Em Portugal, mais de seis em cada dez adultos têm excesso de peso. Quatro em cada dez vivem com hipertensão arterial. E um em cada quatro continua a fumar. Estes são apenas alguns dos dados que ajudam a compor o retrato estatístico dos fatores de risco que contribuem, silenciosamente, para o peso crescente das doenças cardiovasculares e cerebrovasculares no país.

A prevalência destes fatores — nomeadamente, obesidade, pressão arterial elevada, colesterol elevado, sedentarismo e tabagismo — varia entre grupos etários e entre homens e mulheres, mas atravessa toda a população. Muitos portugueses acumulam dois, três ou mais destes riscos em simultâneo, muitas vezes sem diagnóstico formal nem perceção clara do impacto na sua saúde futura [ver imagem sobre quantidade de fatores de risco por género].

Este levantamento foi feito com base num inquérito nacional promovido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em colaboração com centros de saúde de norte a sul do país. O trabalho de campo decorreu entre 2012 e 2014, com uma amostra representativa da população portuguesa entre os 18 e os 79 anos. O estudo resultante, conhecido como e_COR, foi publicado em 2019 e, apesar de datado, permite identificar a presença de fatores que aumentam significativamente a probabilidade de essas doenças ocorrerem. “Continua atual”, diz Diogo Cavaco, cardiologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. “Este estudo utiliza uma série de ferramentas estatísticas para garantir que a amostra selecionada é representativa da população. Para um trabalho epidemiológico deste estilo, o tempo que passou [dez anos] é pouco. Os dados são válidos e analisáveis em 2025.”

O especialista sublinha que o risco não é uniforme. “É distinto consoante o grupo etário e o sistema de saúde é sensível a este facto. Aumenta com a idade e é francamente superior a partir dos 40 anos. Por este motivo, os rastreios de risco vascular generalizados abaixo dos 40 anos não são considerados custo-eficazes”.

Quanto ao género, diz que “existem também diferenças, com risco mais elevado de doença cardiovascular no homem [ver imagem sobre quantidade de fatores de risco por género]. Por outro lado, embora o risco global na mulher seja mais baixo, a forma de apresentação de doença vascular reveste-se de maior gravidade e o acesso a cuidados de saúde cardiovascular é menor. Faz, por este motivo, sentido pensar em programas de prevenção primária, secundária e terciária distintos” para homens e para mulheres.

Os cinco grandes fatores de risco e quantas pessoas vivem com cada um deles

Num país onde as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte, os fatores de risco raramente aparecem isolados. O excesso de peso, por exemplo, está frequentemente associado à hipertensão. A inatividade física prolongada tende a acompanhar valores elevados de colesterol. E o tabaco, embora em declínio global, permanece presente sobretudo entre os mais jovens. Segundo o cardiologista, nem todos os fatores de risco têm o mesmo grau de reconhecimento público, apesar do seu peso clínico. “Diria que, para a doença coronária, talvez o fator de risco menos reconhecido pela população seja o colesterol.”

A análise dos dados do e_COR permitiu identificar nove fatores de risco com maior prevalência na população portuguesa adulta. Em conjunto, atingem uma proporção significativa da população entre os 18 e os 79 anos [ver imagem sobre principais fatores de risco].

A condição mais prevalente é o excesso de peso. Mais de 60% dos adultos apresentam um índice de massa corporal igual ou superior a 25, o que os coloca na categoria de pré-obesidade ou obesidade, segundo as classificações da Organização Mundial da Saúde. Este valor aumenta progressivamente com a idade: atinge 67,2% entre os 35 e os 64 anos e chega aos 80% a partir dos 65 anos. Mesmo entre os jovens adultos (18–34 anos), a prevalência é já de 39,6%.

Mais de 60% dos adultos portugueses tem excesso de peso. Este valor aumenta progressivamente com a idade: atinge 67% entre os 35 e os 64 anos e chega aos 80% a partir dos 65 anos. Mesmo entre os jovens adultos (18–34 anos), a prevalência é já de 39%.

Segue-se a hipertensão arterial, que afeta 43,1% da população. Nos indivíduos com mais de 65 anos, a prevalência sobe para 87,1%, refletindo um padrão bem conhecido: a pressão arterial tende a aumentar com a idade. A hipertensão é também mais frequente nos homens (45,6%) do que nas mulheres (40,9%), mas com diferenças que se esbatem nas faixas etárias mais altas.

O colesterol LDL (“mau” colesterol) elevado, acima de 160 mg/dL ou sob tratamento farmacológico, está presente em 31,5% dos adultos. Este parâmetro, avaliado no contexto do risco cardiovascular com base nos critérios do estudo, revelou-se ligeiramente mais frequente nos homens (34%) do que nas mulheres (29,4%) e aumenta significativamente com a idade: passa de 5,2% nos 18–34 anos para 65% nos 65–79 anos.

Para Francisco Araújo, médico internista e presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, o estudo e_COR continua a ter uma utilidade estrutural, mas já não pode ser lido de forma isolada, nem intocável. “Atualizaria, sobretudo, os critérios de definição do que é a hipercolesterolemia.” Os valores de referência usados no e_COR, nomeadamente para o colesterol total e LDL, já não refletem, segundo o especialista, os critérios de risco que hoje orientam a prática clínica. “Esses critérios têm mais de uma dezena de anos. Atualmente, o valor de normalidade depende do risco cardiovascular da pessoa”, explica.

Frequência dos cinco principais fatores de risco cardiovascular por género e faixa etária

Selecione um fator de risco e veja a sua prevalência:

Pré-obesidade/Obesidade
Hipertensão arterial
Colesterol LDL elevado
Atividade física baixa
Tabagismo
Mulheres
Homens
18–34
35–64
65–79
prevalência geral
0%

Fonte: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge

Numa abordagem populacional, Francisco Araújo admite que se pode considerar mau colesterol acima de 130 mg/dL, ou mesmo de 115 mg/dL, como indicativo de dislipidemia [ou seja, qualquer alteração nos níveis de lípidos (gordura) no sangue, incluindo colesterol e triglicéridos, que esteja fora dos valores considerados normais], mas defende que a avaliação deve sempre ser feita à luz do risco individual.

Francisco Araújo já tinha defendido a importância de renovar a base de dados nacional. Diogo Cavaco concorda: “Estudos como o que foi feito (e_COR) são uma boa base de trabalho e permitem aferir a realidade nacional. No Plano Estratégico para a Saúde Cardiovascular da Sociedade Portuguesa de Cardiologia são propostas medidas que permitiriam ter um maior conhecimento da realidade nacional e facilitar o planeamento de estratégias de prevenção.”

A atividade física insuficiente é outro dos fatores analisados no e_COR. De acordo com o questionário IPAQ – sigla de International Physical Activity Questionnaire), um inquérito padronizado internacionalmente que serve para avaliar o nível de atividade física de adultos — 29,2% dos participantes foram classificados com um nível baixo, o que significa não atingirem os critérios mínimos para um padrão moderado ou vigoroso. As diferenças por idade são menos marcadas, mas há uma ligeira tendência de melhoria entre os 35 e os 64 anos (28,1%), em comparação com os mais jovens (28,1%) e os mais velhos (31,3%).

Por fim, e a complementar o pódio dos cinco grandes fatores de risco, está o tabagismo, definido como consumo diário ou ocasional de tabaco. Este fator foi reportado por 25,4% da população inquirida, mais prevalente nos homens (32,1%) e nos mais jovens (35,7% nos 18–34 anos), refletindo tendências de iniciação precoce e menor abandono entre os grupos mais novos.

“O AVC e o enfarte manifestam-se em órgãos distintos, mas os fatores de risco são os mesmos (…). Faz sentido falar em risco vascular global e é importante que a população seja informada de que existem poucos fatores de risco e que vários são modificáveis, como hipertensão, diabetes, tabaco ou estilo de vida pouco saudável.”
Diogo Cavaco, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia

O presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA), assim como o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, salientam o alinhamento do estudo português com dois grandes estudos epidemiológicos internacionais — o INTERHEART e o INTERSTROKE — que demonstraram que nove fatores de risco, os mesmos avaliados no e_COR, justificam mais de 90% dos casos de enfarte e AVC a nível global. “Isso é um dado muito relevante, porque reforça que estamos a medir o que realmente interessa”, diz Francisco Araújo.

Ainda assim, o médico diz que muita coisa mudou desde a recolha de dados do e_COR, entre 2012 e 2014. “Há muitas condicionantes sociais que mudaram nesses anos em Portugal e no mundo: o acesso aos cuidados de saúde, o custo da medicação, os comportamentos de risco, a própria educação em saúde.” Além disso, observa, a composição demográfica também se alterou, com o aumento da população imigrante, cujos padrões de risco cardiovascular podem diferir da população mediterrânica.

Diogo Cavaco acrescentou a importância do estudo PURE que contempla mais de 155 mil pessoas em 21 países distintos (divididos em elevado, médio e baixo rendimento) e chega a uma conclusão que é comum a todos estes estudos, incluindo os mais antigos e já referidos INTEHEART e INTERSTROKE: “Existe um número pequeno de fatores de risco, muitos deles modificáveis, que são os principais responsáveis pela doenças cardiovasculares mais comuns — enfarte e AVC, por exemplo. “O Plano Estratégico para as Doenças Cardiovasculares da Sociedade Portuguesa de Cardiologia pretende, a médio prazo, fazer um diagnóstico da realidade epidemiológica nacional. Uma das áreas consideradas como prioritárias no plano estratégico foi o risco cardiovascular”.

Acumulação de risco: o número de fatores importa

Um dos aspetos mais consistentes do retrato epidemiológico traçado pelo estudo é a constatação de que os fatores de risco raramente ocorrem isoladamente. A maioria dos adultos portugueses apresenta dois ou mais fatores em simultâneo, o que contribui para aumentar o risco global de eventos cardiovasculares ao longo da vida.

Para complementar os dados populacionais do e_COR, Francisco Araújo destaca um estudo de carga e custo da aterosclerose realizado em 2016, na ARS Lisboa e Vale do Tejo, envolvendo mais de 300 mil utentes dos cuidados de saúde primários. “Percebeu-se que a prevalência destes fatores de risco é elevadíssima”, afirma. Segundo o presidente da SPA, os dados mostram que, entre os utentes com mais de 40 anos, os valores observados em consulta rondam os 40% para a diabetes, 50% para o colesterol elevado e mais de 60% para a hipertensão arterial.

▲ Os homens têm maior tendência para desenvolver três ou mais fatores de risco em simultâneo — alguns deles são comportamentais, ou seja, podem ser evitáveis

Esses dados — ainda não publicados em revista científica — ajudam, segundo o profissional, a perceber o que se passa num contexto clínico, entre pessoas acompanhadas nos centros de saúde, o que difere da amostra geral do e_COR, desenhada para representar a população portuguesa no seu conjunto, incluindo indivíduos não doentes e sem contacto regular com os serviços de saúde.

Também o estudo LATINO, [da co-responsabilidade da SPA e da Novartis, parceiros do Observador no projeto Arterial], confirma esta acumulação: 40% dos doentes seguidos em cuidados de saúde primários estão em risco cardiovascular elevado ou muito elevado. “Mais uma vez, a prevalência destes fatores acumula-se e cria risco. Isto não é um tema só da cardiologia, é de todo o sistema de saúde”, sublinha Francisco Araújo.

Segundo a distribuição estimada com base na amostra nacional do e_COR, cerca de 10,3% da população adulta não apresentava qualquer um dos nove fatores de risco avaliados. Outros 21,5% tinham apenas um fator isolado. A partir daí, as combinações tornam-se mais frequentes: 24,1% tinham dois fatores, 22,2% apresentavam três e 12,9% acumulavam quatro. Em percentagens mais baixas, mas ainda relevantes, 6,4% tinham cinco fatores de risco identificados.

Os fatores de risco raramente ocorrem isoladamente. A maioria dos adultos portugueses apresenta dois ou mais fatores em simultâneo, o que contribui para aumentar o risco global de eventos cardiovasculares ao longo da vida.

Os dados desagregados por idade e género ajudam a compreender como esta acumulação varia ao longo da vida. Entre os jovens dos 18 aos 34 anos, 21,8% não tinham qualquer fator, mas 34,1% já apresentavam um e 27,6% tinham dois. Na faixa dos 65 aos 79 anos, apenas 1,6% não tinham fatores, e mais de um terço (34,6%) acumulava já três. Entre os homens, 7,0% estavam livres de fatores de risco, face a 13,7% das mulheres.

Esta tendência de acumulação acompanha o envelhecimento, mas também está presente em idades mais precoces, através de padrões de risco distintos. A conjugação de excesso de peso, tabagismo e inatividade física, por exemplo, surge com frequência nos mais jovens, mesmo que os níveis de hipertensão ou colesterol ainda sejam baixos.

Diogo Cavaco salienta que a acumulação tem implicações clínicas diretas, especialmente nos critérios de tratamento.. “A acumulação de fatores de risco aumenta de forma significativa o risco de doença vascular. Esse é um dos motivos pelo qual a terapêutica deve ser mais ‘exigente’ quando há mais do que um fator de risco presente. Por exemplo, num diabético, o objetivo (valor alvo) para o nível de colesterol é mais exigente (procura-se atingir um valor mais baixo) do que em um não diabético. Isto é claro para os médicos que tratam estes doentes. Não é tão claro para a população.”

Os outros fatores de risco: menos frequentes, mas não menos importantes

Para além dos cinco fatores de risco mais comuns, o estudo identificou outros quatro que, embora com menor prevalência, contribuem significativamente para o risco cardiovascular global, sobretudo quando combinados com outros. O estudo identificou o “colesterol bom”, o colesterol HDL baixo, (<40 mg/dL) em 14,0% da população. Este valor foi mais elevado nos homens e aumentou com a idade.

Outro fator incluído foi a história familiar de doença cardiovascular prematura, identificada em 11,8% dos indivíduos inquiridos. Este risco hereditário foi definido no estudo como a existência de um familiar direto (homem antes dos 55 anos ou mulher antes dos 65) com evento cardiovascular.

“Os jovens estão completamente a leste. E os mais velhos acham que é inevitável adoecer com a idade. Isso não é verdade. Se formos ao médico uma vez por ano perceber como estão as análises e a pressão arterial e ajustarmos os comportamentos, conseguimos mudar o curso da doença.”
Francisco Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose

Já a diabetes mellitus, uma alteração no modo como o corpo regula o açúcar no sangue, foi identificada em 8,9% da população adulta — seja por diagnóstico prévio, valores de glicemia em jejum ≥126 mg/dL, ou HbA1c ≥6,5%. Tal como noutros fatores, a prevalência aumentava com a idade: entre os 65 e os 79 anos, 21,9% preenchiam os critérios utilizados no estudo para diagnóstico de diabetes. Um aspeto relevante do estudo é que uma parte significativa dos diabéticos não tinha a doença sob controlo — apenas 64% apresentavam valores de HbA1c <7%. “Na população dos diabéticos, 80,7% tinham conhecimento da patologia e 64,0% apresentavam valores normais de glicemia no momento do estudo. Dos 82,0% de diabéticos medicados farmacologicamente, 60,7% estavam controlados”, lê-se no documento.

A prevalência de triglicéridos elevados, definidos como valores iguais ou superiores a 200 mg/dL ou em tratamento específico, foi de 8,6% na população adulta. Este valor foi superior nos homens (11,9%) do que nas mulheres (5,8%) e aumentou com a idade: de 3,9% nos 18–34 anos para 12,6% nos 65–79.

Nenhum destes fatores, por si só, é dominante no risco cardiovascular. Mas todos contribuem para o perfil global de risco composto, sobretudo quando coexistem. Ainda assim, o maior desafio parece estar na perceção do risco. “O AVC e o enfarte são manifestações em órgãos distintos de doença vascular aterosclerótica. Os fatores de risco para estas duas manifestações são os mesmos, embora não com o mesmo peso”, defende Diogo Cavaco, esclarecendo que, por exemplo, para o AVC a hipertensão é o fator de risco mais importante e para o enfarte é o nível de colesterol. “Do ponto de vista de comunicação faz sentido falar em risco vascular global e é importante que a população seja informada [literacia em saúde] de que existem poucos fatores de risco e que vários são modificáveis, como hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes, tabagismo, estilo de vida pouco saudável”, defende o cardiologista.

Por seu lado, Francisco Araújo salienta que a população portuguesa continua a subestimar o impacto acumulado destes fatores — especialmente os mais jovens. “A população mais jovem está completamente a leste. Não é do paraíso, mas da possibilidade de contrair a doença”. E entre os mais velhos, há uma espécie de resignação: “Acham que é inevitável adoecer com a idade, e não é verdade. Podemos modular o risco”.

A mensagem do internista é clara: o risco cardiovascular constrói-se ao longo do tempo, muitas vezes sem sintomas, e pode ser modificado desde cedo. “Se formos ao médico uma vez por ano perceber como estão as análises [ao sangue], a pressão arterial, e ajustarmos os comportamentos, conseguimos mudar o curso da doença.” A prevenção, reforça, não deve ser vista como um gesto pontual, mas como um caminho continuado que pode fazer a diferença no envelhecimento saudável.

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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

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