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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Venâncio Mondlane: "Se me prenderem, fazem-me um favor a mim e à revolução"

Corre risco de vida, está em "ponto de não retorno", sem direito a medos na "revolução que não morreu". Mondlane esteve com a direita em Lisboa, com todos em Berlim. Mas "pai" Marcelo ignorou-o.

Quando, neste domingo, Venâncio Mondlane aterrar em Maputo, depois de duas semanas na Europa, vai olhar bem em volta. Tem a informação, não confirmada, de que há um mandado de captura em seu nome. Pode ser detido no aeroporto. Razão? Não sabe. Está sob termo de identidade e residência — é alvo de muitos processos judiciais, cíveis e criminais, por incitação à desobediência, denúncia caluniosa, indemnização por danos causados ao Estado, ou ofensa ao Presidente, por exemplo. Mas o principal opositor ao regime moçambicano cumpriu todos os requisitos legais para sair de Moçambique e fazer um “périplo pela Europa” em busca de apoios para o seu movimento político e divulgação “dos atentados e violação dos direitos humanos” no seu país.

Regressa tranquilo à capital moçambicana, assegura em entrevista ao Observador, dois dias antes de apanhar o avião. Se for detido, o governo moçambicano e a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o partido que está há 50 anos no poder, estarão a ajudar o seu movimento, garante. “Volto, se é para ser preso não é problema nenhum. Até é um grande favor. A coisa mais difícil, mais trabalhosa e extenuante, é acordar todos os dias e pensar qual é a estratégia, o que fazer, como responder? A partir do momento em que me prenderem, esse trabalho será facilitado, será uma espécie de bypass, há muitas etapas que vamos ultrapassar estando detidos, vai ser um grande favor, para mim e para a revolução”. E mais não diz.

Na bagagem, leva o conforto de apoios recebidos à direita (em Portugal e na Alemanha) e à esquerda (apenas em Berlim), ele que não se diz nem de direita nem de esquerda, apostado que está em reconfigurar as ideologias do futuro, sem o peso das “crispações europeias”. E na sua mala de mão carrega um vazio: a não resposta de Marcelo Rebelo de Sousa.

O caminho da revolução moçambicana faz-se agora nos meandros jurídicos — não nas ruas — e nos apertos de mão com o seu adversário-mor, o Presidente do país e líder da Frelimo. Mesmo que Daniel Chapo dê sinais contraditórios. Mesmo que os jovens façam pressão para voltarem aos protestos, num Turbo V25. Agora é o tempo institucional. Mesmo que o sistema coloque entraves à constituição do seu partido. Mesmo que o convite para o Conselho de Estado ainda não o tenha sentado nesse órgão. Se o percurso legal falhar, outras alternativas haverá. Quais? Venâncio Mondlane não detalha.

Pelo percurso escolhido, já perdeu o nome Anamalala para o partido. Não se importa de ceder, isso é atitude nobre, enaltecida pela Bíblia, sublinha.

Para já vê vantagens nas declarações em que Daniel Chapo nega um acordo entre os dois e tão depressa diz que ele está a aspirar ao lugar de Luis XIV como salienta que o Presidente está a agir como se fosse “um assessor predileto” do próprio projeto político de Venâncio Mondlane, “Tudo o que está a fazer é a seu desfavor, é uma estratégia desastrosa sob o ponto de vista político e social”.

O rosto da contestação pós-eleitoral que sacudiu Moçambique durante três meses em 2024, em que 400 ou 600 pessoas morreram (número varia consoante as fontes das organizações não governamentais), muitas mais ficaram feridas e pelo menos duas mil continuam detidas (também aqui os dados variam, Mondlane fala em 4 ou 5 mil) começou a sua visita europeia em Lisboa, onde lançou uma marca de roupa, VM7 (o nome por que é conhecido no seu país).

Impecável num fato azul bordado e cabelo marcante, com uma pulseira nova — já não o Jesus is my partner de janeiro, mas o Not my, God’s own — o ex-candidato presidencial às eleições de 9 de outubro responde sempre às perguntas do Observador sem se exaltar, mesmo quando não gosta de uma pergunta sobre o seu encontro com o Chega, na entrevista que pode ver e ouvir aqui na íntegra.

Em Portugal encontrou-se com vários partidos, Iniciativa Liberal, PSD, CDS e Chega. Porque é que se reuniu com André Ventura que, no quadro da discussão dos pedidos de desculpa, ou devolução de bens às ex-colónias, disse que se esta existisse, então também se deveria exigir a devolução dos investimentos feitos por Portugal em infraestruturas como estradas, hospitais e escolas, esquecendo que isso foi feito com trabalho forçado de moçambicanos?
Os portugueses da atualidade não são culpados de forma nenhuma pelos pecados dos seus antepassados, e isto tem de ser válido para ambas as geografias. Este debate não é prioritário para os eixos da política externa de Moçambique com Portugal.

Encontrou-se com um partido que ignora que estas infraestruturas foram feitas por moçambicanos.
A forma como é abordada a questão do Chega, em que já por si se parte do princípio de que [o partido] tem uma visão ditatorial, pouco tolerante, parece-me muito preconceituosa. A abordagem ideológica, que é um assunto sério em Portugal, não é a minha prioridade. Eu visitei desde a extrema esquerda à extrema direita. Não me é questionado porque é que, na  Alemanha, tive um encontro cordial e proveitoso com o Die Linke [partido de esquerda] e com a Fundação Rosa de Luxemburgo, que é o repositório dos valores do comunismo de que hoje ninguém quer falar. Colocar uma questão sobre o Chega e a partir daí perguntar-me por que razão falei com o Chega, e não quero ofender ninguém, não é uma pergunta objetiva, imparcial e profissional. É sempre resultado de algum preconceito.

Estou aqui na Europa como africano, peço também que não me imponham as crispações ideológicas da Europa, dêem-me a oportunidade de fazer um novo debate hoje, que são as ideologias do futuro.

Neste caso não é uma questão de preconceito. O Chega tem tomado posições em relação à história portuguesa em Moçambique que omite alguns aspectos relevantes para os próximos moçambicanos.
Neste momento, e esta é a visão que eu tenho da política externa moçambicana, há aspectos na esquerda com os quais me identifico, como por exemplo, o direito das minorias, o direito das mulheres, o direito dos desfavorecidos. Em relação ao Ventura, por exemplo, [identifico-me com] o resgate dos valores patrióticos, os valores da família e até, em certa medida, a partilha dos valores da nossa crença de fé. Quando vamos lidando com os vários partidos e as várias matizes vamos buscar a cada uma delas o que é que constitui uma interseção dos valores que nós temos. Não fui ao Chega para ir buscar do Chega aquilo que divide Moçambique de Portugal, mas aquilo que pode unir Moçambique e Portugal e aquilo que pode reforçar a imagem dos moçambicanos. Moçambique precisa do resgate do sentimento pátrio, do sentimento de identidade. Pensando no futuro, há um problema com as questões das ideologias. Estou aqui na Europa como africano, peço também que não me imponham as crispações ideológicas da Europa, dêem-me a oportunidade de fazer um novo debate hoje, [sobre] as ideologias do futuro. As que temos são do século passado, quero uma oportunidade para fazermos uma reconfiguração das ideologias do futuro. E vamos acabar por ver que há pontos de divergência absoluta entre as correntes atuais que nas do futuro são muito mais convergentes do que pensávamos.

Em Portugal reuniu-se apenas com o quadrante da direita e não da esquerda. Não se quis encontrar com esses partidos ou foram eles que não quiseram estar consigo?
Enviámos ofícios para todos os partidos. Alguns tiveram problemas de agenda, como o CDS, que teve a amabilidade de acusar a receção. Infelizmente a esquerda nem sequer teve a amabilidade de acusar a receção das nossas cartas. Este problema já não é do Venâncio. O Presidente da República também recebeu um ofício e até este momento ainda não obtive resposta. É uma questão preocupante.

Sim, esteve com os partidos, mas não com o governo, nem com a Presidência da República. A sua zanga com o Ministro dos Negócios Estrangeiros português mantém-se?
Não, de forma nenhuma. O ministro dos Negócios Estrangeiros estava em Bruxelas, e muito provavelmente para a semana vou ter um encontro virtual com ele. E a forma como o chefe do gabinete [de Paulo Rangel] comunicou comigo, com amabilidade e respeito mútuo, parece que também ele já não tem nenhuma espécie de ressentimento relativamente à situação que tivemos no ano passado. Portanto, isto está ultrapassado. Mas ainda em relação à Alemanha. Estive com um partido que tem uma componente de fé cristã, que é a CDU, partido centro-direita, mas também estive com o Partido Social Democrata, que é centro-esquerda, e com o Partido Liberal, que é o centro. Portanto, estive na Alemanha na esquerda, no centro e na direita. É esta a nossa visão em termos de cooperação internacional. E queríamos também que, em termos de política externa, Moçambique também tivesse esta nova perspectiva das relações com os outros partidos e os outros países.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A onda imbecil que diaboliza partidos e correntes de direita

Tem sido muito colado a líderes populistas e de extrema-direita, não apenas como André Ventura, mas como Jair Bolsonaro e Donald Trump, mas já vi que não se coloca nessa posição.
Não. Isso é o que convém dizer agora. Há um livro de um dos maiores intelectuais do século XXI do Brasil, Olavo de Carvalho [autor conservador e anti-comunista, considerdo guru intelectual de Jair Bolsonaro], que se chama O Imbecil Coletivo, [onde mostra como] existem em cada época histórica algumas questões em que as pessoas raramente utilizam o intelecto ao abordá-las. As pessoas vão um pouco na onda. Existe uma onda hoje que coloca os partidos das correntes da direita quase que diabolizados. As pessoas normalmente já não olham para o conteúdo, para a profundidade das coisas e têm a tendência de rotular, de cristalizar. Na verdade, a maior parte dos partidos com quem falei são do centro-esquerda e centro-direita e não da extrema, mas convém que as pessoas automaticamente me associem a um partido da extrema-direita, porque é um momento conveniente para facilmente diabolizar as pessoas, para menosprezá-las e para desprestigiá-las.

Prometo não navegar nessa onda, mas tenho de lhe fazer esta pergunta. Quando Donald Trump foi reeleito, fez um vídeo muito elogioso a dar-lhe os parabéns. Revê-se na política externa do Presidente dos Estados Unidos neste momento, nomeadamente no corte à ajuda humanitária a muitos países, incluindo Moçambique, que na luta contra a SIDA, por exemplo, depende em muito do apoio desses dólares?
Não posso dizer que esteja de acordo de forma absoluta. Isso seria um erro até cognitivo muito forte. Na essência, concordo, mas não como se operacionalizou, causando danos, quando há formas que podiam provocar menos prejuízos. Mas concordo com a filosofia. Por exemplo, cerca de 5 milhões de dólares (quase 4,3 milhões de euros) da USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] destinados às pessoas pobres em Moçambique eram desviados para um programa de conservação que visava simplesmente atrair turistas milionários do mundo. Isso não pode acontecer. Nesse aspecto, concordo com o Trump. Uma parte do valor da USAID para ajudar as pessoas desfavorecidas estava a ser desviado para alimentar esquemas corruptos. Mas usou-se alguns métodos que não protegeram os necessitados: era preciso cortar a parte corrupta e salvaguardar a parte que realmente era direcionada para as pessoas desfavorecidas. O erro foi fazer um corte radical e integral atropelando também aqueles que realmente necessitam, com que não concordo.

E também há outro aspecto, pedagógico, para África: é uma oportunidade muito grande para pararmos um pouco esta mentalidade conformada e conformista de que sempre haverá um Pai Natal para resolver os problemas prioritários; começarmos a pensar um bocadinho nas alternativas e nos superarmos. Temos problemas de dinheiro, temos problemas de investimento, mas é importante começarmos agora a sair um bocadinho dessa zona de conforto e vermos o que nós podemos fazer com os recursos que nós temos, que não são poucos. (Moçambique, por exemplo é um dos poucos países que consegue ter nove dos 15 minerais raros do mundo). É nisto que precisamos começar a pensar agora. Não criticar o Trump porque cortou a USAID, mas olharmos para nós mesmos e dizer porque é que nós não pegamos na riqueza imensa e infinita que Moçambique tem e resolvermos estes problemas que temos e muito mais. Este é que tem de ser o maior desafio.

Conhecendo a situação em que Moçambique se encontra, Marcelo devia ter tido uma posição mais de equilíbrio, uma posição mais de moderação, mais de um pai, pela idade que ele tem e pelas relações telúricas que tem com Moçambique.

Veio à Europa à procura de apoios para o seu movimento.
Estou aqui na Europa [para estabelecer pontos de contacto]. Por exemplo, para falar em Ventura, uma das coisas muito positivas no nosso encontro, é a abertura de ambas as partes para ouvir e arranjar uma plataforma de entendimento naquilo em que somos divergentes. E se for a ver a página do Ventura, vai ver uma frase muito interessante. Estávamos a falar da questão da nacionalidade e coloquei as minhas dúvidas. Ele disse “Olha, Venâncio, aqui em Portugal o problema nunca foi com os moçambicanos”. Eu disse: “Estamos aqui num espaço privado, tu podes assumir isso publicamente?”. Ele respondeu disse que sim e a página dele [no X] fala de Moçambique.

Tranquiliza-o que o problema não seja com os moçambicanos mas possa ser com os caboverdeanos, com os guineenses, etc.?
É um ponto de partida, naturalmente que depois disto, nas próximas etapas vamos esclarecer já o aspecto mais global. Mas como ponto de partida achei interessante porque havia a ideia de que [Ventura] é um homem intransigente, intransponível, que não verga, um bicho-papão, um monstro. Não foi isso que eu vi.

Esta sua visita à Europa acabou por resumir-se a Portugal e a Alemanha?
Nesta primeira fase, sim. Tínhamos desejo de ir a mais alguns países, mas temos duas limitações. A logística-financeira e o condicionalismo da ordem judiciária, porque eu agora estou sob o termo de identidade de residência.

E qual é o balanço que faz destes dias em que esteve fora do país?
Balanço positivo.

Em termos concretos?
Por exemplo, nós na Alemanha, conseguimos firmar com as fundações Konrad Adenaur, Friedrich Ebert e Rosa Luxemburgo acordos de formação política e outras áreas dos nossos coordenadores. O outro aspecto positivo foi estabelecer canais para que passassem também a ser uma voz, um amplificador, um altifalante daquilo que são as preocupações e o diagnóstico da situação de direitos humanos em Moçambique. Levámos o quarto relatório produzido pelo meu projeto político e todos ficaram escandalizados com a gravidade das atrocidades que estão a ser cometidas em Moçambique. Portanto, dar voz a Moçambique num espaço europeu a partir da Alemanha. E dois dos partidos, o CDU e o Partido Social Democrata, também assumiram que farão mesmo a ponte para o Parlamento Europeu. É uma grande vitória.

Só para dar um exemplo, uma das questões em que nós fomos bastante privilegiados, com uma generosidade incrível: atrasámo-nos a fazer a carta para o Bundestag, o Parlamento alemão. Fizemos dois dias antes.

Tal como para a presidência da República Portuguesa, que também foi dois dias antes.
Sim. Quando chegámos, o vice-presidente do Bundestag estava a moderar um debate sobre orçamento e interrompeu o debate sobre uma questão clavicular para o país, para nos receber na sala mais mítica do Parlamento, onde ocorreu o primeiro encontro para o cessar-fogo durante a Guerra Fria.

Melhor recebido na Alemanha do que em Portugal?
Em Portugal também fui muito bem recebido pelos partidos, muito mais abertura, muito mais tempo disponível. Infelizmente, o chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, até este momento não respondeu à nossa carta, não percebo porquê. É uma questão preocupante. Estive com ele na pré-campanha e dessa vez fiquei muito satisfeito. Disse-me que preferia receber-me no restaurante em que ele mais gostava de estar para almoçar e não com honras formais. Foi realmente alguma coisa que me honrou. Mas desta vez fiquei muito admirado, porque ele não só recebeu o Presidente Daniel Chapo, mas também fez pronunciamentos muito encomiásticos sobre ele. Conhecendo a situação em que Moçambique se encontra, devia ter tido uma posição mais de equilíbrio, uma posição mais de moderação, mais de um pai, pela idade que ele tem e pelas relações telúricas que tem com Moçambique [Marcelo tem ligações afetivas à ex-colónia, a que já chamou de “segunda-pátria” pois o pai foi governador-geral entre 1968 e 1970]. Devia ter mostrado uma posição de mais equilíbrio, mais integradora.

Mais pai, mas não paternalista, certo?
Sim, digo pai no sentido biológico, familiar, ou pelo menos no sentido etário, não no sentido político paternalista.

A sua presença em Portugal coincidiu com a presença do Presidente Daniel Chapo.
E foi mesmo uma coincidência. Quando cheguei a Portugal, vi vários comentários feitos em Moçambique, dos que nós chamamos das “milícias digitais”, os influencers que costumam fazer textos a favor sempre do regime, a dizerem que eu tinha agido de má fé, que vim de forma propositada para fazer sombra ao Presidente. Eu próprio não sabia que ele vinha para aqui, nós já tínhamos esta visita preparada há dois meses. Foi mera coincidência.

“Revolução está num estágio de latência, um estágio de reconfiguração”

Depois da violência pós-eleitoral, com tantas vítimas, a revolução moçambicana morreu?
Não, não morreu. Se olharmos para a história das revoluções, é difícil encontrar duas revoluções com a mesma natureza, os mesmos valores e, sobretudo, o mesmo período de planificação e consumação. Varia. Há revoluções que duraram 24 horas, há revoluções que duraram um ano, há revoluções que duraram 15 anos. Portanto, significa que nós, em Moçambique, estamos a falar de três meses e, neste momento, penso que não há elementos bastantes para dizer que ela chegou ao fim. Provavelmente está num estágio de latência, um estágio de reconfiguração. Não sabemos. Não vou detalhar muito isto, senão vão dizer que estou a instigar agora o seu reatamento, mas acredito que não.

[Não morreu,] por uma razão muito simples. Ela não pode morrer enquanto os motivos que estiveram na sua génese não estiverem devidamente respondidos. As pessoas protestaram porque sentem que existe em Moçambique défice de respeito pelos direitos humanos, uma democracia ainda muito doente e debilitada, problemas sérios de desenvolvimento humano. E estas questões ainda não tiveram resposta. Enquanto não a tiverem, a questão da revolução continua latente. Ela continua potencialmente viva. Portanto, não morreu, não.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando chegou a Portugal, disse que vinha num novo ciclo, o da política pura. Mas nesta sua nova estratégia não estará a ser encurralado de alguma forma? Fez um acordo em duas partes com Daniel Chapo. Venâncio Mondlane parou as manifestações. Deixou de haver protestos nas ruas. Mas, por outro lado, o Presidente diz que não fez nenhum acordo embora se pareça contradizer pois diz que consensualizaram questões de segurança. Isto não o pode colocar numa situação muito difícil porque os seus apoiantes veem que está a fazer acordos com alguém que não os cumpre e já estão a pedir um Turbo V25 [os protestos de 2024 tiveram várias fases com nomes dados por Venâncio, 4×4, Turbo V8, sendo que esta significava maior intensidade na contestação] ?
É verdade, fiquei dececionado com os pronunciamentos de Daniel Chapo, mas, por outro lado, acho que foi positivo no sentido político. Separa muito bem as águas, ficou muito claro, em termos de vontade política das duas partes, quem é que realmente está agindo de boa fé e quem é que realmente está se empenhando em favor da paz, da reconciliação e do perdão, que é o que todo mundo quer.

Isso também pode ter outra leitura, que é a de quem está a ceder.
Não há dúvidas nenhumas de que eu cedi. Não existe nenhum conflito no mundo que não termine numa mesa de negociações. E partindo desse princípio, que é um princípio universal, reconhecido por todos, ceder para esse aspecto é de louvar, acarinhar e exaltar. Agora, a nossa contraparte está a dizer que, pura e simplesmente, [em relação a] todas as situações que ainda não foram resolvidas, como, por exemplo, as perseguições, que estão ainda a ocorrer — mas de forma pontual, não tão intensas como antes —, os raptos, os sequestros dos opositores, ele não só está de acordo como é o que mais as promove.

Tínhamos chegado a um consenso relativamente às pessoas feridas para que pudessem ter acesso gratuito aos serviços de assistência médica e medicamentosa no Sistema Nacional de Saúde: quando ele diz que não há nada a cumprir, está a dizer que estas pessoas vão continuar entregues à sua própria sorte sem nenhuma assistência médica. Quando ele diz isto [que não houve acordo], está a dizer que as cerca de 400 famílias ou 600 famílias que tiveram os seus parentes assassinados não vão ter nenhum tipo de compensação da parte do Estado. Está a dizer que a situação de cerca de 4 mil a 5 mil pessoas que estão detidas há mais de 7 meses ilegalmente, sem a sua prisão legalizada ou formalizada, vai continuar. Então, isso para mim é positivo porque fica claro e as águas são divididas.

Mas não sente que foi enganado?
Não, não, de forma nenhuma. Sobre o primeiro encontro houve realmente muitas opiniões divididas, havia muita gente, muitos seguidores meus, de facto, a criticar-me. No segundo encontro, essa tendência baixou um pouco, as pessoas começaram a compreender um bocadinho a estratégia e as nossas intenções. Com os últimos pronunciamentos do Daniel Chapo, em definitivo, todos os seguidores que nós tínhamos perdido foram resgatados, incluindo membros do partido Frelimo e pessoas que não concordavam connosco antes. Agora, em definitivo, estão connosco e concordam connosco.

Daniel Chapo fez-lhe um favor?
Claramente que fez e os eventos que antecederam estes pronunciamentos também nos foram politicamente favoráveis. Por exemplo, o cancelamento da sessão do Conselho de Estado e dois dias depois eu ser notificado para ir para uma sessão de interrogatório na Procuradoria [Geral da República], tudo isto são tiros no próprio pé.
Do ponto de vista da estratégia, perdeu a pouca legitimidade que havia ganhado num aperto de mão a 23 de março e outro a 20 de maio. Regrediu ao período de antes do primeiro aperto de mão, em que ele não tinha legitimidade, nem sequer tinha coragem de ir à rua e festejar a tal pretensa vitória [eleitoral]. A pouca base social de apoio que tinham [Frelimo] eles já perderam em absoluto. Mesmo no plano internacional, havia ainda alguns países, alguma diplomacia que estava dividida. Agora todos estão a ver de facto quem é que quer a paz em Moçambique e quem é que quer a guerra em Moçambique.

“É como se Chapo estivesse a ser um assessor predileto do nosso próprio projeto político”

Num discurso no fim de semana passado na  OJM (Organização da Juventude de Moçambique) Daniel Chapo disse que as manifestações foram ilegais, criminosas e violentas, um tom muito diferente do tal discurso de pacificação que os dois terão acordado.
Primeiro ele diz que manifestações foram ilegais, e as manifestações estão previstas na Constituição da República, como um direito fundamental, não é acessório. O ministro da Justiça vincou recentemente que são legítimas e são um direito fundamental. Quando diz que são ilegais ou criminosas, está a usurpar até competências dos órgãos judiciais, são eles que dizem se são ilegais ou não, é uma tentativa de se colocar como o Luis XIV. Tudo o que está a fazer é a seu desfavor, é uma estratégia desastrosa sob o ponto de vista político e social. Ficámos tristes com os pronunciamentos mas politicamente é como se ele estivesse a ser um assessor predileto do nosso próprio projeto político.

E vai continuar a dialogar com uma pessoa que disse ser “desonesto intelectualmente” ou ter atitudes de “bipolaridade”?
Sim, mostrámos a nossa disponibilidade absoluta para o diálogo. Ainda esta semana manifestámos o interesse em que elementos do nosso projeto integrassem a comissão técnica  que está a preparar o documento das reformas para Moçambique. No último encontro partilhámos números de telefone, mandei-lhe duas mensagens [não respondidas] de situações que poderíamos ultrapassar, mas nada.

Quais?
A questão do [registo do meu] partido. Quando recebemos o primeiro ofício do Ministério da Justiça (MJ) que dizia haver irregularidades sem fundamentação aceitável, eu enviei-lhe o documento, porque o MJ é uma área que está sob a alçada direta do Presidente da República. Como jurista, podia verificar que não havia fundamentação legal e tinha motivação política e que deveria entrar em contacto com o ministro para perceber porque é que ele estava a ter aquela atitude, pois a questão do partido fez parte da agenda do encontro de 20 de maio. [Aí] foi acordado que havia condições para ser criado e se devia fazer tudo ao dispor do executivo para viabilizar o registo do partido.

Ceder, tolerar, perdoar não é derrota, pelo contrário, é superioridade espiritual.

Com estas dificuldades, como é que vai criar o seu próprio partido?
Não temos outra forma se não seguir os padrões legalmente estabelecidos.

Já recorreu para o Conselho Constitucional (CC), o equivalente ao Tribunal Constitucional português, porque receou que tivesse havido um indeferimento tácito depois de o MJ não responder no prazo previsto. Mas o CC lavou dali um pouco as mãos, e diz que o prazo ainda está a decorrer, o que vai fazer?
Por outras palavras, o CC enviou uma mensagem para o MJ tomar uma decisão e temos de ver qual é a que vai tomar. Vamos esperar.

Não interessa o nome, pode ser tomate, cebola, alho ou pepino, o que importa é que a gente quer um partido, o resto a gente vai fazer.

Pelo caminho já tem aqui uma mini derrota, desistiu do nome Anamalala, expressão que lhe é tão querida.
Não é uma mini-derrota. Como uma pessoa cristã, não posso dizer que seja uma derrota. A nossa ética é muito guiada pelo que está na Bíblia. E na Bíblia, ceder, tolerar, perdoar, não é derrota, pelo contrário, é superioridade espiritual. Apesar de não concordarmos com os itens apontados como irregularidades pelo ministro, satisfizemos isso porque o objetivo final e nobre era ter a constituição do partido. Fomos superiores, não considero isso uma derrota.

Mudaram o nome Anamalala (que significa basta, chega, acabou, na língua macua, falada na zona de Nampula, norte de Moçambique) para?
Vai ser conhecido brevemente.

Também será uma palavra num língua local?
Não. É só um acrónimo. O mais importante é que os comentários nas redes sociais diziam “não interessa o nome”, “pode ser tomate, cebola, alho ou pepino”, “o que importa é que a gente quer um partido, o resto a gente vai fazer”. Perceberam que a questão central não era o nome em si, mas a convergência num determinado projeto. Eles [governo] apercebendo-se de que mudar o nome não impedia esta tempestade, este vento, tiveram então muitos problemas em nos dar uma resposta dentro do prazo legal.

Acredita mesmo que vai conseguir legalizar o seu partido? Há quem diga que o regime nunca o irá deixar constituir um partido político. Que quem acreditar que vai ser possível é ingénuo.
Não é ingenuidade nenhuma. O que é importante é que se tem de esgotar as possibilidades legais, só depois tens legitimidade para procurar formas alternativas de conseguires o teu intento.

“A belíssima forma de governar”  e a oportunidade para “salvar a honra do convento”

Está a fazer um caminho jurídico e quando ele estiver esgotado há outras alternativas? De novo as ruas? Coloca a possibilidade de esgotado o percurso legal repetir o que se passou no ano passado?
A estratégia é sempre definida em função das circunstâncias que nós encontramos. As circunstâncias atuais levaram-nos a fazer a luta com base jurídica. Se se esgotar, teremos de redefinir, mas neste momento ainda estamos neste caminho.

Tem um plano B?
Claro que sim. Mas não o vou dizer.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A sua presença no Conselho de Estado (CE). Parece haver aí uma contradição. Não aceita os resultados eleitorais, não foi para o Parlamento, os seus apoiantes não são deputados, criticou o Podemos [partido pelo qual Venâncio Mondlane concorreu às eleições presidenciais] por aceitar lugares no Parlamento. Mas aceita o resultado eleitoral para entrar no Conselho de Estado [segundo votado tem direito a fazer parte do órgão].
Ir para fazer do mesmo nunca o faria, ir ocupar um lugar só porque está disponível, nunca o faria. Só aceito porque acredito que vou lá para acrescentar valor.

Mas isso vale agora como valia dantes, quando decidiu não ir. Alguma coisa mudou.
Para não tomar uma decisão unilateral, que até podia ser associada a uma espécie de cedência à atração de regalias, peguei no convite [para pertencer ao CE], meti na minha página do Facebook e lancei um inquérito: “Pronuncie-se povo sobre este convite”. E recebemos 10. 650 comentários, 87% disseram “vá para o CE”. Temos uma base objetiva, tangível e verificável sobre o que as pessoas pensam. Associando os dois aspectos, o que as pessoas que acreditam em mim pensam e a meu objetivo de acrescentar valor, ponderei e decidi participar. E já dei o primeiro pontapé de saída. Submeti um projeto de revisão da lei do CC para que seja ativo e social e politicamente útil. Este é um exemplo do que eu me propus fazer como conselheiro de Estado.

Fazer “sondagens” aos seus apoiantes prenuncia um modo de governar se chegar ao poder? Vai governar perguntando aos seus apoiantes o que fazer? Uma sucessão de referendos?
Nas questões essenciais acho que sim. Em Moçambique a lei dos referendos está prevista na Constituição, mas não a temos. Mas penso que é uma belíssima forma de governar. É preciso definir em que questões, senão não fazes nada, passas a vida a fazer perguntas. Nas questões estruturantes, fulcrais, é importante saber qual é a opinião do povo, isso é importantíssimo.

O meu compromisso com a justiça, com o povo, não me permite nesta altura estar muito preocupado com os meus medos, o medo de ser detido, o medo de ficar preso, o medo de ser julgado, esses medos tornaram-se irrelevantes.

A reunião do CE não se realizou e foi chamado à Procuradoria Geral da República. Como membro do CE todos aqueles processos [cíveis e criminais por incitação à desobediência, denúncia caluniosa, indemnização por danos causados ao Estado, ofensa ao Presidente, por exemplo] que impendem sobre si, que são muitos…
Já perdi a conta.

… caíriam?
Não, teria um fórum especial, instruídos a partir do Tribunal Supremo. Imunidade é no sentido de não ser tratado por um tribunal comum.

Então não teria imunidade…
Não, o meu o primeiro objetivo quando regressei ao país depois de três meses no exílio, era enfrentar a justiça, pois havia uma corrente que dizia que eu estava fugitivo da justiça. Não estou preocupado se caem ou não. Estou à disposição dessa justiça porque acredito que não cometi nenhum crime, tenho de ter oportunidade de isso ficar esclarecido perante a própria justiça.

E acredita nas instituições da justiça em Moçambique? Não receia vir a ser  julgado, condenado e preso?
Não. Para que as instituições de justiça sejam provadas sérias ou más têm que ter um caso dos grandes para decidir, então eu coloco-me à disposição para fazer essa prova dos nove do sistema de justiça. Em Moçambique existem juízes e procuradores sérios, pessoas íntegras. Tenho de dar oportunidade para que eles possam provar que há pessoas que podem honrar a honra do convento.

A “patologia partidocrata ao extremo”, a corajosa Francelina e o bunker

Está tranquilo?
Absolutamente tranquilo. Neste momento estou naquela fase que na indústria da aviação se chama de “ponto de não retorno”. Quando o avião atinge a velocidade máxima antes de descolar, mesmo que o motor esteja a arder, o piloto não pode cometer a veleidade de querer travar o avião. Tem de descolar. Depois quando estiver no ar vai decidir se retorna à terra ou arranja outra solução. O meu compromisso com a justiça, com o povo, não me permite nesta altura estar muito preocupado com os meus medos, o medo de ser detido, o medo de ficar preso, o medo de ser julgado — esses medos tornaram-se irrelevantes.

E o medo de ser abatido? Também está na mesma categoria? Ainda teme pela sua vida?
Sim, sofri o quarto atentado a 5 de março. Só quem estiver com uma patologia partidocrata ao extremo vai dizer que não foi um atentado. Estou constantemente em perigo de vida.

Continua escondido?
Tenho uma casa oficial que indiquei à PGR, sempre que precisam encontram-me lá. Mas como eu me movimento naquela casa só eu sei. Se calhar tenho um bunker lá… (risos)

E a sua família?
É a maior preocupação de qualquer ser humano. A minha esposa, a Francelina, é algo de extraordinário na minha vida, porque muita gente diz que o Venâncio é corajoso, homem intrépido. Mas a minha esposa é a pessoa mais corajosa que já conheci na minha vida, muito mais do que eu e, felizmente, os meus filhos também são da causa, como dizemos em Moçambique. Já assumiram que são combatentes, soldados desta revolução.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dedicado exclusivamente a esta causa como é que sobrevive financeiramente? O Venâncio, a sua família, o seu movimento?
Continuo com as contas bancárias congeladas, o meu contrato de trabalho numa instituição em que trabalhei 23 anos está suspenso, não tenho fontes de rendimento neste momento. Pode parecer irrealista mas vivo pela graça de Deus. Se há gente que tem de orar muito para viver a misericórdia de Deus eu tenho-a vivido nestes tempos 24 horas por dia.

Vive com o dinheiro do seus apoiantes, então. Há um imposto voluntário do povo, que são 10 meticais (cerca de 14 cêntimos de euro) por semana. Presta contas do que recebe?
Ainda não prestámos. A nossa obrigação é fazê-lo até ao final do ano. Até dezembro vamos apresentar essas contas.

Lançou recentemente uma marca de roupa em Lisboa…
Marca que já existia há sete anos, mas faltava-lhe um toque mais técnico.

É para financiar o seu movimento?
Inicialmente não era. Foi criada por “miúdos” da comunicação do meu gabinete, em 2018. Fizeram um flyer, de que gostei e adotei-o. Em Moçambique há pessoas que nem sabem que eu me chamo Venâncio, mas VM7. Agora, em parte, é para não estarmos dependentes da ajuda das pessoas particulares mas ser uma forma de reforçar financeiramente o movimento.

Os 500 milhões desviados do Estado e os conselhos de Samora Machel

Tem um projeto de poder. Se o alcançar, e perante uma crise económica e financeira que assola Moçambique, um país que é diverso, como é que manteria a unidade nacional? Fala em reforma do Estado. Mas a matéria prima é a mesma. Parece ser um partido de um homem só…
O nosso lema “este país é nosso”, que começou em 2003, é uma frase que tem derivantes, e que começa com o amor à pátria, relançamento da identidade moçambicana.

Mas como é que vai salvar o país? Já lhe chamaram o Messias.
Como cristão já fiz uma live inteira a pedir que não colocassem sobre mim títulos que não sou merecedor, constitui quase um sacrilégio aceitar isso. Recebi mensagens de uns jovens a dizer: “Olha VM7, Deus sabe muito bem que tu no teu interior não queres ser Messias, mas também não impeças a nossa liberdade de dar o nome que quisermos”. Por isso, primeiro fazer o resgate dos valores nacionais, o amor à pátria.

Isso não coloca comida no prato.
 É a base a partir da qual se pode trazer depois programas, políticas e estratégias. Se tens um país em que as pessoas não têm amor à pátria, não há programa nenhum que possa ser bem sucedido. O país tem riquezas e dinheiro suficiente para mudar a vida dos moçambicanos. O importante é ter formas de gestão, políticas de como é que utilizamos o dinheiro que já recebemos, e que não é pouco. Exemplo: em 2016, na primeira operação chamada das mais valias da indústria extrativa de Moçambique 350 milhões de dólares entraram nos cofres de Estado. Como deputado, fui ter com uma instituição que fazia análise da indústria extrativa, e descobrimos que afinal de contas o Estado devia ter recebido 850 milhões de dólares; 500 milhões foram desviados do tesouro público. Este é que é o problema que Moçambique tem, não é falta de dinheiro, de recursos, de oportunidade de fazer melhor, mas é roubo, desvio, corrupção. É preciso reformarmos a administração pública, que ela seja séria, eficiente, sem corrupção, íntegra, porque com o dinheiro que temos podemos dar uma vida bem melhor aos moçambicanos.

Onde estão as pessoas para essa reforma? A “matéria prima” é a mesma…
As pessoas existem. Samora Machel dizia assim: “Quando os grandes se corrompem os pequeninos seguem o exemplo”. Esse é o problema de Moçambique, se o líder é íntegro, não há como os pequeninos não replicarem. Depois, defendo a descentralização fiscal. Os impostos da indústria extrativa serem coletados a nível local, nas províncias e distritos onde estão, e serem implementados nos programas de desenvolvimento local e não ser enviado todo o imposto para o governo central. É uma ideia simples, usando os mesmos recursos dar melhor vida às pessoas.

Já que falou em Samora [Machel]. O antigo e mítico Presidente moçambicano dizia “o poder não se conquista, arranca-se” ou, como dizia Dhlakama [outro líder moçambicano, este da oposição] “a Frelimo só aprende à porrada”. Acha que a violência pode voltar às ruas?
Não vou desvalorizar isso, pode ser feito, mas vai ser sempre de forma transitória. Todo o poder que for conquistado à força, também à força é desafiado. Entramos num ciclo vicioso e interminável. A forma definitiva de o fazer é com base na inteligência. E há variadíssimas formas infindáveis de se fazer uma alternância política em Moçambique, mesmo perante um governo securitário, mesmo perante um exército, mesmo perante canhões, blindados…

Não foi possível a 7 de novembro [quando os manifestantes estiveram muito perto do Palácio presidencial da Ponta Vermelha], não foi possível em dezembro, em janeiro…
Como aconteceu, por exemplo, quando durante dez anos a Frelimo esteve na luta da libertação. No primeiro ano acharam que estava tudo perdido, estavam para desistir, depois fizeram mais nove anos e conseguiram a independência [de Portugal]. Todo o processo no mundo é assim. Há os profetas de pós-facto: pronunciam-se de forma quase dogmática depois de o facto ocorrer. Antes do facto não havia profetas. Foi necessário que houvesse este movimento e manifestações e protestos, aparentemente tendo sido interrompidos em março, para estes profetas saírem da toca a dizer “ah, a revolução acabou”. Ninguém tem a varinha mágica de quais são as estações e tempos apropriados para a consumação de fenómenos políticos e sociais, esse é grande mistério da vida.

Do que se arrepende neste processo? Com tantas mortes, tantos detidos… Teve alguma estratégia errada? O que teria feito de diferente hoje?
Ainda estamos a estudar isso, arrependo-me de não ter começado antes de 2023, com as marchas autárquicas. Devia ter começado em 2013, ano da minha entrada na política e em que a minha vitória em Maputo foi muito mais expressiva. Devia ter começado dez anos antes. Hoje a revolução já estaria consumada.

▲ Fotografia de janeiro quando o Observador esteve com Mondlane no seu esconderijo em Maputo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em janeiro, quando o Observador esteve consigo no seu esconderijo em Maputo, tinha acabado de regressar do exílio, tinha uma pulseira branca que dizia Jesus is my partner. Hoje traz uma pulseira preta. Diz o quê?
Not my but God’s own…Quer dizer não eu, não por mim, mas de Deus. O que acontece comigo, que acham que é virtuoso, em nenhum momento eu posso atribuir a mim próprio, à minha inteligência, estratégia, esperteza. Sou apenas um vaso, no fundo Deus é que é a fonte de tudo, é a força divina que me leva a resistir perante esta força megalómona, monolítica, que é esta Frelimo, este regime.

Disse [à RTP África] que pode ser detido quando agora voltar a Maputo.
Não vi a foto do documento, mas disseram-me, pessoas ligadas ao serviço de segurança, que há um mandado de captura para quando eu chegar ao aeroporto.

O que vai fazer?
Eu vou. Nas redes sociais dizem: “Fica por aí”. Não. Estou na fase do ponto de não retorno. Em outubro de 2024 as circunstâncias justificavam que eu saísse do país, hoje, estou com novas circunstâncias, novas estratégias, que não é fugir, o exílio. Por isso eu volto, se é para ser preso não é problema nenhum. Até é um grande favor. A coisa mais difícil, mais trabalhosa, e extenuante, é acordar todos os dias e pensar qual é a estratégia, o que fazer, como responder? A partir do momento em que me prendem, esse trabalho será facilitado, será uma espécie de bypass, haverá muitas etapas que vamos ultrapassar estando detidos, vai ser um grande favor, para mim e para a revolução”.

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