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É uma doença crónica, silenciosa e nem sempre dá sintomas, o que faz com que os doentes passem muitos anos sem o devido diagnóstico. Os últimos estudos indicam que quase metade dos portugueses têm hipertensão e uma em cada quatro pessoas desconhece ter a doença, considerada como uma das principais causas do AVC e do enfarte, que constituem a principal causa de morte em Portugal. Os números são surpreendentes e preocupam médicos, representantes de associações de doentes e sociedades científicas. O que pode ser feito para mudar a realidade e para melhorar os indicadores de saúde? É sobre este tema que vou falar com Fernando Marques Gonçalves, presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Hipertensão. Eu sou a Cláudia Pinto e esta é a entrevista "Se eu fosse Ministro da Saúde". Fernando Marques Gonçalves, bem-vindo. Este é um problema identificado há muitos anos e bastante divulgado na comunicação social. Se tivesse o poder de mudar alguma coisa no Serviço Nacional de Saúde para resolver a mortalidade devido às doenças cerebrocardiovasculares, qual seria a primeira prioridade?
Essa é uma pergunta espetacular, e se eu tivesse esse poder... Mas a primeira prioridade talvez fosse, uma vez que os serviços de saúde e os cuidados primários sabem os doentes que são hipertensos, chamar esses doentes todos e ver se estão controlados. Porque nós sabemos que, de facto, mesmo os tratados, à volta de 30% a 40% não estão controlados. Portanto, eu se calhar começaria por esses. Esses que já sabemos, e vamos ver se estão controlados ou ver o que se passa com eles, convocá-los, chamá-los, ensinar como é que devem fazer. Seria essa a primeira medida. Mas depois há outras, naturalmente.
Essa era uma pergunta que eu tinha para lhe fazer, precisamente sobre aquelas pessoas que já foram diagnosticadas e que estão em tratamento. O que leva a que as pessoas não adiram à terapêutica e não continuem o seu tratamento? É porque é silencioso e eu até me sinto bem e acho que até consigo viver sem precisar de um medicamento. Quais são os fatores que identificam em consulta e que justificam essa paragem ou o não cumprimento do tratamento adequado?
Há muitos fatores. De facto, é uma situação crónica, que não dói, que não dá comichão, não me põe mais feio, não me põe amarelo, portanto, esse é um problema. E depois, muitas vezes também, quando são jovens, o estigma de ter uma doença crónica e ter que fazer o tratamento toda a vida, também afasta. Isso também está estudado, nomeadamente estudos de companhias de seguros nos Estados Unidos, as pessoas jovens não gostam. Depois, o problema começa logo pela adesão à terapêutica. Uma vez que tem todas estas características, as pessoas não aderem. E nós sabemos hoje que dos medicamentos que passamos, alguns deles não sequer são levantados na farmácia. Uns são levantados na farmácia, mas muitos não se tomam e muitas vezes, inclusivamente, a persistência, ou seja, continuar o tratamento, também perde-se. Nós sabemos que há estudos que dizem que 50% dos doentes aos seis meses já não fazem o tratamento.
Relativamente a esses medicamentos para a hipertensão, são medicamentos que têm efeitos secundários que sejam importantes e que possam levar à descontinuação ou esse não é um fator importante?
É isso que nos incomoda um pouco a nós, os médicos, porque de facto hoje temos uma panóplia de medicamentos vasta, bem tolerados, com eficácia, geralmente em associação, vale a pena introduzir esse tema. Geralmente, é um comprimido único, mas terá mais do que uma substância ativa. Portanto, isso existe. Hoje não é difícil. Antigamente, sim, havia, davam dor de cabeça, tinham problemas. Hoje em dia temos uma medicação francamente eficaz e tolerável. A maioria dos doentes conseguiríamos resolver com os medicamentos que temos. Ficariam muito poucos doentes de fora, se tomassem a medicação e cumprissem.
E relativamente a este desconhecimento da hipertensão arterial por parte dos doentes e também enquanto uma das causas das doenças cerebrocardiovasculares, as pessoas conseguem identificar o que é uma pressão arterial normal, alta ou baixa? E o facto de ser silenciosa, se não forem ao médico, podem estar anos com a pressão arterial descontrolada e não percebem, o que leva a esse desconhecimento?
De facto, é mesmo isso. Por isso é que é uma das doenças consideradas um assassino silencioso. De facto, não dá sintomas. Se as pessoas não forem medir a pressão arterial, e medir também tem que ser bem medido, com bons aparelhos, mas essa é outra questão. Mas se não forem medir, de facto não sabem se são hipertensos, porque não dá sintomas. Aqueles sintomas clássicos, dor de cabeça, isso tanto acontece em normotensos como hipertensos. Eu recordo, nos primeiros anos no Hospital Santa Maria, tinha uma senhora com pressões arteriais da ordem dos 26/16, ou seja, 260 a 160, e não tinha dor de cabeça, não tinha nada. Portanto, as dores de cabeça podem acontecer em regime de hipertensão ou em regime de normotensão. Não nos agarremos a sintomas, que por aí não vamos lá. Pode ser totalmente assintomática.
E isso pode levar a que as pessoas também desconfiem um pouco desta questão da medicação que está a ser prescrita, ou seja, eu até me sinto bem, não tenho qualquer sinal, eu faço a minha vida normal, como é que eu posso ter uma pressão arterial na ordem dos valores que me acabou de dizer?
Pois, é um facto. E conhecem outras pessoas que deixaram de fazer a medicação, inclusivamente alguns alcançam os valores normais, deixam de fazer, pensam que o assunto está resolvido, mas isto não se cura, não é uma situação que se cure. De facto, há vários motivos, se formos ver, estão elencados vários motivos para deixar de tomar. Nós sabemos é que a carga tensional, ou seja, quanto mais anos a pessoa estiver com a pressão arterial elevada, o risco de ter uma complicação, bem seja um acidente vascular cerebral ou AVC, que são os mais chamativos, mas há mais, o risco aumenta. E o tempo é fundamental, ou seja, a carga tensional, o tempo, em anos, que as pessoas têm a pressão arterial elevada, isso conta de maneira progressiva e é isso que há que evitar, e é esse o nosso papel.
Então, se as pessoas conseguissem identificar mais cedo que têm hipertensão, estes números de mortalidade e incapacidade prematura ligados ao AVC ou enfarte, que não são exclusivos de Portugal, mas sim a nível mundial, poderiam ser revertidos?
Não tenho dúvidas que isso seria um facto. Mas atenção, estamos a falar basicamente de hipertensão arterial, mas convinha aqui também introduzir que os doentes não são só hipertensos. Dificilmente temos um doente só hipertenso. É muito provável que tenha um pouquinho de peso a mais, é muito provável que fume e não deva fumar, poderá ser diabético, poderá ter o colesterol alto, outra situação que se não fizer análises, ninguém sabe. Portanto, convém ver o doente como um todo e nesse aspecto é fundamental que passe pelo seu médico, que tenha acesso ao seu médico e que siga as instruções, porque hoje em dia, felizmente, os médicos estão todos capacitados, desde os cuidados de saúde primários até às especialidades de hospital, estão todos preparados e adequados para dar bons conselhos.
Estamos a falar então de doentes que podem ter vários fatores de risco, por um lado, e podem ser polimedicados ou podem ser pessoas com várias doenças crônicas em simultâneo.
É o mais provável. Vamos imaginar alguém com 60, 65 anos, dificilmente encontraremos alguém que seja só hipertenso. Certamente que vai ter ou um pouquinho de peso a mais. As pessoas costumam rir de mim, que eu costumo dizer: "O doente tem os bocadinhos, tem um bocadinho disto, um bocadinho daquilo". Mas isso tudo junto potencia o risco e depois nós no hospital vemos o que é que acontece.
Que também é um desafio grande, porque mudar hábitos de vida, que são fatores de risco importantes, como seja também o exercício físico, a questão da alimentação saudável, também é difícil mudar tudo de uma só vez.
Sim, será que sim. Teremos que ter uma estratégia, cada doente é um doente e, de facto, nem sequer devemos ter uma estratégia paternalista nem de castigar. Isso depois já depende do doente. E se calhar podemos recuar um pouquinho. Se calhar ensino nas escolas, que é a prevenção primordial, antes de haver qualquer coisa. Contato também com as autarquias, com as câmaras municipais e com as juntas de freguesia, mais atividade desportiva, enfim, mais atividade física. Isso é o que vale a pena apostar: na prevenção, porque quando temos os estragos, já é tarde. Portanto, a ver se nós conseguimos ter uma população mais saudável. E o caminho há uns anos até estava a trilhar no bom sentido. Havia uma diminuição, que pensamos que neste momento, entre o Covid e outras circunstâncias, poucos médicos de família. Não é muito simpático falar nesse tema, mas de facto, há alguma dificuldade dos utentes acederem ao seu médico, portanto isso também provavelmente não está a ajudar, mas eu espero que isso vá mudar.
Continuamos com mais de 1.700.000 pessoas sem médico de família atribuído. E muitas vezes, quando existe um médico de família, qualquer um de nós sabe que é difícil marcar uma consulta e isso também pode ser uma barreira e desmotivador para o doente, certo?
É um facto. E sobretudo a segunda consulta, depois, por exemplo, a nível hospitalar, como trabalho, a segunda consulta é um pouco dilatada no tempo. Isso não ajuda. Mas também queria introduzir aqui outra estratégia, digamos, cada vez mais em voga, e isto provavelmente não vão ser só os médicos sozinhos que vão poder fazer, até porque há poucos, e vai continuar a haver poucos. Esta é a verdade. Portanto, cada vez mais falamos de uma equipa e os enfermeiros poderão ajudar, as farmácias poderão ajudar, e é nesse sentido vamos caminhar. É fundamental o médico para diagnosticar, ver se é verdade, se há alguma causa, porque há uma porcentagem muito baixa de hipertensões em que há uma causa que se poderá potencialmente resolver. A maioria das outras, não. Crônicas, para toda a vida e tratar. Portanto, o médico uma vez que faça o diagnóstico, depois pode ser ajudado por enfermeiros, inclusivamente pelas farmácias, e estamos a trabalhar um pouco nesse sentido e eu penso que isso vai dar frutos, porque se vamos estar à espera que haja médicos e tudo passe pelo médico, provavelmente não vamos resolver o problema tão depressa.
Existe a opinião unânime, pelo menos daquilo que nós temos ouvido aqui no Arterial, que é o projeto observador dedicado às doenças cerebrovasculares, que falta uma estratégia que integre realmente, como se fala em equipa multidisciplinar, mas que integre pessoas de vários setores. É isso que vocês também defendem na Sociedade Portuguesa de Hipertensão.
E nós nesse sentido temos algum trabalho, obviamente está a começar, mas com a equipa, nomeadamente com a direção que está presente, ainda atual, a doutora Rosa Pinho, temos feito reuniões inclusivamente não só com outros colegas, medicina geral e familiar, e também inclusivamente com a farmácia, e temos feito algumas reuniões em conjunto e isso vai continuar. Portanto, a finalidade é trabalharmos todos em conjunto e o Team Based Care, que é o nome anglo-saxónico desta situação, acho que é fundamental e vai ajudar. Não vai poder passar tudo só pelo médico, porque não há e não vai haver e não é fundamental. Ou seja, há outras formas de fazer o que temos que fazer, que é ter mais doentes controlados, prevenção o mais cedo possível, enfim, ver se não chegam a ter as lesões, porque muitas vezes a hipertensão dá lesões que já não se consegue voltar atrás.
Existem medidas que assistem em outros países da Europa. Há normas também, chamadas guidelines, que ajudam também a organizar a forma como estas doenças podem ser tratadas. Mas existe alguma medida na Europa ou que exista noutros países e que considere que ainda não chegou a Portugal e que fez a diferença no tratamento, na prevenção ou na gestão e no tratamento das doenças cerebrocardiovasculares, ou estamos mais ou menos equiparados ao que se faz lá fora?
Eu sinceramente, na minha modesta opinião, enfim, já estou na sociedade e nesta atividade há muito tempo, portanto, estou a falar em casa própria, eu penso que nós não estamos nada longe da Europa, inclusivamente a nível da Sociedade Europeia de Hipertensão, somos reconhecidos como bom trabalho, inclusivamente temos tido trabalho na área do sal, que é outro aspecto, inclusivamente a participação na mudança da lei, portanto, nesse aspecto, estamos à vontade, estamos de cabeça erguida em relação à Europa, indiscutivelmente.Mas claro, há sempre mais para fazer.
Que mensagem é que daria às pessoas que nos estão a ouvir relativamente a esta doença em particular? Depois as outras acabam por também ser importantes. Esta doença que simultaneamente é um fator de risco, mas que mensagem é que daria às pessoas?
A mensagem que eu diria é: se sabem que são hipertensos, já o médico uma vez disse que têm que fazer medicação, por amor de Deus, se quiserem o termo, cumpram as indicações e façam a medicação. Não é certamente difícil conseguir obter as receitas posteriores, portanto fazer. Aqueles que não sabem, porque não foram ao médico, nunca tiveram o cuidado de ver, não lhes chamou a atenção, porque se estão à espera de sintomas é tarde, esses têm que procurar um médico e ver, porque nós sabemos que ao longo da idade, a pressão arterial vai aumentando. Eu costumo dizer, na escola primária é difícil encontrarmos algum hipertenso, mas se formos à universidade ou à terceira idade, são quase 50%. Isto vai aumentando com a idade. Quem não sabe se é, é melhor ver, aconselhar-se, ir ao médico de família, ver se é hipertensa ou não. Quem já sabe que é, cumprir a medicação. Não é em vão e faz toda a diferença ou pode fazer toda a diferença. Porque não estamos a falar só de se morre antes e há mais AVCs, mas é que muitas vezes pode-se ficar com alguma alteração, enfim, deixar de poder andar ou ficar confinado a uma cama, a uma cadeira de rodas, e isso, de facto, não é nada agradável. Não é agradável morrer antes do que é suposto, mas também não é nada agradável aos 50 ou 60 anos ter uma doença que nos deixa de trabalhar, sermos dependentes de tudo. Infelizmente, nós vemos que os acidentes vasculares cerebrais que temos, muitos doentes ficam com sequelas, e isso não é nada simpático.
Muitas vezes a farmácia também pode ser um primeiro canal, porque medir a pressão arterial até é relativamente simples e o diagnóstico até pode ser, comparando com outras doenças, um diagnóstico que se faz de uma forma mais fácil, entre aspas, mas a farmácia, por exemplo, a pessoa pode fazer uma medição da pressão arterial na farmácia e depois eventualmente ir repetindo e ser uma primeira porta de entrada. Estou a pensar bem?
Indiscutível. De facto, a farmácia é um dos parceiros nesta equipa. Se bem que nós, em termos de diagnóstico de hipertensão, há algumas regras, mais ou menos.
Claro, que é preciso mais.
Repouso, cinco minutos, pés no chão, enfim, não ter comido há pouco tempo, não ter bebido um café. É ótimo passar pela farmácia se os valores estiverem elevados. Se confirmar, procure o médico e depois logo se vai ver se é verdade, se foi de que foi a correr ou outra circunstância qualquer. Mas se teve uma pressão elevada, a probabilidade de ser mesmo hipertensão é grande, portanto, é um magnífico local por onde as coisas podem começar e onde nós sabemos que muita gente recorre. É mais fácil recorrer à farmácia do que recorrer ao médico.
E depois o médico fará a confirmação ou não e fará outros testes de despiste, mas pelo menos para um alerta e para a pessoa ficar desconfiada, pode ser uma boa solução.
Perfeito. Acho que sim. É uma magnífica entrada nesta estratégia, sim. E os farmacêuticos fazem parte também. Como digo, nós neste momento já temos um curso, inclusivamente com os farmacêuticos, e vamos fazer este ano outra vez. Isso faz parte da nossa organização e da nossa estratégia.
Muito bem. Esta foi a entrevista "Se eu fosse Ministro da Saúde", disponível nas plataformas de podcast habituais e no site do Observador. É neste site que pode aceder a todos os conteúdos do Arterial, o projeto do Observador dedicado às doenças cérebro-cardiovasculares, e responder a um inquérito sobre os seus hábitos de saúde e o seu conhecimento sobre estas doenças. Passe por lá. Obrigada e até a um próximo episódio.