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Gamma-Rapho via Getty Images

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Se parece estranho, está tudo certo. Uma lição contínua sobre ser cool com(o) Jonathan Anderson

Que possibilidade há para o génio e o risco numa indústria que aspira aos multimilhões? Depois do consulado Loewe, todos os olhos estão postos no novo capítulo do designer à frente da Dior.

Quanto tempo pode durar o momento de um designer do momento? Pouco interessa. Quando o tema é Jonathan Anderson os clichés rebentam como um balão preso no salto de um sapato (entendedores entenderão, outros lerão sobre o assunto). Como se bastasse ter um trevo de quatro folhas, pode gabar-se da dupla proeza: ser adorado pela crítica e recompensado pelo mercado de consumo, um autêntico bingo na era em que não chega fazer linha no cartão para ser notícia. Sob a batuta do norte-irlandês, como lembrava a New Yorker num artigo deste ano, a espanhola Loewe tornou-se um elogiadíssimo dínamo comercial. Portanto, por esta altura, quando se prepara para se estrear pela Dior, o limite já estará para lá do éden da indústria. Porque ele não manobra apenas a Moda, ele domina a Cultura.

Para Jonathan Anderson, é provável que seja só mais um dia de trabalho, a desenhar para o ultra luxo ou para a high street com a mesma dose de empenho. “A Uniqlo é bem feita e acessível. Farto-me de usar Uniqlo, aliás uso mais do que JW Anderson ou Loewe”, admite o designer que também desenha cápsulas para a cadeia japonesa da roupa barata, o equivalente à “GAP dos anos 90”, e que é conhecido pela informalidade do seu próprio guarda-roupa. Mas na verdade a jogada vai além de uma simples mudança interna no seio do conglomerado presidido pelo magnata Bernard Arnaud, que detém a Dior, a Loewe e ainda a JW Anderson, entre uma míriade de colossos do setor do lifestyle. “O senhor Anderson é um dos talentos criativos da sua geração”, definiu Arnaud, quando o segredo mal guardado rebentou por fim.

Este sábado, de novo de forma peculiar, foi lançado um pequeno preview do que aí vem através das stories de Instagram da Dior para um grupo restrito de amigos, com evocações de Basquiat ou de Lee Radziwill através das míticas polaroids de Andy Warhol.

Há muito que os fãs tinham juntado um mais um e concretizado a soma nas suas cabeças – depois do anúncio da chegada de Jonathan Anderson à direção das coleções de homem da maison fundada em 1946 por Christian Dior, rendendo Kim Jones, só faltava o xeque mate definitivo: agarrar o departamento feminino, o leme da alta-costura, e centralizar assim um conjunto de funções que não sucedia desde as raízes da casa, e que parecia um fardo demasiado pesado para um só mortal — sobretudo desde 2001, quando a LVMH transformou a linha masculina numa parte integrante da missão, movimentando no total um colosso estimado em 9 mil milhões de euros.

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Março de 2022, nos bastidores do desfile outono-inverno 22/23

Penske Media via Getty Images

De saída há muito pré-anunciada nos corredores, a italiana Maria Grazia Chiuri despedia-se com um desfile em Roma e cedia o seu lugar ao senhor que segue, numa composição de lideranças na alta roda da Moda que hoje, curiosamente, se escreve praticamente no masculino – a exceção entre os tubarões do meio repousa em duas britânicas, Sarah Burton, na Givenchy, e Louise Trotter, que sucede a Mathieu Blazy na Bottega Veneta. Blazy seguiu para a cobiçada cadeira da Chanel, e Demna, mais um talento na casa dos 40, a geração que distribui jogo por estes dias, trocou a Balenciaga pela Gucci.

O génio e o talento podem ser determinantes, mas no frenesim do circuito da moda de luxo os números são um veredito implacável quando se precipitam as transferências – e mais do que um mero detalhe quando um vendaval varre o setor). Com efeito, a missão de Jonathan na Loewe teve tanto de criativo como lucrativo. Em dez anos, o volume de vendas da marca espanhola cresceu de 230 milhões em 2014 para 1.1 mil milhões em 2024, segundo o relatório da Vogue Business. Quer isto dizer que Chiuri perdeu a corrida dos cifrões? Bom, não necessariamente. Como diretora criativa da Dior, a marca francesa quadruplicou o retorno, de 2,2 mil milhões em 2017 para 9,5 mil milhões de euros em 2023. A designer seguiu uma linha narrativa assente na bandeira feminista (ainda nos lembramos do slogan “We should all be feminists” nas t’shirts), revitalizou os códigos ladylike da marca, e puxou dos galões dos ateliers Dior, trazendo para primeiro plano uma série de artesãs.

Duas imagens da coleção primavera 2021 da Loewe, sob a liderança de Anderson

Loewe

Mas as melhores intenções esbarram de frente com a realidade de um quadro mais amplo. Em 2024, o mercado do luxo experimentou um notado declínio, com as vendas a baixar globalmente cerca de 2 por cento, uma quebra na indústria ao nível da crise de 2008/2009, explicada em grande parte por três fatores: o aumento dos preços, o recuo na procura e sobretudo a mudança nas prioridades no lifestyle (hotéis e viagens situam-se na dianteira por comparação com o segmento estrito da moda). E, contas feitas, quem quer saber de millions quando atingimos o patamar dos billions? “A indústria mudou. Antigamente, uma marca que alcançasse mais de 100 milhões de euros era um peso-pesado. Isso é minúsculo para os padrões atuais. É preciso ganhar mil milhões de euros para ser um verdadeiro jogador. Muda tudo. O risco torna-se impossível.”, descrevia Anderson numa longa e reveladora entrevista à Etiquette, recuando 10, 15 anos, e a essa “excitante” era de Alexander McQueen, John Galliano, Prada, ou Miu Miu, quando cada season era uma emoção.

“Às vezes, numa reunião, alguém me passa uma lista de influenciadores com quem poderíamos trabalhar. Acho tudo isto absurdo. Não deixa espaço para novos jovens designers emergirem. Já não dá para ser curioso; a curiosidade tornou-se muito arriscada. Hoje em dia, tudo o que fazemos é escrutinado de perto. As pessoas rastreiam os nossos erros. É uma camisa de forças.”, lamenta. E continua: “Adoro fazer referências a coisas que já aconteceram em desfiles. Toda a história da moda é construída sobre as referências dos designers. O vestido Mondrian de Yves Saint Laurent era uma referência histórica. Há muitos outros exemplos como esse. Mas hoje, há pessoas que perseguem essas referências. Às vezes, ouço coisas como: “Isso parece um vestido de 1974”, e parece uma acusação. Mas eu sei que Ticiano pintou Adão e Eva no século 16 e então Rubens reproduziu a mesma pintura no século seguinte, e estou totalmente confortável com isso.”

Estação atrás de estação, o facto é que Jonathan tem conseguido alimentar um frisson que vai muito para lá do momento da passerelle, e que cobre todos os recantos do lifestyle, dos divertidos charms para carteiras às velas e ambientadores com as mais inesperadas fragrâncias.

Dos porta-chaves às velas, dos gift sets personalizáveis aos perfumes, a cor e o inesperado estenderam-se a diferentes braços da casa espanhola

Vamos por momentos colocar em pausa todas as inquietações sobre consumo desenfreado, excesso de coleções colocadas cá fora, indústria poluente e prioridades eventualmente invertidas. O caso de Anderson é peculiar, se pensarmos que além das expectativas geradas sobre o futuro da Dior o mago norte irlandês tem tudo para ser o mais prolífico dos designers. Senão vejamos: além das 10 coleções de homem, senhora, alta costura e resort (ou riviera) para a maison francesa, não há, até ver, indicação de que se afaste da sua marca homónima ou que abandone as colaborações com a gigante Uniqlo. Contas feitas, pode chegar a assinar 18 coleções por ano — e é mais que provável que tenhamos notícias suas a cada mês. Quanto à estreia na Dior Homme, marque já na agenda: acontece a 27 de junho, em Paris.

Austeridade, draq queens, e o efeito trampolim da Topshop

Se alguns lhe chamam o “miúdo mimado” do conglomerado Moët Hennessy Louis Vuitton, fundado em 1987, não parece que alguém deseje que a criança de sucesso cresça. Sobretudo se pensarmos que o essencial da receita atual bebe das origens frugais e/ou kitsch. Magherafelt, anos 80: moda e estilo não serão os termos que mais se evidenciam quando imaginamos o contexto daquela pequena localidade do Ulster, muito menos no guarda-roupa de um adolescente que vive no campo, rodeado de vacas e galinhas. À Etiquette, Anderson admite que passou por várias fases, e nem todas motivo de orgulho, a começar pelos calções de ciclista fluorescentes e as t’shirts estampadas que povoam o seu armário. No início de noventas, quando começou a prestar mais atenção ao tema, vasculhava as caixas do TK Maxx em busca de pérolas como os sapatos de Patrick Cox ou as calças de veludo de tigre de Jean Paul Gaultier Jeans. “Estava obcecado com o Gaultier porque a minha biblioteca tinha um livro sobre ele. Era o único livro sobre moda em toda a biblioteca.”, recordou o designer, lembrando ainda outros fracassos e a difícil arte de navegar entre gozões à medida que se cresce. “Lembro-me de poupar todo o meu dinheiro para comprar um par de calças Gucci, que lavei num ciclo que estava muito quente, por isso encolheram antes mesmo de as poder usar. Os miúdos da escola estavam sempre a dizer-me que eu parecia um idiota. Era muito difícil lidar com isso todos os dias. Pode-se dizer que a Irlanda do Norte era um país bastante austero naquela altura.”, define ao mesmo meio.

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Jonathan Anderson no anúncio dos nomeados aos British Fashion Awards, no Beaufort Bar do The Savoy Hotel, em setembro de 2012. Em 2024, revalidava o título de Designer do Ano

Getty Images

Um de três irmãos, Jonathan William Anderson é filho de Willie Anderson, que aos 18, 19 anos, se fartou de ser agricultor e decidiu tornar-se jogador de rugby. Treinou de tal forma que chegou a capitão da Irlanda (nesta modalidade, e ao contrário do futebol, a Irlanda e a Irlanda do Norte reúnem-se numa só equipa). Se o pai nunca teve temeu a adversidade, a mãe, Heather Buckley, professora do ensino secundário, teve que apelar à paciência pouco depois de se conhecerem. Em cenário de pré guerra nas Malvinas, Willie rumara a Argentina com uma equipa de britânicos e numa noite de bebedeira roubou uma bandeira daquele país e passou três meses na cadeia.

JWA (as suas iniciais) cresceu com dislexia, um diagnóstico que definiu a sua vida — ainda hoje, admitia ao New York Times, evita escrever simples emails. “As limitações podem ser muito libertadoras”, confia o criador que cedo começou a chamar a atenção dos professores. “Mesmo naquela altura, todo o talento e criatividade de seu trabalho se destacava – estava muito além de qualquer um dessa faixa etária.”, comentou à BBC Sharon McCracken, da Rainey Endowed, antiga escola de Jonathan.

Assumir-se como homossexual pelos 18 anos foi outros dos passos estruturantes. Da juventude, Jonathan Anderson guardou ainda o sonho de ser ator, o que o levou ao National Youth Theatre em Londres, e pelos 19 anos até Washington, D.C. Foi aí que conheceu uma drag queen afroamericana “incrível” que era responsável pelo guarda roupa de um teatro. “Passava imenso tempo com ela em vez de ir aos ensaios, ensinou-me tudo sobre os designers americanos. Foi aí que a paixão começou”. Quando o dinheiro se acabou, Jonathan regressou à Europa, instalou-se em Dublin e encontrou trabalho numa loja Brown Thomas, que vários anos depois lhe desejou melhor sorte na nova etapa.

Na altura, o jovem colaborador mentiu nas competências (não havia Linkedin para desmentir inflacionadores de CVs), garantindo que tinha trabalhado em grandes armazéns norte-americanos. E dedicou-se a vender roupa interior masculina. Tom Ford era o nome forte na Gucci, Hedi Slimane o rosto da Dior, a Prada estava em altas e o hype da Dolce&Gabbana não ficava atrás. Num momento pródigo para a metrossexualidade, os futebolistas tornaram-se os principais clientes. “Quando eles vinham à loja, incentivávamos a gastar, e eles compravam uma sweatshirt D&G e umas calças de cabedal à cowboy. Eram os únicos que não percebiam que era totalmente gay. Estava a ganhar dinheiro pela primeira vez.”

O apelo da Moda entranhou-se de vez depois de trabalhar como visual merchandising com a lendária Manuela Pavesi, na Prada. Deixou o London College of Fashion em 2007 para lançar a sua própria marca, a JW Anderson, no ano seguinte, e à velocidade de meteorito foi escalando degraus, começando por apresentar a sua primeira coleção na passerelle da London Fashion Week em 2010.

Com a sua saída da Loewe, aliás, especula-se que as coleções da marca própria adquiram interesse extra. Posicionada uns furos abaixo da espanhola em termos de preços, talvez as suas t’shirts com logotipo por 125 euros, as malhas JWA e as carteiras como a Corner, ou a Loafer, vejam reforçado o apetite pelo símbolo da âncora.

Uma tshirt branca JW Anderson. E a carteira Loafer, inspirada no clássico mocassin, disponível em diferentes tons

Há quem note também que o acumular de pastas nem sempre deu bons frutos, pelo menos para o elo mais frágil. Que o diga o reinado de Marc Jacobs, que tanto criou para a Louis Vuitton como manteve a marca em nome próprio, um equilibrismo nem sempre bem sucedido. Se a Dior tem tudo para ser a prioridade da LVMH, dificilmente quererá desperdiçar a energia (e o target alternativo e complementar) da JW Anderson. Por falar em Jacobs, quando este fez 60 anos vestiu um hoodie pixelizado da Loewe, um tributo imbatível.

Dir-se-ia que um momento decisivo na escalada Pop foi a aclamada colaboração de Anderson com a Topshop, a rampa de lançamento para outros contributos na área do mainstream e a sua apresentação ao grande público. A 14 de setembro de 2012, em jeito de aquecimento para a Semana da Moda de Londres, a estética boyish a preço acessível chegava às lojas. Na estação seguinte, nova fornada com o selo de Anderson. “A coleção dá um twist aos básicos e reafirma a silhueta, com um leve elemento de torção. É muito mais liso e mais moderno do que a temporada anterior.”, defendia então o designer, cujos artigos iam dos 1,29 euros aos 169. Camisolas com a imagem de dodos e carros, padrões losango, loafers, plataformas, capas de iPhone, sacos, trench, saias pencil e de pregas eram apenas algumas das sugestões saídas desta fornada acessível.

Duas imagens da campanha Topshop X Jonathan Anderson, para um regresso a 2012

Jonathan tinha cinco anos quando em 1989 Gianni Versace criou a Versus, a linha secundária da Versace que surgiu com um presente para a irmã Donatella. Em 2013, depois da saída de Christopher Kane, a criadora que assumiu as rédeas da casa após o homicídio do irmão, faria uma coleção cápsula com Anderson, que daí bebeu boa parte do chamado “wrongness” visível nas suas criações, misturando de forma poderosa os códigos femininos e masculinos.

Ainda a distância de conceitos como fluidez de género, já a noção de unissexo relevava abertura de espírito e conseguia estar imune a polémicas. Anderson é desde sempre frequentador assíduo desta visão e não hesita quando lhe pedem para identificar uma peça sua com potencial de longevidade: os calções com folhos para homem da coleção de 2013, que apesar de tudo provocou o lastro de choque.

“Ele lançou-se como uma marca de menswear, mas ao longo dos anos JW Anderson apresentou casacos estilo quimono que se parecem um pouco com vestidos, jumpers pendurados na cintura que se parecem um pouco com saias e camisas de renda um pouco blousy. Aqueles que defendem o seu trabalho tendem a usar adjetivos como andrógino ou sem género, nenhum dos quais transmite com precisão a abordagem de Anderson. Ele prefere a palavra unissexo”, escrevia o The Guardian nessa altura, quando a colaboração com a Topshop foi lançada. “Quando adolescente, ele diz que estava obcecado com o CK One, o perfume unissexo da Calvin Klein que pairava sobre as pistas de dança em meados dos anos 90: ele ainda compra uma embalagem quando espera por um voo.”

Se o clima irlandês conferiu resistência e otimismo, talvez a forma como brinca com a cor venha das solares temporadas em Ibiza, quando os pais compraram casa em San Carlos. Ainda longe da “vegan vibe” atual, como lhe chama, a ilha espanhola era bem mais “trashier”, entre a cena clubbing, topless e transeuntes em Speedos fluorescentes. A caminho dos 41 anos, conserva um eterno ar de garoto, com cabelo levemente desgrenhado e outfit descontraído, entre jeans e sweatshirts com ar gasto, uma paleta que desmente a biografia oficial. Ah! E a biografia e rotina levam a crer que o seu mundo não começa nem termina nos corredores da Moda, uma abertura essencial para a criação.

Não é por acaso que em 2019 se encontrava com a jornalista Nancy Hass do The New York Times no museu Victoria and Albert, que visitou pela primeira vez quando era adolescente e que agora visita duas vezes por mês. Nomeado trustee daquela instituição pela ex-primeira-ministra britânica Theresa May, viaja regularmente de táxi da sua casa vitoriana em East London ou desde a sede do seu atelier em Hoxton. Do acervo do V&A faz parte o cardigan patchwork da coleção Menswear Spring/Summer 2020 da JW Anderson. Foi usado pelo cantor Harry Styles durante os ensaios para uma aparição no Today Show em fevereiro de 2020, e o casaco tornou-se uma autêntica uma sensação global durante os primeiros dias da pandemia de  COVID-19. Quando a artista baseado em LA Liv Huffman recriou a peça em crochê e esta se tornou viral em TikTok, Anderson respondeu partilhando um padrão e tutorial para que os fãs fizessem o seu próprio cardigan.

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O casaco de malha viral de Styles, a barriga de Rihanna, o trompe l'oeil em Beyoncé e Emily Ratajkowski com o icónico top antúrio

GC Images

Em 2017, Anderson lançou-se como curador, com a exposição “Corpos Desobedientes”, no Hepworth Wakefield, em West Yorkshire. Obcecado com cerâmica, tão curioso em relação ao trabalho do artista multidisciplinar David David Wojnarowicz, como à criação do período medieval e pré-industrial britânico, ou ao filósofo e designer William Morris (cujos padrões usou numa coleção cápsula da Loewe em 2017), investe no trabalho de casa sem esquecer o business puro e duro. “Nenhum designer hoje pode ser completamente separado das realidades dos negócios. Talvez há uma década, mas não mais”, diz. “É sobre sobreviver, de ficar por perto tempo suficiente para dizer todas as coisas que você quer dizer.”, defendeu ao diário norte-americano.

Um dia antes, jornalista e perfilado encontraram-se em Paris. De Madrid para a cidade luz, foi aqui que Jonathan decidiu instalar o centro criativo da Loewe, trabalhando a partir do espaçoso estúdio com vista para a igreja de Saint-Sulpice. Dividia-se entre França e Londres e duas vezes por mês visitava o quartel general da marca, em Madrid.

Um pombo viral, a gravidez de Rihanna, e outros hinos pop. O que é que Jonathan tem?

Quando o norte-irlandês assumiu as rédeas criativas da Loewe já o historial era longo — mas faltava assistir à masterclass sobre branding no século XXI, e alargar o potencial de horizontes de uma etiqueta essencialmente célebre pelas suas carteiras (e relativamente obscura para o grande público fora das fronteiras espanholas). Neste particular, é justo referir o nome do CMO Charlie Smith, que superintendeu todas as manobras de alavancagem. E claro que analisando todo o universo seria preciso mencionar contributos como o de Javier Carvajal, o arquiteto responsável pela modernização da imagem das lojas da marca.

Foi em 1846, em Madrid, que um grupo de empreededores que trabalhavam com o couro lançou as bases da empresa. Em 1872, Enrique Loewe Roessberg juntou-se ao grupo e consolidou as operações. Chegados a 1905, o luxo das criações já fornecia a coroa espanhola. Da rainha Victoria Eugenia a Ava Gardner, a marca gerou uma fiel carteira de clientes de topo. A primeira coleção de pronto a vestir chegou em 1965. Cinco anos depois, fixava-se o icónico logo e em 1975 lançavam a famosa carteira Amazona. Louis Urvois e Gian Luca Spinola detêm a maioria das ações da Loewe em 1984, ano em que o grupo LVMH entra em cena e se enceta um novo capítulo. A partir desse período e até 1996 coube a Giorgio Armani e Laura Biagiotti desenhar as coleções femininas da etiqueta. Em 1984 o grupo presidido por Arnaud adquiria os direitos de distribuição da Loewe e uma década volvida já controlava a marca na totalidade.

O impactante consulado de Anderson quase nos faz esquecer a lista de antecessores mas entre 1996 e 2001 a direção criativa esteve entregue a Narciso Rodriguez. Seguiram-se no cargo José Enrique Oña Selfa (até 2007) e Stuart Vevers (até 2013) — e nenhum deles conseguiu surtir o efeito do beijo do príncipe sobre a Bela Adormecia. Depois de Anderson, não se pense que o interesse sobre os sucessores tem tudo para definhar. A dupla norte-americana Jack McCollough e Lazaro Hernandez, virtuosos fundadores da Proenza Schouler, mantém as expectativas do público elevadas – mas, bom, terão em mãos a hercúlea tarefa de virar a página e encetar um novo enredo.

Com Anderson na Loewe, a marca aderiu ao universo conceptual, divertido e de alta-costura, num equilíbrio incomum no setor. Os desfiles tornaram-se acontecimentos, as imagens das campanhas viralizaram, e a artesania espanhola conheceu um novo fôlego e requinte. Da passerelle às ruas, da red carpet ao cinema, a era “Loeweverson” está recheada de criações e momentos icónicos. Muitos deles carregados de um humor e desejo que nos teleguia de imediato para uma certa inocência e estranheza que se entranha.

A receita do sucesso talvez esteja nesse olhar lúdico que aplica a cada momento, explorando  o recurso ao surrealismo e ao tromp l’oeil. O luxo tornou-se cool como um tomate carteira ou um top antúrio, trabalhável como uma plasticina colorida de efeito monumental, desejado por todos mas, claro, apenas à distância de uns quantos happy few. Que o diga a sua Puzzle Bag saída da coleção de outono de 2015, um clássico instantâneo desempoeirado de aborrecimentos, cuja etiqueta passa facilmente os 3 mil euros. O mesmo se pode dizer da Flamenco clutch ou das versões em ráfia Paula’s Ibiza. Por tudo isto, sim, não era tanto saber se mas antes quando daria o salto seguinte.

Em 2016, Anderson oficializou a sua devoção ao artesanato fundando o Loewe Craft Prize para artesãos de todo o mundo trabalhando em vidro, couro ou mesmo papel. E este é de facto um ponto fundamental. Se quiserem perceber a fórmula JWA dir-se-ia que a fricção é indispensável (perceber e antecipar o tempo e os tempos também ajuda). Haverá progresso e satisfação sem conflito? O toque couture da artesania é conjugado (e até amplificado?) pelo contraste com uma certa crueza. O resultado são peças tão intrigantes quanto belas, ou como a energia da imperfeição nunca pareceu tão apelativa. Uma camisola de malha que parece tricotada de forma amadora pela avó em casa. A nostalgia de uma referência de infância estampada num print. Um nível de avant guarde que permite que as suas peças mantenham a característica usável, para quem gosta de arriscar sem temer espalhar-se ao comprido.

A lista de momentos icónicos nos últimos anos é vasta. Não é que precisasse do milho da televisão para se consagrar, mas quando um pombo aparece nas mãos de Carrie Bradshaw, no set da sequela de O Sexo e a Cidade, é garantido que o fenómeno levanta voo. A carteira foi só um dos elementos mais comentados na série And Just Like That.

2024, por exemplo, trouxe-nos uma dama Maggie Smith com a sua então provecta idade na campanha primavera da Loewe. Para o inverno, o ator Daniel Craig submeteu-se a uma inesperado extreme makeover no que ao estilo diz respeito. A passadeira vermelha da Met Gala tem boas histórias para contar mas nada bate o anúncio da gravidez de Rhianna em pleno intervalo do Super Bowl, num look com a sua assinatura, ou o guarda-roupa da Renaissance World Tour de Beyoncé. Quando chegamos ao cinema, a simplicidade de uma t’shirt cinzenta com a frase ‘I Told Ya’vestida por Zendaya em “Challengers” chega a sobra para fazer escola. Também a longa-metragem “Queer” de Lucca Guadadigno contou com figurinos de Jonathan.

“Gosto da ideia de que as pessoas hoje estão tão culturalmente conscientes de que tudo o que entra em suas casas importa tanto quanto cada peça de roupa”, explicava Anderson à Wall Paper em 2015, quando se embrenhou sem hesitações nos arquivos da Vogue Italia e assumiu a sua fixação pelas imagens de Steven Meisel saídas de 1997. “Deixo-me inspirar em imagens de moda e não tenho medo de mostrá-lo”, admitia o designer, que nas primeiras campanhas publicitárias para a marca espanhola trouxe para bordo o fotógrafo americano, no lugar de Mert Alas e Marcus Piggot.

Para a primavera de 2025, a coleção com que celebrou com estrondo uma década de vanguarda na Loewe, deu-nos esvoaçantes vestidos de chiffon com crinolinas. Claro que a armação em formato de gaiola saída do século XIX chegou com um monumental twist: inofensiva, livre de espartilhos e usada por manequins de lentes aviador, mãos nos bolsos, e sapatos rasos, como se desfilassem o mais prosaico do streetwear.

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Em Paris, a coleção Spring/Summer 2025 da Loewe celebrou em grande uma década da era Jonathan Anderson

Gamma-Rapho via Getty Images

O novo capítulo na lendária Dior e as afinidades com monsieur Christian

Com Jonathan Anderson, a caminho da Dior, estará também Pol Anglada, seu companheiro no trabalho e na vida, para encetar um novo capítulo em matéria de rumo criativo. Não sendo possível fazer futurologia, espera-se, pelo menos, que o experimentalismo a que habitou os seguidores não fique na gaveta.

Desde as fundações do histórico New Look, entre finais de 40 e 50 do século passado até ao empoderamento no feminino servido por Maria Grazia, a Dior conheceu diferentes eras, silhuetas e abordagens. E se atualmente imagens como esta aqui em baixo nos surgem como clássicos inquestionáveis, é bom recordar que nesses anos de pós-guerra foram considerados um extravagante ultraje junto de um público acostumado à parcimónia recomendada pelo conflito no coração da Europa.

A menos de um século de separação, Christian e Jonathan partilham (pelo menos) outras duas inclinações. Desde logo, a sensibilidade e visão para a arte — Dior chegou mesmo a ter uma galeria onde exibiu trabalhos de nomes como Picasso, Dalí e Man Ray. Era também um empresário de faro apurado, que não só fez a ponte com outros países como complementou a venda de roupa de senhora com acessórios como joalharia.

Tailleur Bar, o New Look de Christian Dior, apresentado ao mundo em 1947, marcou o século XX. Que rumo lhe dará Jonathan?

Divulgação

Com apenas 21 anos, Yves Saint Laurent sucedeu a monsieur Dior e modernizou as linhas, percorrendo com equilíbrio a sua “Trapeze”, criações fluídas ao estilo A-Line. Com a entrada na década de 60, Marc Bohan introduziu o minimalismo e a estética estruturada, para um efeito slim que se estenderia até final dos anos oitenta. Entre 1989 e 1996, Ginafranco Ferré assumiu as rédeas e aplicou o cunho arquitetural à elegância dos designs. A inspiração histórica em todo o seu esplendor amparou o dramatismo de John Galliano, um teatro de sonhos nem sempre consensual mas que jamais gerou indiferença. A sua liderança  durou até fevereiro de 2011, em cima de mais uma Semana da Moda de Paris, quando o mestre abandonou funções, de novo entre polémica: Galliano não sobreviveria ao escrutínio legal e público depois de se tornar público um vídeo com alguns meses em que surgia alcoolizado a atacar um grupo de mulheres com insultos antissemitas.

Para um reset, clean e sofisticado foi o registo seguido entre 2012 e 2015 por Raf Simons, a quem coube a difícil tarefa de reimaginar os clássicos Dior com uma sensibilidade contemporânea, no rescaldo do choque reputacional no seio da marca.

E agora, Jonathan? Depois da próxima semana, as atenções viram-se para o mês de outubro, quando o designer se estrear com a sua primeira coleção feminina para a Dior. Na fila da frente, deverá estar boa parte da galáxia de celebridades que costuma garantir presença. Em maio último, a coleção Cruise 2026 atraiu figuras como Natalie Portman, Beatrice Borromeo, Deva Cassel, ou Rosamund Pike, um elenco que deve atingir proporções épicas quando a grande estreia chegar.

“Em última instância a Moda é tentar vender algo através da imagem, e através do desejo”, dizia à The New Yorker. A história até pode meter trevos verdes e outros amuletos mas dificilmente isto se chama sorte.

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