Cada vez que alguém em Portugal é internado por um enfarte ou por angina instável, o Estado gasta, em média, mais de 6.200 euros. Ao longo de duas décadas, o peso acumulado destes episódios cardíacos ultrapassou os 1,8 mil milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). O número torna-se ainda mais relevante quando se percebe que estas hospitalizações representaram, em média, quase 1% de toda a despesa anual em saúde ao longo das últimas duas décadas.
Um enfarte agudo do miocárdio é a morte — ou lesão — de células do músculo cardíaco que bombeia o sangue pelo corpo, causada pela interrupção repentina da circulação. A angina instável é uma redução súbita do fluxo sanguíneo, sem provocar enfarte. São situações comuns (mais de dez mil casos por ano) e muito graves, com cerca de 40% dos casos a obrigar a tratamento imediato e números de mortes que rondam as quatro mil anuais.
Um estudo conduzido por investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública analisou 61.440 episódios clínicos de síndromes coronárias agudas (situações graves causadas por coágulos nas artérias coronárias, com risco de obstruir a irrigação cardíaca) registados no sistema público de saúde entre 2002 e 2022. Se particularizarmos no enfarte, verificamos um encargo constante para o SNS ao longo dos últimos vinte anos [imagem 1], período durante o qual o custo anual do tratamento destas doenças no SNS variou entre os mais de cem milhões de euros, em 2014, e os 42 milhões, em 2022, devido à pandemia.
▲ Imagem 1 | Custo total do tratamento do enfarte em contas do SNS
Marina Chen
Os custos mais elevados verificaram-se nos casos mais graves. Nos denominados “enfartes com supradesnivelamento do segmento ST”, o valor médio ultrapassou os 7.900 euros por paciente e, nos doentes que morreram durante o internamento, a fatura disparou para mais de 18 mil euros. Este tipo de enfarte, conhecido como STEMI, corresponde a uma situação grave em que uma das artérias do coração fica totalmente bloqueada, o que se reflete numa alteração específica do eletrocardiograma.
“A diferença de custos médios observada entre diferentes grupos é coerente com a literatura mais recente nesta área, particularmente em sistemas de saúde públicos comparáveis ao português”, diz Francisco Madeira, investigador principal do estudo e bolseiro de investigação da Escola Nacional de Saúde Pública. Estas oscilações de custo estão sobretudo ligadas às várias formas de síndromes coronárias agudas — como o STEMI, o NSTEMI [tipo de enfarte do miocárdio menos grave do que o STEMI] ou a angina instável — e aos tratamentos que cada uma exige.
Os custos que vieram com a pandemia
Nas síndromes coronárias agudas (SCA), a maior fatia da despesa está associada a procedimentos invasivos como a angioplastia e a cirurgia cardíaca, mas também às complicações, aos dias de internamento e aos medicamentos. Curiosamente, os custos subiram até 2011 [imagem 2], mas depois começaram a cair, à exceção do ano de 2020, altura em que, como descreve o estudo, com a pandemia, os doentes chegavam ao hospital mais tarde e em piores condições, o que obrigava a tratamentos mais complexos.
“Até 2011, os custos aumentaram sobretudo porque se faziam mais intervenções cirúrgicas para tratar todas as artérias afetadas, em vez de recorrer à fibrinólise — um tratamento com medicamentos que dissolvem coágulos, mas que foi sendo usado cada vez menos”, explica Francisco Madeira, coautor do estudo. “Depois de 2011 [com exceção de 2020], os custos começaram a descer, possivelmente porque as recomendações europeias passaram a sugerir uma abordagem de revascularização [desobstruir as artérias e melhorar a circulação sanguínea] mais conservadora, focada apenas na artéria que causou o enfarte”. O especialista acrescenta que a substituição gradual da cirurgia de bypass por angioplastia também pode ter contribuído, “por ser, em muitos casos, uma opção mais barata e com menos tempo de internamento”.
Mesmo com esta tendência de descida, o peso financeiro das SCA no orçamento da saúde pública continua expressivo. Durante o período analisado, representaram em média 0,93% da despesa anual do SNS. Em 2002, chegaram a pesar 1,21% do total. Em 2022, esse valor rondava os 0,33%. “No nosso estudo, observámos que, embora o aumento do número de procedimentos de cardiologia de intervenção e de complicações tenha implicado aumentos significativos nos custos, os mais expressivos resultaram do maior recurso a intervenções com utilização de dispositivos CRT [dispositivos médicos implantáveis usados para tratar a insuficiência cardíaca] e DCI+CRT, ventilação mecânica invasiva e assistência ventricular”, diz Francisco Madeira. DCI é, basicamente, um desfibrilador implantável. “Este resultado reforça a importância de alinhar a prática clínica com recomendações internacionais, bem como garantir que as intervenções têm um benefício económico para além do clínico, garantindo sustentabilidade económica.”
A análise mostra ainda que os custos são influenciados por vários fatores: homens e doentes mais novos tendem a ser tratados com intervenções mais dispendiosas; doentes com diabetes, historial de enfartes ou tabagismo acumulam mais complicações e internamentos mais longos. E há também diferenças importantes entre as várias regiões do país.
“É fundamental que as decisões clínicas continuem a basear-se nas melhores práticas recomendadas pelas normas internacionais e nacionais, assegurando que cada utente recebe a intervenção mais apropriada para a sua situação específica”, defende o investigador. “No entanto, salvaguardando este princípio, existem áreas onde é possível otimizar a alocação de recursos, nomeadamente através da redução de internamentos prolongados para além do clinicamente necessário.”
Francisco Madeira chama ainda a atenção para uma das limitações que o estudo enfrentou, de resto “habituais neste tipo de análise económica, nomeadamente a escassez de informação disponível sobre o custo real de cada recurso individual”. Para ultrapassar esta limitação, a equipa fez “um trabalho exaustivo de levantamento e validação, recorrendo a múltiplas fontes de informação [incluindo bases de dados administrativas, literatura científica, tabelas de preços oficiais e especialistas clínicos], de forma a garantir estimativas tão robustas e coerentes quanto possível”.
▲ Imagem 2 | Custo anual do enfarte por paciente em Portugal
“Apesar disso, não nos foi possível contabilizar alguns recursos de carácter fixo, como despesas de eletricidade ou água, ou outras despesas com alguns materiais utilizados para a intervenção, como compressas, agulhas, etc., e com a manutenção. Ora, para saber estas coisas, seria necessário um sistema de contabilidade de gestão que os hospitais não têm”, aponta. “Foi a forma que utilizámos porque é a única possível.”
O investigador sublinha ainda que os dados do estudo se baseiam no registo ProACS, utilizado para descrever o episódio de internamento de SCA por paciente, coordenado pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que não cobre todos os hospitais e varia no número de centros incluídos ao longo do tempo. Por isso, “as conclusões devem ser interpretadas com esta limitação em mente e ajustadas à realidade específica de cada centro e região”.
“A experiência do ProACS é única, no sentido de um registo alargado de doentes ao longo de vários anos, com determinadas doenças, o que é essencial, não só para medir custos, mas também para conhecer o perfil dos doentes e a sua evolução, e ver o que acontece em função dos tratamentos, para melhorar as práticas clínicas. Infelizmente este tipo de registo é bastante excecional em Portugal, embora deveria existir para todo o tipo de doenças”, conclui.
Doenças cardiovasculares: mortalidade elevada, custo invisível
Foquemo-nos agora nas doenças cardiovasculares, que em Portugal, como na Europa, continuam a ser a principal causa de morte, sobretudo entre os homens. De acordo com o relatório EU27 Cardiovascular Realities 2025, em 2021 morreram 56.214 homens e 56.120 mulheres por causas ligadas ao sistema cardiovascular. Esta carga traduz-se não só em vidas perdidas, mas num impacto económico expressivo e transversal.
Como se vê na imagem 3, o custo total anual das doenças cérebro-cardiovasculares em Portugal (ou seja, incluindo o AVC), ascende a 3,77 mil milhões de euros. A maior fatia desse valor está concentrada nos cuidados de saúde (42%), mas o peso dos cuidados informais (33%) — tempo e esforço de familiares e cuidadores não remunerados — é igualmente significativo. As perdas por mortalidade precoce (14%), os cuidados sociais (6%) e as perdas por morbilidade, como ausências ao trabalho ou incapacidades permanentes (5%), completam o retrato.
“O envelhecimento, por si só, não é um problema, é uma conquista da civilização. O verdadeiro desafio reside em como envelhecemos e nas implicações que isso tem para os sistemas de saúde”, diz Carolina Santos, investigadora em Economia da Saúde na Nova SBE. “À medida que as pessoas vivem mais tempo, tendem a acumular doenças crónicas, como as cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de morte em Portugal. Estas doenças não afetam apenas a saúde dos indivíduos; são também responsáveis por custos significativos para o sistema, quer em internamentos, quer em cuidados de longa duração.”
Carolina Santos considera também essencial “repensar a organização dos cuidados”, com uma rede forte de cuidados primários, continuados e modelos integrados que garantam continuidade em contextos de multimorbilidade (ou seja, que têm várias doenças ao mesmo tempo). “É ineficiente continuarmos a depender em excesso de internamentos hospitalares evitáveis por falta de resposta a montante.”
No que toca aos cuidados informais, que representam um terço do custo das doenças cardiovasculares, a economista lembra que “estes cuidadores, maioritariamente mulheres, prestam cuidados de forma não remunerada, acumulando funções com o trabalho e a gestão da vida pessoal”, e que essa prestação “pode trazer consequências sérias: desde o esgotamento físico e emocional, à perda de rendimento ou até ao abandono precoce do mercado laboral formal”.
Por isso, rejeita que os cuidados informais sejam tratados como um “recurso gratuito”. “Há custos de oportunidade e impactos reais na saúde e bem-estar de quem cuida”. E conclui: “Cuidar custa, mas custa menos se os cuidados forem prestados com visão, com proximidade e com compromisso público”.
No plano das decisões de financiamento, Carolina Santos defende que os custos indiretos, como as perdas de produtividade, devem ter um peso muito maior nas políticas públicas: “Quando uma pessoa em idade ativa sofre um enfarte ou fica incapacitada por uma doença crónica, não estamos apenas a falar de custos com prestação de cuidado no SNS — estamos também a falar de perdas de produtividade, de impacto sobre as famílias e de consequências para o tecido económico do país.”
▲ Imagem 3 | Despesas com doenças cérebro-cardiovasculares em Portugal
Marina Chen
Apesar disso, reconhece que a prevenção continua a ser a área mais desvalorizada. “As intervenções de prevenção primária, embora muitas vezes mais custo-efetivas, tendem a ser desvalorizadas, porque os seus benefícios são mais difusos e de longo prazo.” E sublinha: “Precisamos de coragem política para investir naquilo que funciona, mesmo que não traga visibilidade imediata. Porque no fundo, a prevenção é o verdadeiro pilar da sustentabilidade”.
O cardiologista Carlos Aguiar, vice-presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia, deixa um alerta claro aos decisores: “A guerra não está ganha e as doenças cardiovasculares são, de facto, a primeira causa de morte em todo o mundo, na Europa e em Portugal também”. O médico destaca que até mesmo outras áreas da medicina não estão imunes. “As pessoas que sobrevivem a um cancro têm um risco francamente aumentado de vir a ter doenças cardiovasculares e a morrer de doença cardiovascular.”
O especialista critica o estigma que ainda se associa a estas patologias. “As doenças cardiovasculares são muito atribuídas pelas pessoas do público em geral — por nós e pelos próprios políticos — a comportamentos individuais: fumar, não fazer exercício, má alimentação. E isto tudo vai ter onde? Culpa. Isto é culpa das pessoas”, afirma, sublinhando, que para combater este problema, devem ser desenhadas “políticas fomentem a saúde cardiovascular e a prevenção. Não só a prevenção primordial, a prevenção primária, a prevenção secundária, mas também a prevenção terciária, que é a reabilitação”.
Para o cardiologista, a falta de visibilidade também alimenta o problema: “Hoje em dia, um ator conhecido, uma pessoa famosa, uma rainha, fala facilmente de um cancro. Mas ninguém conhecido vai à televisão ou faz publicidade de que teve um enfarte ou um AVC.”
Além do estigma, Carlos Aguiar identifica duas dinâmicas que ajudam a explicar uma inversão preocupante na mortalidade: “A mortalidade por doenças do aparelho circulatório tem vindo a diminuir francamente. Tem sido uma história, apesar de tudo, de sucesso nos últimos anos. Mas é verdade que de há uns dez anos a esta parte se nota alguma estagnação e até um começar a subir outra vez a mortalidade”. As razões? O envelhecimento populacional, “porque nós estamos todos a viver mais tempo”, e a aumento da obesidade e da diabetes, que o especialista considera como “aceleradores do envelhecimento vascular”.
Sobre os custos, Carlos Aguiar lembra que as doenças cérebro-cardiovasculares “são crónicas, com altos e baixos, têm períodos de agudização”, e esses episódios “têm custos para a própria doença e para a pessoa doente e para quem depende dela”. Para os atenuar, defende um modelo de cuidados centrado no doente: “Temos de centralizar os cuidados das doenças crónicas na pessoa, criar um sistema de saúde no qual o doente não tenha que circular. Somos nós que temos que circular à volta do doente”.
O especialista identifica três prioridades de investimento:
- diagnóstico precoce, sobretudo nos cuidados primários (centros de saúde);
- aumento da literacia em saúde, “para que as pessoas entendam melhor as suas doenças, os seus medicamentos, e saibam fazer as perguntas adequadas”;
- e reabilitação cardíaca, que considera “muito, muito escassa” em Portugal.
Entretanto, na Europa…
Se Portugal soma 3,77 mil milhões de euros por ano em custos associados às doenças cérebro-cardiovasculares, o peso económico anual destas doenças nos 27 países da UE é de 282 mil milhões de euros, somando cuidados de saúde, perdas por mortalidade e morbilidade [quando as pessoas vivem com doenças (sobretudo crónicas) que afetam a sua qualidade de vida e capacidade de trabalhar ou cuidar de si], cuidados informais e sociais.
Portugal encontra-se na vigésima posição entre os 27 países da União Europeia no que toca às despesas com doenças cérebro-cardiovasculares por cem mil habitantes [imagem 4]. Em 2021, o valor estimado foi de 36,3 milhões de euros. Uma comparação com os países do topo e da base da tabela ajuda a perceber o fosso existente: na Alemanha, o país que mais gasta, o valor chega aos 99,65 milhões de euros por cem mil habitantes — quase o triplo do que se verifica em Portugal. Seguem-se a Áustria (94,41 milhões), Finlândia (79,16 milhões) e Dinamarca (74,99 milhões).
▲ Imagem 4 | Despesas com doenças cérebro-cardiovasculares na Europa
Marina Chen
Nos lugares mais baixos da lista estão países do Leste europeu como Roménia (33,36 milhões), Bulgária (28,83 milhões), Croácia (28,23 milhões) e Chipre (23,46 milhões). Esta disparidade revela não apenas diferentes capacidades de investimento, mas também desigualdades nos sistemas de saúde, no envelhecimento da população e nos modelos de cuidados formais e informais.
Veja a lista completa aqui:
Europa: quem gasta mais a cuidar do coração
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1. Alemanha | 99,65 milhões de euros por cem mil habitantes
2. Áustria | 94,41 milhões de euros por cem mil habitantes
3. Finlândia | 79,16 milhões de euros por cem mil habitantes
4. Dinamarca | 74,99 milhões de euros por cem mil habitantes
5. Países Baixos | 73,65 milhões de euros por cem mil habitantes
6. Itália | 70,28 milhões de euros por cem mil habitantes
7. Suécia | 69,23 milhões de euros por cem mil habitantes
8. Irlanda | 68,45 milhões de euros por cem mil habitantes
9. Luxemburgo | 64,51 milhões de euros por cem mil habitantes
10. Bélgica | 58,74 milhões de euros por cem mil habitantes
11. França | 57,72 milhões de euros por cem mil habitantes
12. Lituânia | 51,50 milhões de euros por cem mil habitantes
13. Espanha | 50,19 milhões de euros por cem mil habitantes
14. República Checa | 49,65 milhões de euros por cem mil habitantes
15. Eslovénia | 49,59 milhões de euros por cem mil habitantes
16. Estónia | 42,65 milhões de euros por cem mil habitantes
17. Grécia | 40,79 milhões de euros por cem mil habitantes
18. Letónia | 39,78 milhões de euros por cem mil habitantes
19. Hungria | 37,30 milhões de euros por cem mil habitantes
20. Portugal | 36,30 milhões de euros por cem mil habitantes
21. Eslováquia | 36,08 milhões de euros por cem mil habitantes
22. Malta | 34,90 milhões de euros por cem mil habitantes
23. Polónia | 34,64 milhões de euros por cem mil habitantes
24. Roménia | 33,36 milhões de euros por cem mil habitantes
25. Bulgária | 28,83 milhões de euros por cem mil habitantes
26. Croácia | 28,23 milhões de euros por cem mil habitantes
27. Chipre | 23,46 milhões de euros por cem mil habitantes
EU 27 Cardiovascular Realities 2025, Our World in Data
Os números ajudam a reforçar a principal mensagem do relatório europeu: “O custo da inação é visível em mortes evitáveis, reinternamentos e perda de produtividade”.
A maioria dos custos gerados pelas doenças cardiovasculares não acontece dentro dos hospitais, mas sim fora deles — em casa, nas empresas e na economia no seu todo. O desafio está, por isso, em antecipar, prevenir e organizar respostas que evitem o agravamento inevitável da fatura.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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