica um pouco por aí, mas no fundo, para termos uma evidência científica sólida temos que conseguir replicar e isso nem sempre é fácil”.
Isso porque com o banho frio não é possível comparar dois grupos em que um não sabe que está a ser submetido ao tratamento, ou seja, aplicar o famoso “efeito placebo”. “É difícil termos evidência científica que sustente uma determinada prática e depois há a questão da variabilidade individual. Esta questão de nós não conseguirmos dizer que é esta a temperatura melhor, porque varia muito da pessoa para pessoa, a própria hora do dia, o tipo de treino que foi feito antes. Portanto, toda esta variabilidade acaba por não conseguir ser parametrizada num estudo científico para dar esta resposta super clara de qual é a melhor dose terapêutica para a aplicação destas técnicas.”
Músculo da coragem
Apesar da ciência ser mais robusta quanto aos benefícios a nível físico, todos os praticante com os quais conversámos procuraram este método com o objetivo do desenvolvimento pessoal. “Uma pessoa assume o compromisso do banho de água fria e quando o faz, sente-se bem. E isso diariamente cria uma mudança na nossa abordagem dos problemas. Ou seja, nós todos os dias nos propomos a um desafio”, destaca Henrique. Marcos Sousa também percebeu que passou a ser mais capaz de controlar as emoções. Antes de conhecer o método Wim Hof, tomava banhos quentes a 40 graus. Hoje, toma duche frio todos os dias. “A minha filha tinha 3 anos quando comecei a praticar o método. Qualquer um de nós que é pai sabe o quanto é desafiante a uma criança de 3 anos, não para quieta, não sabe o que é o não, não sabe o que são limites, está a explorar… Tudo bem com isso, tudo normal, mas isso mexe muito com as nossas emoções. O que eu notava é que a minha capacidade de ter paciência e toda a relação com a minha filha ampliava muito. Eu tinha muito mais calma e paciência com ela”, diz o diretor de hotel de 42 anos.
Paula Pinto começou a tomar duches frios mais ou menos no início da pandemia de covid-19, num processo que assume ter sido de “autodescoberta”. “Estava numa zona de muito conforto, de necessidade de extremo conforto com o meu corpo. Precisava de estar cada vez mais quente, com menos exposição a ambientes agressivos de frio. E quando ouvi falar sobre aquilo, achei que podia ser uma coisa interessante para eu explorar, para desenvolver aqui um bocadinho mais de resiliência“, conta a escritora médica e professora universitária, de 50 anos. “Eu tomava banho de água completamente a escaldar, saía do banho toda vermelha e tinha cada vez mais frio”, destaca. Fez um acompanhamento de 21 dias com Ricardo Pinhão e foi, aos poucos, reduzindo a temperatura do banho. Ao fim do processo, já estava a tomar duches frios. “Acabou por ser muito benéfico na forma como lidei com tudo o que estava a acontecer. Porque lá está, este contacto com a água fria, por um lado, mostrou-me naquela altura que eu era capaz de fazer uma coisa que era muito difícil, ou seja, lidar com o frio. Digo que trabalhou muito o meu músculo da coragem. Portanto entrar no banho todos os dias e virar a torneira para a água fria, claro que há alguns dias que não me apetece nada, mas é dizer: ‘ok, tu consegues'”.
Apesar dos poucos estudos, há ciência por trás destas sensações. “É muito curioso os efeitos a nível de neurotransmissores, porque faz libertar adrenalina e noradrenalina, que são duas hormonas de stress. Sendo que não se encontrou nos estudos que já foram realizados grande efeito no cortisol, que é a hormona de stress por definição”, explica a médica Diana Ferreira. “A exposição ao frio permite que o indivíduo tenha uma reação corporal fisiológica de stress, tal como seria qualquer outra situação de stress, em que aumenta a frequência respiratória, aumenta a frequência cardíaca, que temos até algum certo grau de nervosismo mental. Ficamos um bocado atordoados por essas sensações físicas. No entanto, é um momento de stress controlado, ou seja, o estímulo é provocado por nós próprios, fomos nós que nos colocámos no frio”.
E é neste momento que entram os benefícios cognitivos. “Permite fazer alguns exercícios de respiração para tentar controlar estas sensações físicas, algumas pessoas fazem exercícios cognitivos, de alguma aritmética simples, ou tentar lembrar-se de coisas importantes enquanto está exposto ao frio”, diz a especialista. “Inicialmente, os estudos parecem demonstrar que ajuda muito numa situação de stress real, em que a pessoa consegue manter-se mais calma, mais serena, consegue ter maior qualidade mental, mais concentração, mais resiliência, e também uma outra hormona que é libertada e que agora está na moda falar que é a dopamina, que acaba por ter também um efeito muito importante na motivação.”
Wim Hof criou o método depois do suicídio da sua mulher, em 1995. O guru recorreu ao gelo para superar o luto e hoje defende que um banho frio de 40 segundos por dia teria sido a cura para a depressão da companheira. Um estudo de 2008 encontrou evidências da redução de sintomas depressivos, mas faz a ressalva de que é necessário continuar a investigação, já que a amostra era pequena e as pessoas analisadas não tinham sigo diagnosticadas com aquela doença. A médica Diana Ferreira diz que os benefícios para a saúde mental podem estar relacionados com libertação de dopamina, além dos efeitos que o contacto com a água fria têm no corpo. “O próprio exercício físico tem efeito benéfico no tratamento e na prevenção da depressão e da ansiedade. Estes efeitos fisiológicos associados à exposição ao frio, como o aumento da frequência cardiorrespiratória, no fundo são muito semelhantes aos efeitos que obtemos com o exercício. Aqui, muito provavelmente, serão mecanismos muito semelhantes que estão a funcionar”, conclui a especialista.
Boost na imunidade?
Outro dos benefícios citados por aqueles que defendem os banhos frios é o aumento da imunidade. Um artigo de 2016 avaliou por dois meses três mil pessoas divididas em dois grupos, em tomou banhos frios e o outro manteve a vida normal. O grupo exposto ao frio teve uma queda de 30% no número de faltas ao trabalho por doenças. “Existem estudos que apontam para isso, no sentido de que a exposição crónica ao frio nestes tipos de protocolos parece gerar um aumento a nível de glóbulos brancos. Ou seja, parece ser benéfico para o sistema imunitário. No entanto, não temos ainda evidência que a prática possa prevenir doenças virais agudas”, destaca a médica Diana Ferreira.
As pessoas com quem falámos confirmam que se sentem mais resistentes depois de começarem a tomar duches frios. “Normalmente já sou uma pessoa saudável, nunca tive grandes problemas. Mas agora que tenho um filho pequeno, com 3 anos e pouco, as viroses são constantes. E efetivamente eu noto que quando ando sempre certinho nos duches frios, não passa nada. Estou muito com ele e ele pode estar com febre e tal, aquelas viroses de criança. E eu consigo superar”, diz Henrique. Já Marcos assume que anteriormente adoecia com facilidade. “Tenho estado a tomar duche de água fria todos os dias, às vezes tenho o nariz um bocadinho a pingar, mas nada de doenças com frequência. Tenho tido menos doenças“.
Para Paula, a relação do método com a saúde é antagónica. A professora universitária revela que tinha tendência a ter problemas de garganta e processos inflamatórios como tendinites e que estas questões “desapareceram totalmente. É uma das coisas que os meus amigos notam e dizem, que antes doía de tudo e agora não dói nada“. Além disso, afirma que quando adoece sente que é capaz de se recuperar muito mais rápido. Contudo, Paula reconhece que há períodos em que o corpo não recebe bem o stress causado pela água fria e sente a necessidade de interromper os banhos frios. “Estamos expostos a uma variedade muito grande de estímulos e de fatores de stress e de desequilíbrios na nossa vida e é normal que o nosso corpo, por vezes, precise de reajustes e fique mais débil. Para mim agora é muito claro o que é preciso fazer para recuperar o equilíbrio. Observar aquilo que está a acontecer comigo em cada momento, os sinais que o meu corpo me está a dar e as formas que eu preciso me ajustar para para resolver os desequilíbrios que estão a acontecer”.
Duche frio vs banho no gelo
Porque o contacto com a água fria liberta adrenalina, a tendência é que o duche frio dê uma sensação de energia. Por isso todos os praticantes com quem conversámos disseram que tomam o banho frio pela manhã, e que à noite dão preferência à água morna. Se o duche frio já entrou para a rotina, o banho de imersão na água gelada não acontece com tanta frequência. Paula e Henrique, por exemplo, preferem a exposição ao frio na natureza — seja no mar, como é o caso de Henrique, que pratica surf, ou num rio ou lago, como Paula, que gosta de fazer caminhadas em montanhas. Já Marcos faz banhos de imersão toda a semana. “Tenho uma banheira com água e tenho uma arca com gelo, portanto, quando quero banho de água gelada, eu faço”, conta.
A médica Diana Ferreira afirma que “a imersão em água gelada tem mais evidência científica demonstrada do que o duche frio. Há menos estudos, mas a exposição ao duche de água fria é mais amplamente disponível, portanto as pessoas também muitas vezes acabam por sentirem benefícios que parecem ser semelhantes”.
Sobre quando e como fazer os banhos de gelo, a especialista também diz que há variações. “A nossa temperatura basal, que é a temperatura do nosso corpo, varia muito conforme o ano. Se estamos no verão ou no inverno, agasalhados ou não, e a própria temperatura corporal varia com o nosso ritmo circadiano. Ou seja, a nossa temperatura vai aumentando durante o dia e depois vai diminuindo. Quer dizer que se nós aplicamos de manhã ou de noite, vamos ter efeitos diferentes porque vamos ter uma amplitude térmica também diferente”, explica Diana Ferreira, que diz que há pessoas que conseguem começar com temperaturas entre os 7 a 10 graus celsius, mas que há novos estudos a sugerir que temperaturas entre os 14 e 16 graus celsius podem ser mais benéficas para mulheres, por exemplo. “A temperatura que devemos aplicar acaba por ser aquela em que a pessoa que entra na água não está confortável. Tem vontade de sair mas também sente que não está a ter um aumento da frequência respiratória e cardíaca, como se estivesse a colocar-se em risco. No fundo essa sensação de ‘eu quero sair, eu não estou aqui bem, mas eu ainda aguento aqui um bocadinho'”.
A médica destaca ainda que é importante começar de forma gradual e garantir previamente que não tem condições de saúde que possam tornar a exposição ao frio perigosa. “Temos sempre que fazer um check-up antes, para perceber se há alguma condição cardiovascular que faça a pessoa incorrer em algum risco, porque realmente podem haver situações de risco para a vida, pode haver um enfarto no miocárdio, por exemplo, ou outras situações que não são de facto agradáveis. Portanto, é sempre algo que temos que fazer, estar alerta para falar primeiro com o médico.”
Hipotermia, arritmia e afogamentos: quando os banhos de gelo podem ser perigosos
Os relatos de benefícios físicos e cognitivos e a ânsia por vencer um desafio leva muitos a experimentar a imersão no gelo. Contudo, a prática também esteve no centro de alguns episódios trágicos e controversos. Em 2022 uma mulher morreu no Reino Unido enquanto participava de uma sessão guiada de banho no gelo com outro instrutor britânico, Kevin O’Neill, fundador da Breatheolution. Kellie Poole, de 39 anos, colapsou ao entrar no rio Goyt, em Derbyshire. Foi retirada da água pelos participantes mas morreu depois de sofrer um ataque cardíaco. Os exames pós morte encontraram uma condição cardíaca não diagnosticada que poderá ter gerado uma arritmia, potenciada pela aceleração repentina de batimentos cardíacos ao entrar em contacto com a água gelada. Por causa da morte de Poole, um relatório foi elaborado pelo médico legista de Derbyshire a pedir mais regulação nas sessões de terapia com banhos de gelo, a fim de prevenir novos casos.
Nos Estados Unidos, Wim Hof chegou a responder judicialmente pela morte de uma jovem de 17 anos. Madelyn Metzger foi encontrada morta na piscina de casa, na Califórnia. O pai diz que a jovem estava a praticar as técnicas de respiração do método, que a fizeram desmaiar e, depois, afogar-se na piscina. Entretanto, em 2024, o guru acabou por ser ilibado por falta de provas de que a jovem estava mesmo a praticar as técnicas de respiração quando se afogou. De acordo com uma investigação do The Times, há pelo menos 11 casos parecidos nos EUA, em que as famílias alegam que as técnicas foram as responsáveis pelas mortes. “Estamos profundamente tristes pela perda da vida e estendemos as nossas condolências a todos os que perderam entes queridos. A segurança e o bem-estar de todos os praticantes do método Wim Hof é de extrema importância para nós. É por isso que consistentemente enfatizamos em todas as nossas plataformas e produtos cada aspeto do treino”, disse a equipa de Wim Hof ao jornal.
Nos vídeos de instruções no Youtube, a mensagem “nunca forçar” é repetida diversas vezes. Há um vídeo com recomendações de segurança que sugere que os praticantes façam os exercícios de respiração num ambiente seguro para o caso de desmaio. Também recomenda que as pessoas “ouçam os próprios corpos” durante a exposição ao frio, destacando o risco de hipotermia. Uma das principais recomendações de segurança é que os banhos de gelo sejam feitos na companhia de outra pessoa experiente ou instrutor, e que as pessoas levem roupas e bebidas quentes para se aquecerem após a exposição ao frio. Os vídeos também dizem para os iniciantes consultarem um médico, principalmente no caso de alguma condição de saúde prévia.
Os principais riscos apontados pelos estudos científicos e corroborado pelos especialistas em saúde são três: doenças de pele, hipotermia e complicações em pessoas com condições cardiorrespiratórias. “Estar atento, acima de tudo, às situações de patologia cardiovascular como coronariopatia conhecida, enfarte prévio, angina do peito ou hipertensão, além de algum problema respiratório. São situações que têm que ser vistas de forma individualizada. Existem depois outras patologias, associadas à área da dermatologia, como as vasculopatias, que já são condições da microcirculação e que podem ter que ser avaliadas caso a caso. E existem patologias raras que a própria exposição ao frio confere um problema”, explica a médica.
Todos os praticantes do método Wim Hof com quem falámos nos disseram que não aconselhariam alguém a entrar num banho de gelo sem preparação e acompanhamento. O instrutor também chama a atenção para os riscos. “O frio é um elemento de stress poderoso. Portanto, a primeira vez que uma pessoa vai fazer uma excursão ao frio, deve ir com alguém que sabe o que é que está a fazer. Que possa acompanhar e ensinar que técnicas é que pode usar, o que é que é preciso garantir antes de ir ao gelo. Às vezes assusta-me um bocadinho ver pessoas a fazer isto de uma forma leviana, como se fosse uma coisa normal. Pode correr mal. Pode acontecer algumas coisas. Não é agradável para ninguém”, alerta Ricardo Pinhão.