1231,5kWh poupados 1231,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-1497622618
i

WireImage for ABA

WireImage for ABA

"Soy la Lux del mundo": a ousadia incurável de Rosalía está toda no novo álbum

Já ouvimos o novo álbum, "Lux", já editado. Mais desafiante, mais destemido e arrojado, o disco volta a confirmar Rosalía como uma das maiores forças criativas do nosso tempo.

Lux é um dos álbuns mais aguardados do ano. É o quarto longa-duração da carreira de Rosalía, o sucessor do muito popular e aclamado Motomami (2022). Este é um disco nascido de um desgosto amoroso, mas que vai muito além dessa premissa. Face a um revés sentimental, Rosalía vira-se para a espiritualidade — para a luz e a intervenção divina —, um registo que caracteriza todo este novo trabalho.

É uma mensagem, aliás, que está bem patente no único single de avanço de Lux, a impactante Berghain. Rosalía decidiu evocar o nome do famoso clube de Berlim, um dos maiores templos mundiais do techno e da música eletrónica, para uma canção em que colabora com Björk e Yves Tumor, cantada em alemão, castelhano e inglês.

É uma ópera pop avant-garde com orquestra, um tema intrigante cujo videoclipe, realizado por Nicolas Méndez, ajuda a explicar a narrativa — e todo o conceito do álbum. Encurralada por um intenso turbilhão de pensamentos intrusivos, de nervos e ânsias, aqui representados pelos muitos músicos de orquestra que a rodeiam a cada momento do quotidiano, Rosalía representa uma mulher que sofre de um problema de coração — que tanto é simbolizado pela joia como pelo exame cardiológico a que é submetida.

[o novo álbum “Lux” está disponível na íntegra no Spotify:]

Na consulta — neste caso, com um joalheiro — não recebe um diagnóstico favorável, Rosalía apercebe-se de que os seus problemas são incuráveis. Ao regressar a casa, sente-se perdida como uma Branca de Neve numa floresta fria e obscura. “A única forma de nos salvarmos é a intervenção divina”, ouve-se na voz de Björk. E, nos segundos finais da canção, a percussão a decrescer referencia um coração que se dissipa, que pára de bater. Deitada na cama, Rosalía fecha os olhos, um cubo de açúcar entranha-se de escuridão e a protagonista desta história transforma-se numa pomba que, finalmente, consegue voar.

Esta ideia de renascimento e de cura, de transcendência através da espiritualidade, atravessa todo o disco. Ao longo de 18 faixas divididas por quatro atos, numa jornada com uma hora de duração, abundam as referências de auto-empoderamento feminino através de referências religiosas. “No soy una santa pero estoy blessed”, canta em Reliquia. “I was made to divinize”, ouvimos em Divinize. “Soy la Lux del mundo”, escuta-se em Porcelana.

"Memória" é o tema em que se junta a Carminho, uma colaboração já anunciada que mete Rosalía enamorada com a língua do fado. “Ainda te lembras de mim no meu olhar triste? Meu doce coração, ainda te lembras de mim?”, entoa a artista catalã num registo fadista, sobre as cordas de uma guitarra. “Vem comigo pela cidade, diz-me com sinceridade se ainda te lembras de mim”, responde Carminho.

“Cruz en mi pecho, calibra mi cuerpo” é um dos versos de De Madrugá, entre outras alusões a anjos, ao pecado e ao perdão, ao Céu e ao Inferno, à mitologia cristã, entregando-se ao sagrado (que também é profano) como forma de resistência. “Ponho-me gira para Deus, não para ti nem para ninguém”, ouvimos em Novia Robot. Na derradeira faixa do disco, Magnolias, a jornada da artista culmina nesse encontro divino. “Deus descendo e eu a ascender, encontramo-nos no meio. Converto-me em pó”, canta Rosalía.

Se há temas mais sofridos que roçam a autocomiseração e a busca por uma salvação, também há outros em que Rosalía vai à luta e atira farpas. O melhor exemplo disso é La Perla, um tema que até parece brando ao começar com umas notas suaves e animadas de guitarra, mas que rapidamente se revela como um cavalo de Tróia quando Rosalía parte para o ataque, entregando uma “medalha olímpica para o mais cabrão”, nomeando-o de “terrorista emocional” ou caracterizando-o como um “monumento à desonestidade”. “A tua masterpiece é uma coleção de sutiãs, nunca entenderás a fidelidade”, canta a artista numa das canções mais acutilantes (e divertidas) do disco, purgando as suas dores através desta poesia de escárnio e maldizer.

[o vídeo de “Berghain”:]

Em Dios Es un Stalker, assume a sua personalidade obsessiva, afirmando-se como uma “sniper” e uma “francoatiradora” no campo de tiro da paixão. “A mi baby voy stalkear (…) Vou sequestrar esse coração, persegui-lo sem piedade”. Já em Sauvignon Blanc, numa fase mais avançada do alinhamento e mais segura da vitalidade e importância do amor, despe-se de todas as coisas materialistas — os acessórios e roupas de marcas de luxo, os carros de alta cilindrada — para se focar no mais relevante. “O teu amor será o meu capital (…) Estou bem se tu aqui estiveres”. Em La Rumbla del Perdón, parece contar uma fábula sobre falta de gratidão e de consideração ao falar de alguém que foi comprar tabaco para não mais voltar, alguém que foi protegido quando se encontraram substâncias proibidas no seu cajón.

Lux tem outra particularidade. Rosalía decidiu cantar versos em 13 línguas — ouvimos o castelhano e o catalão, mas também frases em inglês, alemão, ucraniano, francês, italiano, siciliano, latim, chinês, árabe, hebraico e português.

“É muito sobre tentar perceber como é que as outras línguas funcionam”, disse Rosalía ao Popcast, o podcast musical do jornal norte-americano The New York Times. “Foi muito pela intuição e ir percebendo: vou apenas escrever e ver como é que isto soa noutra língua.” A artista terá feito as primeiras traduções (e experimentações) no Google Translate, antes de trabalhar com uma equipa de tradutores profissionais e professores que a ensinaram como pronunciar cada som, sem quaisquer interferências de ferramentas de inteligência artificial. “É tudo humano.”

▲ A capa de "Lux", o novo álbum de Rosalía

Memória é o tema em que se junta a Carminho, uma colaboração já anunciada que mete Rosalía enamorada com a língua do fado. “Ainda te lembras de mim no meu olhar triste? Meu doce coração, ainda te lembras de mim?”, entoa a artista catalã num registo fadista, sobre as cordas de uma guitarra. “Vem comigo pela cidade, diz-me com sinceridade se ainda te lembras de mim”, responde Carminho.

A coragem artística de Rosalía num disco orquestral que dá protagonismo à voz

Se há quem tenha pensado que, em Motomami, Rosalía se tenha encostado à sombra alheia da árvore do reggaeton — repleta de frutos fáceis de colher, um género no seu auge pop comercial — aqui não haverá qualquer espaço para raciocínios dessa ordem. Rosalía cumpre o mais importante que se pode pedir a um artista pop de dimensão mundial — Lux é um disco arrojado, vanguardista, profundamente autoral e cheio de experimentações. É um álbum que está no oposto do espetro do conformismo — é arriscado, aponta em direções novas e não se contenta com quaisquer fórmulas ou formatos padronizados da indústria.

O single Berghain, com toda a sua singularidade, já espelhava isto — ainda que muitos dos temas não tenham a mesma espetacularidade, o registo inovador e exploratório de quem está a desbravar caminho mantém-se presente ao longo de todo o alinhamento. Rosalía não está a olhar para o lado nem excessivamente para o passado — continua a trilhar um caminho muito próprio, fiel à sua visão criativa, que a tornou numa das artistas mais influentes do planeta na última década. Esse estatuto só sairá reforçado depois de o mundo ouvir Lux.

“Não olho assim tanto para o que está à minha volta, penso mais no que é que eu não estou a fazer. O que é que ainda não fiz? O que é que preciso de fazer? Penso que os meus artistas favoritos são aqueles que não te dão aquilo que queres, mas o que tu precisas”, disse na mesma entrevista ao Popcast.

"Lux" afirma-se mais desafiante, mais destemido, mais arrojado. Volta a confirmar a artista espanhola como uma das maiores forças criativas (e culturais) do século XXI. Mais do que isso, consolida a sua visão ousada e afirma a sua coragem para romper com fórmulas e convenções no topo da indústria.

Este é um álbum mais minimalista e vertical, sobretudo quando comparado com o explosivo e preenchido Motomami. “Tudo está em constante movimento. Eu estou sempre em constante mudança. Então porque é que o meu som não haveria de mudar comigo?”, questiona. “O disco é sobretudo inspirado pela mística feminina.”

Na grande maioria das canções, é a voz que tem o protagonismo — nas letras inteligentes, poéticas e provocadoras de Rosalía, mas também na maneira como manipula as suas cordas vocais como um instrumento. Ouvimos refrões com coros, efeitos que processam a sua voz para diferentes resultados estéticos, temas em que o registo é de balada e outros em que explora o total alcance da sua poderosa voz. Mio Cristo, La Rumbla del Perdón e Mundo Nuevo talvez sejam os momentos em que mais se aproxima do flamenco que serviu de base ao seu projeto.

A presença da orquestra que ouvimos em Berghain — a London Symphony Orchestra, conduzida pelo maestro islandês Daníel Bjarnason, onde sobressaem as cordas — também se faz ouvir noutras canções, muitas vezes elevando o caráter dramático e épico de certos segmentos musicais. Por outro lado, a produção eletrónica também ocupa, complementarmente, uma série de espaços para acrescentar camadas sonoras. Rosalía trabalhou arranjos com Caroline Shaw, vencedora de um Prémio Pulitzer e antiga colaboradora de Kanye West; e co-produziu o disco com Noah Goldstein (também um ex-colaborador de West) e Dylan Wiggins (que tem créditos em trabalhos de SZA e Justin Bieber), dois músicos com quem já tinha trabalhado em Motomami.

GettyImages-1548883821

▲ Na grande maioria das canções, é a voz que tem o protagonismo — nas letras inteligentes, poéticas e provocadoras de Rosalía, mas também na maneira como manipula as cordas vocais como um instrumento

AFP via Getty Images

São vários os temas que começam de maneira cristalina, com ambiências angelicais ou etéreas, e que acabam por desaguar numa estética mais obscura — a dualidade entre sombra e luz, entre as angústias do coração e a salvação espiritual.

Embora o tom seja mais contemplativo e lento, também há canções mais agitadas e aceleradas que pedem pista de dança e o balanço dos corpos. É o caso de Porcelana; de De Madrugá (mais intensa, com os coros e as palmas do flamenco), de La Rumbla del Perdón (mais tradicional) e de Novia Robot — ou mesmo de canções mornas como Focu ‘Ranni (com uma eclosão glitchy e aparentemente de inspiração nipónica no refrão, com versos mais acelerados no fim) ou Dios Es un Stalker (com um refrão cativante).

Não sendo o álbum mais acessível de Rosalía nem tendo o chamariz pop dos singles orelhudos e radiofónicos de outros discos, Lux afirma-se de outra forma, mais desafiante, mais destemido, mais arrojado. Volta a confirmar a artista espanhola como uma das maiores forças criativas (e culturais) do nosso tempo. Mais do que isso, consolida a sua visão ousada e afirma a sua coragem para romper com fórmulas e convenções no topo da indústria. Como quem tem a certeza de que nem tudo foi inventado.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.