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Proporção, simetria, harmonia, musculatura, definição e arte de posar: são estes os principais critérios avaliados numa competição como esta
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Proporção, simetria, harmonia, musculatura, definição e arte de posar: são estes os principais critérios avaliados numa competição como esta

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Proporção, simetria, harmonia, musculatura, definição e arte de posar: são estes os principais critérios avaliados numa competição como esta

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

"Aperta o femoral!": trabalho, músculos e tangas num campeonato de culturismo em Odivelas

O que acontece no Campeonato Nacional de Iniciados de uma modalidade sobre a qual existem sobretudo preconceitos? Fomos à procura de respostas. Encontrámos delicadeza, amor próprio e muitos gritos.

É domingo de manhã e, ao entrar no Pavilhão Multiusos de Odivelas, o palco já está montado, com um conjunto impressionante de troféus e medalhas pousados numa mesa, tendo como fundo uma fotografia gigantesca do Rui Ferreira em calções de banho. À direita do palco, uma banca vende T-shirts e camisolas de alças dentro das quais eu caberia umas sete ou oito vezes. Vou até aos bastidores onde ainda decorrem as pesagens para aí falar com o Daniel Morais, presidente da secção portuguesa da International Fitness and Bodybuilding Federation, que me explica que verei quarenta atletas competirem por catorze prémios de variantes diferentes. Acabada a nota introdutória ao que se passará durante o Campeonato Nacional de Iniciados/ Troféu Rui Ferreira, apresenta-me ao Rui Baptista, um antigo culturista, agora presidente da mesa do júri.

O Rui começara pelo remo, mas uma lesão no joelho levou-o a desistir. Depois, apesar de a princípio detestar ginásios, acabou por entrar no mundo do culturismo de onde nunca mais saiu. Com o Rui, tenho pela primeira vez uma intuição que não seria contrariada no resto do dia: por mais monstruosos que sejam os corpos apresentados em palco, os homens e mulheres que se escondem dentro deles são invariavelmente delicados. A meu pedido, o Rui elenca uma lista aparentemente infinita de prémios que ganhou ao longo da carreira e depois explica-me o que será avaliado em cada uma das competições (proporção, simetria, harmonia, musculatura, definição e arte de posar) bem como as diferenças entre cada variante. Segundo o Rui, as variantes de Bikini Fitness, Wellness e Men’s Physique são as mais atraentes para os iniciados ― uma categoria, descubro agora, que depende da experiência e não da idade ― por serem menos difíceis, por corresponderem de forma mais linear a um padrão canónico de beleza e por darem boas fotografias no Instagram.

Despeço-me do Rui e sigo para os balneários onde um atleta com um elmo de gladiador tatuado na omoplata está nu a ser pintado por uma pistola que expele spray bronzeador.

Por mais monstruosos que sejam os corpos apresentados em palco, os homens e mulheres que se escondem dentro deles são invariavelmente delicados

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Dali, sigo para a plateia, onde vejo apenas dois rapazes e duas raparigas na primeira fila, com um entusiasmo adolescente. Sento-me ao lado do único deles apto a competir, o Paulo, um miúdo brasileiro de dezoito anos que vai devorando um pacote de tortilhas de milho. A irmã mais velha do Paulo foi a primeira a interessar-se por culturismo e ele, fascinado pela evolução do corpo e da mente da irmã, seguiu-lhe os passos. Depois, mudou-se para Portugal e, com um ano de dieta rigorosa e treinos bidiários, o lingrinhas do Paulo transformou-se num catálogo de veias e músculos. Fala-me de como o culturismo lhe trouxe foco e disciplina e do prazer que sente nos raros cheat days onde troca o arroz, os brócolos, a aveia e o frango grelhado por uma pizza ou um hambúrguer.

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Ao regressar ao pavilhão, já depois de almoço, encontro sentada na última fila a mãe de um dos atletas que vai rezando o terço, pedindo a Deus sucesso para o seu filho. Atrás das cortinas, converso com a Rita ― técnica de radiologia e culturista amadora ― e com a Vera, duas amigas de Castelo Branco que irão participar pela primeira vez em todas as provas da modalidade feminina. Na verdade, se excetuarmos uma rapariga de dezoito anos sentada a um canto, serão as únicas iniciadas a competir esta tarde, pelo que a amizade entre ambas será suspensa durante breves minutos para que uma possa triunfar sobre a outra.

Fábio espera ansiosamente o início da competição mas mais ansiosamente ainda pelo fim, prometendo que mal dali saia comerá todos os bolos da pastelaria mais próxima.

Enquanto conversamos, apresentam-me ao Daniel Allves, treinador das duas e atleta profissional de culturismo, que me explica que é o corpo de cada um que escolhe em que variante irão competir e que o culturismo é uma escola de determinação, ao mesmo tempo que a Vera e a Rita vão treinando as poses para quando subirem, enfim, ao palco. O Daniel participou pela primeira vez numa competição regional no Brasil meio por acidente, ficou em último mas tomou-lhe o gosto e, pouco depois, em 2022 ficou em terceiro lugar na competição de Mister Universo, num pódio, tanto quanto me foi dado a entender, ocupado exclusivamente por terráqueos.

“Fui gordo até aos dezassete anos”, diz-nos Fábio, idade com que, a conselho de um médico, entrou num ginásio para não mais de lá sair. Hoje, com trinta e sete e uma filha pequena, prepara-se para competir também ele pelo título de iniciados na variante de Men’s Physique. Está há uns dias valentes sem comer hidratos e pede-me que agradeça à ADP Fertilizantes por o ter autorizado a faltar ao trabalho para se preparar para a competição, o que faço agora. Espera ansiosamente o início da competição mas mais ansiosamente ainda pelo fim, prometendo que mal dali saia comerá todos os bolos da pastelaria mais próxima. O sorriso cúmplice de um outro atleta atrás de si parece augurar um dia de glória para a indústria panificadora e boleira de Odivelas.

O culturismo é uma declaração de amor ao corpo humano, ao corpo de cada um deles. Não necessariamente à sua beleza estética mas antes à sua complexidade e sofisticação

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A hora da verdade aproxima-se. Deixo os atletas a fazer as últimas flexões nos bastidores de forma a sublinharem as linhas com que se cose o seu caparro e vou conversar com o Rui Ferreira, três vezes campeão do mundo, duas vezes campeão da Europa e duas vezes vencedor de um troféu de homenagem a Arnold Schwarzenegger. O Rui fala-me da vida de culturismo, dos sítios que visitou à conta das competições, da falta de apoios financeiros, de como compatibilizava a paixão pelo desporto e a vida profissional no IPDJ, da alegria de cada vitória, mas não falamos muito tempo porque a prova está prestes a começar.

De uma maneira ainda mais declarada do que acontece na maioria dos outros desportos, no culturismo a competição a sério decorre nas semanas antes da prova. Hoje, a pose contará, claro, a capacidade de realçar os músculos e sorrir terá o seu peso, mas o que vale verdadeiramente é o trabalho feito até aqui. No culturismo, o corpo é o campo de batalha. É simultaneamente o terreno de jogo, o atleta e a bola. Os corpos são trabalhados não para que corram mais depressa, saltem mais alto ou fintem com maior habilidade, mas para que se aproximem o mais possível de um ideal de proporção e harmonia.

A Vera e a Rita falaram-me muito de competições de beleza e parece-me que é com isso que o culturismo mais se assemelha. O culturismo, vejo agora, é uma declaração de amor ao corpo humano, ao corpo de cada um deles. Não necessariamente à sua beleza estética mas antes à sua complexidade e sofisticação, sendo que em muitos momentos os atletas assemelham-se a cientistas bombadões apostados em revelar músculos desconhecidos do grande público. Parece-me que o que ali se passa é, acima de tudo, uma manifestação de espanto e júbilo pelo milagre da criação.

Os atletas posam e depois formam uma fila horizontal, expondo o duplo bícep, o vazio abdominal, as pernas e as costas uma e outra e outra vez, tudo isto em aparente apneia e a rodarem o braço direito como se fosse uma manivela arrastada pela brisa da tarde.

Como vem nos livros de etiqueta, são as mulheres que abrem as hostilidades, com a prova de bikini, vencida pela Vera. Tendo o Rui Ferreira ao meu lado, vou-lhe pedindo prognósticos e mais tarde percebo que é invariavelmente capaz de prever os vencedores. Em boa verdade, as escolhas são bastante intuitivas, pelo que até eu, passado pouco tempo, adivinho sem dificuldade quem ganhará. Já antes da prova, a Rita antevira que talvez tivesse o corpo excessivamente musculado para triunfar numa prova com estas características e os membros do júri parecem dar-lhe razão.

Chega a vez da variante de competição de Classic Physique. À medida que os atletas sobem ao palco, o público feminino enlouquece, com gritos de “Ai”, “Pára”, ou “Estás lindo”, ao passo que dos homens ouço recomendações ortopédicas espantosamente específicas como “Aperta o femoral”. Os atletas posam e depois formam uma fila horizontal, expondo o duplo bícep, o vazio abdominal, as pernas e as costas uma e outra e outra vez, tudo isto em aparente apneia e a rodarem o braço direito como se fosse uma manivela arrastada pela brisa da tarde. O Paulo, o mais novo dos quatro primeiros em competição, bate incessantemente e com estrondo a palma da mão nas pernas, sem que elas se mexam um milímetro enquanto implora ao público extasiado que faça mais barulho. A competição estava renhida até entrar em cena o Bernardo Bregieira que, de bigode e cabelo rapado nos lados, aparenta ser o resultado de uma noite bem passada entre um peaky blinder e uma chaimite V-600.

Lá por terem perdido, os atletas nunca param de posar nem de receber indicações dos treinadores, uma vez que não deixam de estar em tronco nu e tanga frente a uma quantidade considerável de pessoas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Pelas palavras de incentivo e pela descontração com que acompanha a disputa, percebo ter ao meu lado o treinador do Bernardo, o Edgar Gomes, que me garante que o Bernardo só não será profissional da modalidade se não lhe apetecer.

A competição prossegue noutras categorias (Culturismo, Culturismo Clássico e Men’s Physique), sendo a certa altura interrompida subitamente pela subida ao palco do Daniel Morais, que pede uma salva de palmas para o atleta mais velho em competição, de cinquenta e seis anos. Um outro participante que parecia prometer lutar pelo título de Wellness é traído pelas luzes que lhe derretem o bronzeador, formando uma mancha de lama nas costas que, segundo o Edgar, terá deitado tudo a perder.

Regresso aos bastidores para conversar uns minutos com o Bernardo que, fora do palco, é um miúdo ambicioso mas tímido. A custo, fala-me dos amigos que perdeu quando trocou os copos pelo ginásio e dos defeitos corporais que ainda pretende melhorar. Eu pergunto-lhe quanto peso consegue levantar, ele diz que chega aos duzentos e vinte quilos e sinto que a resposta envergonhou os rivais que por ali circulavam.

O Bernardo, da primeira vez que subiu a um palco, limpou o primeiro prémio em três categorias amadoras e três categorias gerais, tendo agora, sem comer hidratos desde meados de agosto, de arcar ao pescoço com seis medalhas que vistas ao longe não parecem lá muito leves.

Chega, enfim, o momento da entrega dos prémios, que demora mais tempo do que seria de esperar por ser dada tanta atenção ao primeiro como ao último, talvez por se tratar de uma modalidade amadora ou talvez por o culturismo ser em grande medida uma modalidade que promove o amor próprio, isso já não vos saberia dizer. O que sei dizer é que, lá por terem perdido, os atletas nunca param de posar nem de receber indicações dos treinadores, uma vez que não deixam de estar em tronco nu e tanga em frente de uma quantidade bastante considerável de pessoas, grande parte delas mulheres.

O Bernardo, da primeira vez que subiu a um palco, limpou o primeiro prémio em três categorias amadoras e três categorias gerais, tendo agora, sem comer hidratos desde meados de agosto, de arcar ao pescoço com seis medalhas que vistas ao longe não parecem lá muito leves.

João Pedro Vala é escritor, autor do romance “Grande Turismo”. Passeio das Virtudes é uma rubrica sobre vidas portuguesas e portugueses nas suas vidas

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