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Aquando da largada, o céu estava limpo e levantara-se uma ligeira brisa norte, pelo que se encontravam reunidas as condições ideais para a prática do desporto
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Aquando da largada, o céu estava limpo e levantara-se uma ligeira brisa norte, pelo que se encontravam reunidas as condições ideais para a prática do desporto

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Aquando da largada, o céu estava limpo e levantara-se uma ligeira brisa norte, pelo que se encontravam reunidas as condições ideais para a prática do desporto

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Os borrachos, os treinos e o pombo que chegou às Canárias antes do avião: um sábado numa prova de columbofilia

Novecentos e trinta e três pombos-correio, 368km e um deporto que pode ser praticado com uma cerveja numa mão e uma sandes de torresmo na outra. Fomos descobrir o que move os aficionados dos pombos.

Ao longe, ouço a União de Músicos de Mira tocar o hino nacional e acelero por entre as bancas onde se vendem antiguidades e velharias rumo ao palco montado em frente ao Columbódromo Internacional Gaspar Vilanova.

Aí chegado, vejo o apresentador do evento daquele sábado enaltecer a competição em marcha onde, garante, já se formaram grandes atletas e já começaram extraordinárias linhagens. Não é para menos. Em causa estão seis provas, todas dependentes da mesma corrida: uma etapa do Campeonato do Mundo, outra do Campeonato da Europa, uma do Campeonato Europeu de Jovens, outra da Liga Nacional dos Campeões, outra do Torneio AILAC e, por fim, a prova-rainha, o FCI Grand Prix, conhecido informalmente como a Liga dos Campeões dos Pombos-Correio, cujo prémio final são cinquenta mil euros, potencialmente acumuláveis com o prémio das semifinais: um fantástico automóvel (atribuído ao treinador e não, para grande pena minha, ao atleta).

Novecentos e trinta e três pombos-correio saíram de Paderne às oito da manhã e percorrerão trezentos e sessenta e oito quilómetros até voltarem a casa, o que acontecerá mais ou menos cinco horas depois. Aquando da largada, o céu estava limpo e levantara-se uma ligeira brisa norte, pelo que se encontravam reunidas as condições ideais para a prática do desporto.

O presidente da Federação Portuguesa de Columbofilia (FPC), José Luiz Jacinto, sobe ao palco para acolher as trinta e uma delegações aqui presentes, representadas metaforicamente por pombos de cartão espetados na relva e pintados com as bandeiras dos respetivos países, tendo como fundo os cinco aros olímpicos. José Luiz Jacinto enaltece a columbofilia como desporto de convívio. Olho à minha volta e vejo trampolins para as crianças brincarem, columbófilos na cavaqueira e bancas a venderem comida. Dou-lhe razão e sinto desde logo simpatia por um desporto que pode ser praticado com uma sandes de torresmo na mão e uma cerveja na outra.

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O interesse por estas competições alastrou-se, ao ponto de se formarem comunidades cada vez mais alargadas e geograficamente distantes, levando à necessidade da criação de pombais comunitários

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Enquanto esperamos a chegada dos pombos, o apresentador chama ao palco o presidente da Câmara Municipal de Mira, capital da columbofilia em Portugal, que aproveita para homenagear o senhor Gaspar Vilanova, responsável, tanto quanto me foi possível apurar, pela criação deste columbódromo. Segue-se István Bardos, presidente da Federação Internacional da Columbofilia, que, por não saber falar inglês nem português, se vê impossibilitado de escapar ao discurso mais protocolar imaginável, traduzido de seguida para as duas línguas. Louva, contudo, o sentido de comunidade existente na columbofilia e, do pouco que vi até agora, dou-lhe razão. Mais do que atentos à possível chegada dos pombos, os treinadores parecem dedicados a meter a conversa em dia.

Terminado o protocolo, converso com o David Barros Madeira, oftalmologista, columbófilo e vice-presidente da FPC. O David explica-me que os pombos-correio voltam sempre ao sítio que têm por casa, orientando-se através dos campos magnéticos, da posição solar e, já perto do alvo, da visão. Fala-me de pombais móveis usados para fins militares e conta-me que o registo mais antigo do uso de pombos-correio data do século XIII a.C., lançados para comunicar a chegada ao poder de Ramsés II ― o Ozymandias de um dos poemas mais famoso de Shelley, precisamente acerca de problemas de comunicação.

O David fala-me também do apuramento genético ―na verdade, eugénico ― destes pombos, que formam uma raça à parte da dos outros malditos que pousam nas estátuas e nos cagam nas omoplatas. Explica-me também que normalmente é possível a um pombo mudar de casa ao longo da vida, mas isso implica treino, tempo e procriação. Para uma casa ser nossa é preciso que peguemos fogo ao sítio de onde viemos e que criemos memórias no novo lar, é preciso que a nova casa esteja rodeada de coisas vivas para nós. Fazer lá filhos, ao que parece, também ajuda muito.

Ulisses Terra jura que o raio do pombo arranjou maneira de chegar às Canárias antes do avião em que ele ia. O aeroporto estava em polvorosa, com pessoas a gritar que já chegara um pombo português, e ele, esquecido de malas, esquecido de tudo, saiu disparado para confirmar a vitória.

Depois, conta-me que na Bélgica há oitocentos profissionais da columbofilia ao passo que por cá, como de costume, não há nenhum. Fico a saber que o pombo mais caro do mundo foi leiloado em hasta pública por mais de dois milhões e meio de euros na China, onde o desporto envolve apostas multimilionárias. Explica-me também que preocupações com o bem-estar animal (ignoradas na China, refere) encurtaram as corridas para um máximo de mil e duzentos quilómetros e fala-me depois da história da columbofilia em Portugal.

Segundo reza a lenda, a derrota trágica das tropas portuguesas na Batalha de La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial, deveu-se em grande medida à destruição das linhas de comunicação entre os nossos militares. Quando o Estado tomou consciência do problema, estimulou a criação de pombos-correio por parte dos tenentes e coronéis. Com o passar do tempo, estas altas patentes começaram a oferecer pombos a soldados que por sua vez os ofereceram a civis, levando à, por assim dizer, desmilitarização do pombo. Os civis afeiçoaram-se rapidamente à columbofilia e passaram a organizar competições, a princípio distritais, que dependiam das relativamente novas linhas de ferro, enviando através delas os pombos encaixotados com ordem de soltura para determinada hora. O interesse por estas competições alastrou-se, ao ponto de se formarem comunidades cada vez mais alargadas e geograficamente distantes, levando à necessidade da criação de pombais comunitários que possibilitassem provas nacionais e internacionais, como a de Mira a que agora assisto. Os criadores entregavam então alguns dos seus borrachos a estes columbódromos, que eram depois educados do mesmo modo pelo mesmo treinador para assim competirem em igualdade de circunstâncias, diferenciando-se apenas pela genética.

Ulisses Terra mostra-me um maço de aproximadamente trinta calendários que traz no bolso, sendo que cada um tem uma imagem alusiva ao maior feito columbófilo que o próprio protagonizou no ano respetivo

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Agradeço ao David a explicação detalhada e despeço-me, não sem antes lhe perguntar quanto gasta por mês com o seu pombal em Loulé. Ele confessa-me que tudo começou com um borracho que o pai, também ele columbófilo, lhe oferecera, nascido da união amorosa entre uma pomba de asa partida e um pombo aparentemente estéril, e que agora conta com mais de quinhentos pombos-correio, o que requer um treinador a tempo inteiro. Diz quanto gasta mas pede-me para não divulgar isso no artigo, porque a mulher não sabe. Dou a minha palavra de honra e o David apresenta-me ao, segundo ele, mais terrível dos columbófilos portugueses, o Ulisses Terra, um nome tão bom que mais parece inventado.

O senhor Ulisses, ainda antes de começar a conversa, mostra-me um maço de aproximadamente trinta calendários que traz no bolso, sendo que cada um tem uma imagem alusiva ao maior feito columbófilo que o próprio protagonizou no ano respetivo. Dá-me dois deles: o de 2022 ― onde se celebra o Duplo Neto Ayrton Senna, um pombo descrito como “Extraordinário Reprodutor de Fundo”, filho do Ayrton Senna Neto e da Ayrton Campeão 14 ― e o de 2023 ― com uma foto de uma pomba chamada Qatar 2022, filha do Futurando 30 e da Rainha Roma Maria, que venceu todas as provas de fundo e mais algumas. A seguir, este Ulisses de mil ardis conta-me a história de quando se sagrou campeão do mundo com meia hora de avanço, na prova Marrocos-Canárias de 1992, um feito que descreve como “histórico para a nação e celebrado em toda a parte”, mas de que eu, talvez por na altura ser muito novo, confesso não me lembrar.

Encaminho-me para falar com um casal de columbófilos, mas mal me aproximo dos dois pombinhos sou interrompido por gritos de entusiasmo. Há borrachos a caminho. Seis pombos sobrevoam o público e dançam em círculos sobre o pombal, até que dois deles descem a pique e, para gáudio geral, está encontrado o vencedor.

Mas ainda bem, porque assim pude ouvir esta odisseia ser contada em primeira mão pelo senhor Ulisses, que jura que o raio do pombo arranjou maneira de chegar às Canárias antes do avião em que ele ia. O aeroporto estava em polvorosa, com pessoas a gritar que já chegara um pombo português, e ele, esquecido de malas, esquecido de tudo, saiu disparado para confirmar a vitória, receber os louros e cuidar do campeão. Conto-vos isto tudo como posso e sei, mas a verdade é que não é a mesma coisa. Caraças, gostava que tivessem lá estado comigo para o ouvir e para que vissem os olhos dele transformarem-se de novo nos de uma criança que marcou três golos no intervalo do almoço.

Pergunto-lhe como começara esta paixão e o senhor Ulisses diz que o pai morreu era ele puto e que a partir daí começou a andar com um tio columbófilo que nunca ganhara nada até o ter por perto. Depois, interrompe-se, olha para mim e diz-me: “Sei que estás a tentar fazer um resumo disto tudo mas não dá, não leves a mal. Eu até fotografei no outro dia um jornal que trazia a minha história, espera lá, deixa-me ver se encontro, eh pá não tenho isso aqui agora, pronto, mas é que não pode ser, percebes, não dá mesmo que isto não é história para se despachar em dois segundos e a minha mulher já está ali a fazer sinal para irmos comer antes de os pombos chegarem, desculpa lá mas fica para a próxima, está bem?”

Eu desculpo-o, claro, e vou ter com outro columbófilo chamado António Costa que me pede que não o compare a “esse canalha” (vamos supor que ele disse “canalha”). Eu nada digo e ele conta-me que trabalhou com cães de droga e que tem em casa gatos, pombos, cães e a mulher, que o senhor Costa garante ser “o pior bicho que a gente pode ter”.

Tento perceber o que os fascina tanto na columbofilia ao ponto de fazerem mais de mil e quinhentos quilómetros para estarem ali. Eles descrevem-me Mira como uma espécie de Meca da columbofilia

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Dali vou ter com o Ferreira e o Cottin, dois cinquentões de Saint-Ettiénne com as cores da bandeira francesa pintada no rosto. Tento perceber o que os fascina tanto na columbofilia ao ponto de fazerem mais de mil e quinhentos quilómetros para estarem ali. Eles descrevem-me Mira como uma espécie de Meca da columbofilia e dizem-me que em Saint-Ettiénne há muitos aficionados dos pombos, por ser uma terra de mineiros. Não percebo à primeira a relação, mas o Cottin explica-me que os mineiros gostavam de, no final do dia, ao saírem do fundo da terra, ver os pombos passear contra o céu.

Encaminho-me para falar com um casal de columbófilos, mas mal me aproximo dos dois pombinhos sou interrompido por gritos de entusiasmo. Há borrachos a caminho. Seis pombos sobrevoam o público e dançam em círculos sobre o pombal, até que dois deles descem a pique e, para gáudio geral, está encontrado o vencedor. O apresentador, em êxtase, diz que para já quem ganhou foi a columbofilia, mas nem dez segundos depois a informação é corrigida: quem ganhou afinal foi, como sempre, a Alemanha. Ainda assim, Portugal conseguiu um honroso segundo lugar graças à impressionante prestação da talentosa promessa da columbofilia vinda do pombal da Queijaria Cachopas. Comovo-me ao perceber que as pombas não voam pelo prémio monetário mas movidas pelo desejo irreprimível de chegar a casa.

Tento falar com os vencedores, o senhor Joaquim Cachopa, o seu genro Jorge e o neto Rodrigo, mas eles conseguem apenas dizer palavras de circunstância, sem nunca tirarem os olhos do pombal. Percebo que estão felizes mas tranquilos, dou os parabéns ao mais novo dos três, que promete não deixar a tradição familiar morrer, e encaminho-me para o carro.

A caminho de Lisboa, sentado no lugar do morto, vejo um pombo branco cruzar o céu. Canto para dentro uma música dos Talking Heads que não há maneira de me sair da cabeça:

“Home, is where I want to be
But I guess I’m already there
I come home, she lifted up her wings
Guess that this must be the place”

Passeio das Virtudes é uma rubrica sobre vidas portuguesas e portugueses nas suas vidas

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