Em Portugal, todos conhecemos alguém que sofreu um enfarte, um AVC ou vive com insuficiência cardíaca. A doença cardiovascular é responsável por cerca de um quarto das mortes em Portugal, muitas vezes, de forma prematura e evitável. Como cardiologista, e agora como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, acredito que esta realidade nos convoca a todos — profissionais de saúde, decisores políticos e cidadãos — a agir com urgência e com visão de futuro.

Foi por isso que lançámos o Plano Estratégico para a Saúde Cardiovascular, um documento que não é apenas técnico ou institucional. É um apelo à ação. À semelhança do que já acontece noutras doenças, como o cancro, era tempo de dar à saúde cardiovascular a prioridade que merece, com políticas públicas firmes, financiamento adequado e um esforço conjunto e contínuo que transforme a forma como prevenimos, diagnosticamos e tratamos as doenças do coração.

Este plano é o resultado de meses de trabalho de dezenas de especialistas, mas também de uma escuta atenta à realidade do país. É difícil ignorar os factos: demasiados portugueses vivem com fatores de risco cardiovascular fora de controlo. Hipertensão, colesterol elevado, sedentarismo, alimentação pouco saudável, obesidade e diabetes são realidades comuns e, muitas vezes, silenciosas. Mais de dois terços da população adulta têm pelo menos dois destes fatores de risco, e muitos desconhecem a sua condição.

Um estudo recente do New England Journal of Medicine, de 2023, mostrou que metade dos novos casos de doença cardiovascular e uma em cada cinco mortes por qualquer causa poderiam ser evitadas, bastando controlar cinco fatores bem identificados — obesidade, hipertensão arterial, colesterol LDL elevado, tabagismo e diabetes. Isto não é apenas uma estatística, é um alerta. A prevenção cardiovascular não é um luxo, nem uma escolha secundária, é um investimento inteligente e urgente.

O estudo PORTHOS, realizado em 2023 numa amostra representativa de mais de seis mil pessoas residentes em Portugal continental, revelou que um em cada seis portugueses com mais de 50 anos tem insuficiência cardíaca, mas nove em cada dez desconhecem o seu diagnóstico. Sendo a insuficiência cardíaca uma doença com mortalidade a cinco anos superior à maioria dos cancros, porque é que não preconizamos o seu rastreio para diagnóstico precoce? A identificação precoce de muitas doenças cardiovasculares permite a atuação numa fase em que é ainda possível atrasar a progressão da doença e evitar internamentos e mortes.

Assim, o que propomos é uma abordagem integrada começando pela escola, com programas de literacia em saúde cardiovascular, passando por campanhas de rastreio nos locais de trabalho ou centros comerciais, até à reorganização dos cuidados nos centros de saúde e hospitais. Apostamos numa prevenção ativa, na deteção precoce das doenças e na reabilitação como parte do tratamento. E queremos que a inovação, como a saúde digital e os dados em saúde, sejam aliadas nesta missão.

Mas este plano é também um alerta para os desequilíbrios que persistem: temos menos cardiologistas por habitante do que a média europeia, menos equipamentos de diagnóstico avançado, e uma distribuição desigual dos recursos pelo território. Sem investimento e sem equidade no acesso, continuaremos a perder vidas que poderiam ser salvas.

Este não é um problema técnico, é um problema de escolhas. E como sociedade, temos de decidir se aceitamos que o coração de Portugal continue a bater com dificuldade, ou se investimos, com coragem e visão, numa mudança estrutural que ponha a saúde cardiovascular no centro das políticas públicas.

Cuidar do coração dos portugueses é cuidar do futuro do país. E esse futuro começa agora.

Cristina Gavina é diretora do Serviço de Cardiologia da ULS Matosinhos, professora convidada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É uma das cronistas convidadas do Arterial, o projeto do Observador totalmente dedicado às doenças cérebro-cardiovasculares.

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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

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