1243,6kWh poupados 1243,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Robin Sharma: orador, empreendedor ou citador?

João Pedro Vala esteve na MEO Arena no domingo para descobrir de onde vem o sucesso do autor que junta multidões em busca delas próprias. Ficou por compreender o primeiro e viu as segundas confusas.

Às nove e meia da manhã de domingo, os devotos vão timidamente ocupando as cadeiras vermelhas, azuis e amarelas do templo. Ao meu lado, duas amigas contam-me que são frequentadoras habituais destas pregações transatlânticas, dizendo que recentemente assistiram às palestras do filósofo brasileiro Sérgio Cortella e da pensadora Susana Torres, responsável pelo triunfo da armada lusitana sobre os infiéis gauleses no Stade de France, em 2016. Atrás de mim, um rapaz acompanhado da família anuncia que no dia seguinte regressará à MEO Arena para assistir ao concerto do Plutónio.

Quinze minutos mais tarde, como prefácio à atuação de Robin Sharma (o escritor e palestrante canadiano com milhões de exemplares vendidos de obras como O Monge que Vendeu o seu Ferrari ou A Riqueza que o Dinheiro não Compra), os oradores motivacionais Fred Canto e Castro e Sofia de Castro Fernandes conversam sobre crescimento interior e superação à boleia de frases icónicas de Sharma, num diálogo com o título “Robin entre Aspas”.

Sofia comove a plateia ao contar como uma conversa com o filho a convenceu a perder quarenta quilos num ano e explica a importância de um Porquê Forte para cada mudança na nossa vida, de forma a conseguirmos não carregar no snooze da vida. É a minha primeira vez em palestras motivacionais, pouco sei sobre o assunto e se for disto que se trata parece-me intuitivamente uma coisa positiva. Se estas palestras forem um conjunto de técnicas que ajudem a dar força a decisões que sabemos ter de tomar mas que sozinhos não conseguimos levar a bom porto (perder peso, deixar de fumar, mudar de trabalho, etc.), ainda que talvez o apoio de profissionais produza melhores resultados, não vejo problema nenhum nas premissas.

O voluntarioso empreendedorismo do público esbarrará uma e outra vez nos inatos brandos costumes lusitanos, fazendo com que os pedidos de Sharma para que a assistência inicie um diálogo com as pessoas em redor acerca da genialidade de uns e de outros redunde num atabalhoado incómodo geral.

No entanto, logo a seguir, o outro palestrante tenta galvanizar a plateia com um aplauso a nós próprios, começando a perder-me a uma velocidade assombrosa. Abandonamos a resolução de problemas decerto prementes mas circunstanciais e mergulhamos a fundo no que Canto e Castro designa de “as grandes respostas às grandes questões dadas pelas grandes religiões”. Assim, Canto e Castro resume as religiões monoteístas — que diz ter estudado profunda e autodidaticamente quando tinha vinte anos — a uma dicotomia que define a vida ora como uma adversidade a enfrentar ora como uma oportunidade a aproveitar, no que me parece um resumo muito interessante da diversidade religiosa, com a vantagem de reduzir o conflito israelo-árabe a meros problemas de perceção de uma realidade etérea destinada sobretudo à consolidação de start-ups capazes de levantar milhares de milhões em fundos de investimento.

(Quando parto nestas explorações de comunidades remotas, como a dos columbófilos, dos wrestlers, ou dos culturistas, faço sempre questão de deixar de parte o meu irritante ceticismo e acolher sem sobrancerias o que me é dito, mas, Deus me socorra, a carne é fraca e temo agora ter pela frente um adversário que excede em muito as minhas parcas forças. Três mil anos de civilização ocidental parecem prestes a colapsar perante os meus olhos, condensados numa versão empreendedora do Clube dos Poetas Mortos.)

Dá-se início à parábola do cão e do prego, extraída do Evangelho Segundo Castro Fernandes, sobre problemas que incomodam o suficiente para aleijar, mas não quanto baste para induzirem mudanças e pouco depois a primeira parte acaba, seguindo-se um intervalo de cerca de dez minutos, durante os quais aproveito para me retirar para um lugar mais afastado do público, por temer que a minha participação talvez menos entusiástica do que o desejável prejudicasse a experiência dos que me rodeiam. Enquanto caminho para o meu novo assento, ouço uma rapariga desabafar com as amigas que já se fartou de chorar.

Sharma sobe enfim ao palco com camisa preta e calças padrão tropa. Pede ao público que se levante e se auto-aplauda, solicitando ainda que, caso queiram ser líderes, batam palmas, acenem com a cabeça ou apontem para si mesmos sempre que concordarem com o que ouvem, o que não só me parece um pouco contraditório como vem mais uma vez inserir o espectáculo a que assisto numa linhagem religiosa, desta feita na tradição evangélica estadunidense. No entanto, o voluntarioso empreendedorismo do público esbarrará uma e outra vez nos inatos brandos costumes lusitanos, fazendo com que os pedidos de Sharma para que a assistência inicie um diálogo com as pessoas em redor acerca da genialidade de uns e de outros redunde num atabalhoado incómodo geral.

GettyImages-1806681847

▲ Robin Sharma, o escritor e palestrante canadiano com milhões de exemplares vendidos de obras como "O Monge que Vendeu o seu Ferrari" ou "A Riqueza que o Dinheiro não Compra"

Hindustan Times via Getty Images

De seguida, Robin Sharma partilha a pergunta mais importante que já ouviu (curiosamente, uma pergunta feita por Robin a Sharma) para então pedir aos membros do público que levantem a mão caso queiram ser melhores líderes, melhores empreendedores e melhores pessoas.

Sharma começa então a falar do cárcere de Nelson Mandela, que viveu numa cela minúscula sem cama durante dezoito anos e que ainda assim nunca esqueceu a compaixão, ao ponto de se ter tornado um louvável exemplo de humanidade, o responsável pelo fim do apartheid, o primeiro presidente democrático da África do Sul, o vencedor do Nobel da Paz, e originando além de tudo isso uns reels muito comoventes onde frases suas vêm acompanhadas do som de harpas e de montagens com simpáticos leões e elefantes. A seguir, Sharma fala da Madre Teresa de Calcutá, depois de Joey Dunlop e por fim de Nikki Lauda e incita os membros do público a seguirem estes exemplos e a fazerem o bem de forma a se tornarem empreendedores de sucesso, culminando na arrebatadora história de Oseola McCarthy, uma lavadeira negra do Mississippi que no fim da vida doou todas as suas poupanças a uma universidade local, para assim garantir que na sua comunidade maioritariamente afroamericana nascessem empreendedores, mas também, se possível, professores e advogados.

Robin Sharma desata então a partilhar uma lista impressionante de citações de Robin Sharma, assentes sobretudo num modelo paradoxal (“Nada falha como o sucesso”; “O maior risco é não arriscar”; “O mundo está envolto em trevas, mas nunca houve tanta luz”), para desaguar enfim no aspeto central da sua filosofia: a necessidade de substituirmos um modelo CBE (Complaints, Blames, Excuses — queixumes, culpabilizações e desculpas) por um modelo APR (Absolute Personal Responsability — absoluta responsabilidade pessoal) e assim nos tornarmos CIO (Chief Inspiration Officers) das nossas vidas. Por outras palavras, segundo Sharma, devemos compreender que liderança é o oposto de vitimização, um mantra que importa ter presente em qualquer mudança, seja ela tornarmo-nos mais saudáveis, livrarmo-nos da adição tecnológica ou começarmos a acordar mais cedo.

Ponderava se ao nos tornarmos CIO e ao afirmarmos uma doutrina de absoluta responsabilidade pessoal não estaremos uns passos mais perto de esquecer os pobres coitados que optaram malandramente por aceitar o turno noturno numa gasolineira em vez de gastar uma dúzia de contos reis na palestra do messiânico guru.

Sharma dá, aliás, sobre isso um exemplo autobiográfico inspirador: quando deixou a advocacia para seguir o sonho de se tornar palestrante motivacional, Sharma publicou a expensas próprias o hoje célebre O Monge que Vendeu o seu Ferrari. Ora, apesar de todos os seus conhecidos ridicularizarem esse livro (É quando ninguém acredita na tua visão que tens de lhe ser absolutamente fiel), certo dia Robin cruzou-se com o dono da Harpers&Collins, que gostou do título e lhe ofereceu imediatamente setenta e cinco mil dólares em troca dos direitos do livro.

Os conselhos de Sharma parecem, à primeira vista, na pior das hipóteses inócuos e no melhor dos casos promotores de mudanças muito necessárias na vida de cada um de nós. No entanto, ao sair da eucaristia e ao me cruzar com os pedintes que àquela hora por lá abundam — e que com relativamente pouca frequência encetam conversas com diretores de multinacionais dispostos a investir neles —, não conseguia deixar de pensar se esta mensagem de amor ao próprio não nos tornará intolerantes em relação aos que se vitimizam porque perderam irremediavelmente o controlo sobre as suas vidas.

Ponderava se ao nos tornarmos CIO e ao afirmarmos uma doutrina de absoluta responsabilidade pessoal não estaremos uns passos mais perto de esquecer os pobres coitados que optaram malandramente por aceitar o turno noturno numa gasolineira em vez de gastar uma dúzia de contos reis na palestra do messiânico guru. Ao atravessar o centro comercial Vasco da Gama a caminho do carro, perguntava-me se a força de vontade, generosidade e bondade que Mandela revelou serão afinal características universais, a que só os mais teimosos de entre nós se recusarão a aceder depois de hora e meia a escutar o Picasso do empreendedorismo.

“Passeio das Virtudes” é uma rubrica sobre vidas portuguesas e portugueses nas suas vidas.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.