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Samuel Úria assina a banda sonora de "A Eleição Mais Louca de Sempre", podcast narrado por Gonçalo Waddington
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▲Samuel Úria assina a banda sonora de "A Eleição Mais Louca de Sempre", podcast narrado por Gonçalo Waddington

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

▲Samuel Úria assina a banda sonora de "A Eleição Mais Louca de Sempre", podcast narrado por Gonçalo Waddington

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Samuel Úria, o cantor das “lutas internas” que só queria "fazer música barulhenta"

Cresceu em Tondela, foi professor de EV e gravou um disco em direto, em 12 horas. É ele o autor da banda sonora do Podcast Plus "A Eleição Mais Louca de Sempre".

Samuel Úria não foi buscar músicas à gaveta, mas foi buscar muitas memórias para compor a banda sonora de A Eleição Mais Louca de Sempre, o novo Podcast Plus do Observador. Em 1986, quando Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral se defrontaram nas únicas eleições presidenciais decididas a duas voltas, tinha sete anos e lembra-se bem “dos confrontos, dos conflitos e até do colorido da campanha”. “Este projeto despertou em mim um lado nostálgico”, conta ao Observador.

Aproveitando a novidade de nunca ter musicado um podcast, o homem do punk, do rock’n’roll, da pop e das patilhas inconfundíveis, deixou-se levar para um universo completamente diferente. “Baseei-me muito nas minhas valências da eletrónica, de que eu gosto, mas que não exerço com muita frequência.”

Usou sintetizadores, transformou baterias, tocou teclados, misturou e doseou, sempre com a preocupação de ter referências dos anos 80, mas nunca um som datado. “Quis respeitar a época e os temas, ter uma espécie de ideia abstrata das personagens, dos intervenientes na história. Isso trouxe complicação, mas também trouxe o desafio que se torna a parte mais agradável de fazer esta composição.”

Para criar a envolvência deste podcast não teve de fugir de Lisboa, onde vive há vários anos, mas quando está a trabalhar num disco novo precisa muitas vezes dessa distância. “Tenho ido para os sítios mais isolados de que me lembro, porque sei que consigo aproveitar muito melhor o tempo, tenho menos desconcentração. Embora algumas ideias surjam do rebuliço, quando quero mesmo fixar essas ideias, tento sair.”

[o trailer de “A Eleição Mais Louca de Sempre”:]

Para criar o disco mais recente, 2000 A.D, passou alguns dias em Paredes de Coura. “É um sítio que visito todos os anos por causa do festival. Apaixonei-me pela vila e o João Carvalho, que é um dos organizadores do evento, emprestou-me a casa e eu estive lá uma semana que rendeu mesmo muito.”

No entanto, se tiver mesmo urgência, basta afastar-se hora e meia de Lisboa e instalar-se em Água de Madeiros. “É uma praia muito isolada, no meio do pinhal de Leiria, e os meus sogros têm lá uma casa. Nem sequer temos vizinhos.” Há uma fórmula que parece nunca falhar: “É o sítio ideal para, às vezes, me aborrecer tanto que, ou trabalho, ou morro de tédio”.

Samuel Úria nasceu ainda mais a norte, em Tondela, a 18 de setembro de 1979. Viveu lá até aos 20 anos. “A minha casa estava no limite daquilo que era urbano, no fim dos bairros. Nas minhas traseiras só havia montes e árvores.”

Tem memórias tão longínquas que o levam até aos dois anos, algo que atribui a um controlo quase obsessivo da cronologia. “Cresci a fixar o que tinha acontecido em determinados anos e a criar uma espécie de totem de memória em que eu ia revisitar esses momentos. Isso ajudava-me a manter frescas as memórias daquela altura.”

Porém, garante que desde que vive em Lisboa, há 18 anos, perdeu grande parte dessa enciclopédia mental que tinha acumulado ao longo dos anos. “Em Lisboa, o tempo só é longo nas coisas intermédias, quando estamos a ir de um lado para o outro, no trânsito, por exemplo. Parece que o tempo se alonga, mas depois encurta-se nos outros lados. Então, dispersei qualquer traço desse controlo muito cromo da memória, de saber o que tinha acontecido em cada ano.”

Ainda assim, fazemos o teste e atiramos o ano de 1994 para a conversa. “94? Aconteceram muitas coisas nesse ano, mas penso logo em 5 de abril de 94, dia em que morreu o Kurt Cobain.”

Além de ter ficado marcado pelo fim da era do grunge, Samuel garante que, por outro lado, se transformou num “fã ainda mais aguerrido” dos Nirvana. “Eu tinha uns 14 anos e era birrento, como todos os adolescentes. Então, se por um lado cresceu a minha devoção, por outro irritou-me muito ter-se tornado uma banda conhecida dos meus vizinhos e dos meus amigos que, até aí, só ouviam bandas sonoras das novelas e fenómenos pop. Aquele fenómeno que me dizia tanto a mim e aos meus amigos, que andávamos a ficar ensanguentados nos moches dos concertos, de repente tornou-se um fenómeno transversal.”

Desses tempos recorda, no entanto, algo muito especial. Cresceu rodeado de música, livros e teatro. “Obviamente que não tínhamos, muitas vezes, acesso aos concertos que queríamos mas, exatamente por causa disso, víamos todos aqueles que estavam disponíveis.”

Muitas horas eram passadas na Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT). “Foi fundada por malta que está entre a minha geração e a dos meus pais, pessoas que viveram com muita intensidade o 25 de Abril e que quiseram, de uma forma prática e aguerrida, panfletária até por vezes, que Tondela não estivesse isolada culturalmente, uma vez que já estava isolada geograficamente.”

Primeiro através do teatro, com a companhia Trigo Limpo, e depois com a música, Samuel e os amigos consumiam avidamente tudo o que lhes era oferecido. “Lembro–me de ver o Compay Segundo, em Tondela, ainda antes de rebentar o fenómeno Buena Vista Social Club. Foi uma coisa surpreendente para um miúdo que ouvia coisas mais pesadas. De repente, estavam ali uns velhotes cubanos a tocar e foi maravilhoso.”

“Lembro–me de ver o Compay Segundo, em Tondela, ainda antes de rebentar o fenómeno Buena Vista Social Club. Foi uma coisa surpreendente para um miúdo que ouvia coisas mais pesadas. De repente, estavam ali uns velhotes cubanos a tocar e foi maravilhoso"

No verão, a família costumava passar uma temporada em Lisboa e regressava a casa carregada de música. “O meu pai fazia uma coisa que era comum na altura, que era comprar uma mala cheia de discos. Tinha coisas desinteressantes, sem critério, mas pelo meio havia coisas surpreendentes, como Nat King Cole.”

Em casa, a música era constante. Havia muitos instrumentos e a mãe até dava aulas a miúdos da idade de Samuel. Ele detestava. “Eu fugia a essas aulas porque não queria parecer um menino da mamã.”

É algo de que se arrepende atualmente porque, lamenta, não domina o solfejo como gostaria. “Às vezes, para servir as minhas canções toco teclados, mas não domino, sou muito lento na parte teórica, sou lento a escrever em pauta.”

O pai não tocava, mas também adorava instrumentos e colecionava-os. “Comprava muitos teclados e tecladinhos, coisas eletrónicas que ainda hoje uso. Usei, por exemplo, no podcast do Observador, um tecladinho Casio PT-20 que está na família desde 1983, se não me engano.”

Desde cedo criou as próprias canções, embora sem lhes dar grande importância. “Balbuciava umas coisas e roubava muito. A primeira canção que fiz foi um plágio da Alegria, dos Heróis do Mar. Acho que, quando essa canção saiu, eu ainda nem andaria na escola [foi em 1992].”

Havia uma guitarra lá em casa que era da irmã, dois anos mais velha. Ela, sim, tinha aulas — já Samuel, desistiu na primeira sessão. “Não tinha interesse nessa altura e é curioso porque, mesmo quando comecei a ter bandas de garagem, nunca me passou pela cabeça ser músico profissional.”

O que lhe trazia realmente felicidade era ter algo que partilhava com os amigos. “O prazer de ter uma banda com amigos, de fazer música barulhenta de que os mais velhos não gostam e de ser um bocado fora da lei, isso era o sonho”, lembra.

Em 1994 ou 1995 nasceram Os Cães Danados, “inspirados no fenómeno do Tarantino”. Essa primeira banda de garagem ensaiava efetivamente numa garagem, mas que nem sequer era de nenhum dos membros do grupo. “Íamos para uma aldeia lá perto, Nandufe, porque havia um rapaz que tocava em bailes com malta mais velha e tinha uma data de instrumentos. Ele cedia-nos o espaço e até fazia uma certa mentoria, dava-nos umas dicas.”

Samuel Úria tocava guitarra, mas não havia propriamente regras, nem sequer vocalista. “Quem queria cantar, cantava, era assim.”

Em paralelo com a música, sempre desenhou e, nessa área, era mais dedicado. “Parecia-me uma coisa a que podia aspirar, ter mais regras em torno daquilo que produziria. Tinha vontade de aprender. Na música tinha mais vontade de me expressar do que de aprender, por isso é que desprezei a parte da aprendizagem académica.”

Quando se aproximou a altura de decidir que rumo queria para o futuro, começou a caminhar para a ilustração. “Depois também falhei e sou um grande frustrado em torno disso porque, por muito que tenha aprendido, sinto sempre que perdi o comboio.”

Na faculdade entrou no curso de ensino com a vertente artística, em Viseu, e percebeu que ali, apesar do nome, tudo seria mais importante do que a vertente artística. “Foi uma grande desilusão porque, assim que eu comecei essa licenciatura, deram-me a entender que não estávamos ali para saber desenhar ou para saber pintar. ‘Vocês estão aqui para saber dar aulas’.”

Esse embate coincidiu com aquela que descreve como a “altura mais displicente” da vida. “Só queria divertir-me com os meus amigos e, nesse sentido, foram anos ótimos, mas diria que foi quase um niilismo total.”

Passados quatro anos totalmente despreocupados, caiu-lhe a ficha: com o curso terminado, tinha de começar a trabalhar. No primeiro ano como professor de EV (Educação Visual) e EVT (Educação Visual e Tecnológica), em 2002, deu aulas em Leiria. Estava “resignadíssimo” de que essa seria a sua vida para sempre, mas nas salas de aulas dava o máximo.

“Quis ser com os alunos a mesma coisa que os professores que me marcaram foram comigo. Ainda hoje tenho um bocadinho isso quando conheço malta que está com as primeiras bandas e me vem pedir opinião. Se eu gosto daquilo, tento incentivar ao máximo e, se não gosto, tento incentivar também naquilo que posso. Porque houve pessoas que fizeram isso comigo.”

Manteve-se no ensino até 2010-2011, mas nesse ano letivo já se sentia completamente desgastado. Foi colocado numa escola em Lisboa, perto de casa, mas estava igualmente a colaborar com um teatro em Guimarães, para o qual fazia a banda sonora. “Pelo menos durante uma semana por mês, entrava aqui em Lisboa às oito da manhã para dar aulas, saía às 14h30 ou 15h, ia para Guimarães, estava lá até às duas ou três da manhã, regressa a Lisboa, e no dia seguinte era igual. Aí pensei: ‘Chega, isto não vai acontecer’.”

▲ A 11 de outubro, Samuel Úria encheu o Coliseu de Lisboa

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Por essa altura, a música já era suficientemente importante para lhe pagar as contas e a exaustão foi o empurrão necessário para abdicar do resto. Recuando uns cinco anos antes dessa decisão, lembra a importância do MySpace. “De repente, houve ali uma conexão de várias bandas que estavam a fazer coisas semelhantes em sítios diferentes do país. O MySpace proporcionou que nos conhecêssemos e que nos ampliássemos uns aos outros. Estávamos todos nos concertos uns dos outros, começámos a colaborar uns com os outros, a aparecer nas canções e nos discos e nessas coisas marginais que nós fazíamos por carolice.”

O facto de não ter tido bases de solfejo acabou por revelar-se uma mais valia, já que não se sentia preso a moldes para fazer música. “Não tinha limitações e é uma das coisas que me faz amar a noção que tenho da música. É onde o defeito pode ser valorizado sem que tenha de se tornar uma virtude.”

Com a saída de Tondela, Samuel Úria perdeu os elementos que tinha nas antigas bandas. Na editora Flor Caveira, selo que ainda hoje está nos discos do músico, encontrou novos amigos e companheiros e foi assim que nasceu o projeto Samuel Úria & as Velhas Glórias, que deu nome ao álbum de 2005. “Reformulámos algumas canções folk que eu estava a fazer, recuperamos canções antigas e aprensentámo-las num formato punk rock.”

O ano de 2008 é aquele que identifica como a grande transição. “Começou a haver cobertura da imprensa e a aparecerem pessoas nos concertos que não eram só amigos, isso foi uma novidade.”

Editou Samuel Úria em Bruto (2008) e Nem Lhe Tocava (2009) e nesse ano, precisamente dia 10 de junho, fez algo marcante: apenas nesse dia gravou um disco inteiro em casa. Tudo foi transmitido em direto na internet — os espectadores podiam dar sugestões enviando emails. Assim nasceu A Descondecoração — tudo porque o álbum que estava previsto através da Valentim de Carvalho iria demorar e o músico não queria esperar. “Essa frustração de ter que esperar para ter um disco composto e bem organizado criou em mim a vontade de fazer uma coisa completamente oposta, que era o disco mais emergente e urgente do mundo. Foram dez canções feitas em 12 horas.”

Uma das letras que escreveu no computador desapareceu no momento em que ia gravar o tema, tinha apagado tudo sem querer. Então, improvisou. “Há uma faixa em que sou só eu a trautear ‘la la la’. Mas gostei tanto dessa melodia que mais tarde escrevi uma letra e convidei o Manel Cruz para um dueto. De repente tornou-se, se não a minha canção mais bem sucedida, pela menos a segunda mais bem sucedida.”

Estamos a falar de Lenço Enxuto que lhe deu, em 2014, o Prémio de Melhor Canção do Ano, atribuído pela SPA. Canções do Pós-Guerra surgiu em 2020. “Mais tristonho e pesaroso”, acabou por coincidir com a pandemia e, de repente, lembra Samuel Úria, “tornou-se a banda sonora de algumas pessoas nessa fase, reforçando ainda o negrume do próprio disco”.

Quatro anos depois, 2000 A.D., com nove temas, tinha a pretensão de ser mais esperançoso e alegre. “Eu queria muito que o disco subsequente fosse um disco mais alegre, mas tudo o que estava a acontecer, até perto de nós ou no mundo, não estava a dar-me espaço para escrever um disco cheio de esperança, animado e alegre. Portanto, assumi que o que era para ser alegre, seria alegre. O que era para ser triste, seria triste.” 2000 A.D., faixa que dá nome ao álbum, venceu o Globo de Ouro de Melhor Canção na edição deste ano dos prémios.

“As grandes batalhas são comigo ou contra mim, porque estou ali a debater-me com pormenores biográficos, ideias, sentimentos que eu, à partida, não quero revelar, é uma coisa que é íntima. Mas eu sei que a minha intimidade tem que estar nas minhas músicas. Se não, elas não serão minhas, serão canções que soarão a outra pessoa qualquer”

Escreve também para inúmeros outros músicos, de António Zambujo a Ana Moura. Gosta de fazer coisas que o coloquem fora de pé, mas admite que as maiores dificuldades surgem quando compõe para ele. “As grandes batalhas são comigo ou contra mim, porque estou ali a debater-me com pormenores biográficos, ideias, sentimentos que eu, à partida, não quero revelar, é uma coisa que é íntima. Mas eu sei que a minha intimidade tem que estar nas minhas músicas. Se não, elas não serão minhas, serão canções que soarão a outra pessoa qualquer.”

A barreira está cada vez mais difícil de definir, garante. “Uma pessoa cresce, envelhece, acumula defeitos e confissões que não quer fazer. Por isso, quando faço algo que não é para mim, acaba por ser terapêutico porque me esvazio desse conflito interno.”

Quando grava um disco, precisa de uma pausa sem pensar em compor nada de novo. Esse, garante, tem sido o segredo para nunca ficar cansado ou sem inspiração. “Nessas fases é mais importante consumir: ver filmes, passar o dia a ler, ouvir outras coisas, criar uma bagagem artística para o que depois vai surgir nas minhas canções.”

Quando está em estúdio a gravar, precisa de um escape para fugir à morosidade e aos detalhes técnicos que lhe ocupam o dia inteiro. Chega a casa e não gosta de falar de trabalho, embora a mulher também tenha tido bandas quando era mais nova. O cenário ideal é cozinhar durante horas. “Se puder estar a preparar o jantar durante três ou quatro horas, estar a mexer em facas, em panelas e em fornos, é a coisa mais terapêutica do mundo.”

Aos 46 anos, há cada vez mais questões que o atormentam. Vai encontrando na espiritualidade algum conforto — mas também responsabilidade. “As pessoas que são religiosas não estão protegidas de uma forma diferente. Têm uma responsabilidade diferente de reagir e de estar para os outros, de estar a consolar quem tem a dor, de chorar com quem chora, de rir com quem ri. Também tenho esse espelho na minha música, que é muitas vezes desesperada a identificar os males do mundo, mas também tem que ser esperançosa no sentido em que, se alguém tem soluções ou se me surgem soluções, eu tenho que canalizá-las e tenho de falar sobre elas.”

Em outubro atuou nos Coliseus de Lisboa e Porto, concertos que lhe tiraram o sono e o empolgaram na mesma medida. Apesar de ter agora muita gente dependente dele (músicos, produção, etc) — o que lhe lhe exige “uma concentração diferente e a uma ausência de desleixo” —, conseguiu manter uma rebeldia que o caracteriza desde o início. “Claro que há uma estrutura, mas não gosto de ter guião para o que vou dizer entre as canções. Deixo espaço para chegar lá e dizer disparates, tropeçar e enganar-me, isso faz parte do espetáculo. Fazer as coisas nestes moldes também me tira anos de vida, mas faz-me encarar as coisas com a ansiedade de querer muito que aquilo aconteça. Já não é uma ansiedade receosa.”

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