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O Observador acompanhou Venâncio Mondlane em Maputo
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▲O Observador acompanhou Venâncio Mondlane em Maputo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲O Observador acompanhou Venâncio Mondlane em Maputo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dois dias com o “Messias” no seu esconderijo em Moçambique

Os dilemas entre negociar o poder e resistir na rua. A relação com políticos portugueses. E o secretário que foi barbeiro. O Observador em Maputo: dois dias com Venâncio Mondlane.

Venâncio Mondlane converteu-se a Deus em 2012 depois de ter “rebentado com todos os limites dos prazeres da vida carnal”, nas palavras do próprio. Álcool, noitadas em discotecas, after-parties de manhã e “muita mulherada”. Estima que tenha tido centenas de relacionamentos fugazes. Algumas dessas mulheres continuaram a enviar-lhe “mensagens apelativas”, depois de ele ter mudado de vida.

Uma das suas cúmplices de noites do passado não acreditou nesta conversão. Procurou-o no Parlamento quando era deputado da Renamo, trancou-o no gabinete, guardou a chave no bolso e disse-lhe: “Não acredito em ti, Venâncio. Não acredito nesse teu cristianismo. Isso é palhaçada, é mentira. Como é que vais resistir a uma tipa tão gostosa como eu?” Atirou-se ao seu pescoço e tentou todas as investidas que teriam atraído o próprio Mondlane na sua vida antiga. Sem sucesso. O deputado resistiu.

— Perante tudo o que pus aqui, uma oferta tão gratuita, não te moves?
— Querida, estou verdadeiramente convertido, já fiz as coisas mais abomináveis nesse mundo. Agora estou purificado em absoluto, em matérias de relacionamentos amorosos, bebidas e drogas.

É uma das cerca de dez mulheres com quem Venâncio se envolveu no passado e que entretanto se converteram: “Agora são minhas ovelhas na igreja”.

Nas ruas de Maputo é mais difícil encontrar apoiantes do regime do que do candidato que, segundo os resultados oficiais, saiu derrotado. O funcionário de um dos restaurantes mais movimentados da capital, com centenas de clientes todos os dias, gabou-se mesmo de que apenas conhecia uma pessoa que tivesse votado no candidato da Frelimo.

Em 2015, três anos depois de se ter juntado à Igreja Ministério da Divina Esperança, foi ordenado pastor e, embora reconheça a importância da separação entre Estado e Igreja, Deus está sempre presente de alguma forma nas suas comunicações com os eleitores, nos discursos, nos diretos nas redes sociais, na pulseira branca onde se lê “I’m a Jesus partner” (sou sócio de Deus) e na postura.

Quando regressou a Maputo na semana passada, após dois meses em fuga pelo estrangeiro, exibiu uma Bíblia (que usou para a sua tomada de posse não oficial no meio do povo), ajoelhou-se no aeroporto e beijou o chão, como fazia o Papa João Paulo II de cada vez que chegava a uma nova terra. No dia seguinte, apareceu uma foto sua desse regresso na capa do jornal Savana, um dos tradicionalmente mais independentes face ao regime de Maputo, o que se confirma na própria manchete: “Chegou o Messias”.

É assim que uma parte significativa do povo o vê e se refere a ele. Para muitos, Venâncio Mondlane representa o sonho do fim de 50 anos de Frelimo no poder em Moçambique, do fim da violência arbitrária do Estado, do fim da corrupção, do fim do empobrecimento — como se permitisse o início de um novo país.

Uma multidão foi recebê-lo ao aeroporto e muitos milhares de pessoas obedecem aos apelos às greves, às manifestações e aos bloqueios de estradas nos bairros dos arredores e não esconde a devoção. Nas ruas de Maputo é mais difícil encontrar apoiantes do regime do que do candidato que, segundo os resultados oficiais, saiu derrotado. O funcionário de um dos restaurantes mais movimentados da capital, com centenas de clientes todos os dias, gabou-se mesmo de que apenas conhecia uma pessoa que tivesse votado no candidato da Frelimo.

Entre o regresso a Maputo e a tomada de posse oficial do novo presidente Daniel Chapo, agendada para esta quarta-feira de manhã, uma equipa do Observador acompanhou Venâncio Mondlane ao longo de dois dias na unidade hoteleira onde está escondido da forma mais discreta e reservada possível, embora o seu paradeiro exato já tenha sido divulgado anonimamente nas redes sociais.

Nestes dois dias, a sua ligação com o mundo fez-se através de um núcleo muito restrito de colaboradores de confiança e seguranças. A informação chega-lhe toda por telemóvel. Não vê televisão, nem jornais: ficou por isso espantado (e envaidecido) com a capa do jornal Savana. Pediu à equipa para lhe arranjar um exemplar. Mas frisou que não acha o nome “Messias” adequado para se referirem a ele. “É um exagero. Muito forte”, disse ao Observador, enquanto posava para uma fotografia a exibir a capa do jornal.

▲ Manchete do jornal Savana: “Chegou o Messias”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tirou uma cama de um quarto do hotel para o transformar num gabinete onde passa a maior parte do tempo — e de onde apenas sai para uma sala maior quando tem reuniões. Por exemplo, foi aí que recebeu o embaixador português António Costa Moura, mais três diplomatas, este domingo à tarde, durante a reunião em que foi estabelecido o telefonema para o ministro Paulo Rangel, que provocou entretanto uma enorme polémica pública, com Venâncio Mondlane a fazer um direto nas redes sociais a acusar o governante português de não ter feito nada para ajudar a resolver esta crise e de estar a enganar os portugueses e o mundo — tendo Rangel respondido ao Observador que mantinha tudo o que tinha dito.

Uma das polémicas entre Mondlane e Rangel tem precisamente a ver com o facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros ter referido à TSF que tem mantido contactos discretos com o Vaticano sobre Moçambique. O candidato tem linha direta para o cardeal D. Matteo Zuppi, que tentou fazer a ponte entre Venâncio Mondlane e o ainda presidente, Filipe Nyusi. Ligou-lhe e o cardeal assegurou-lhe que não tinha havido diligências do governo português junto do Vaticano.

“Em Portugal, votaria na Iniciativa Liberal”

O candidato discutiu com o cardeal que dirige a Conferência Episcopal Italiana quais seriam as suas condições para o diálogo: anulação dos processos criminais movidos contra ele, levantamento dos mandados de captura, descongelamento das suas contas bancárias, anulação das eleições e criação de um governo transitório de consenso para implementar reformas até haver condições para eleições livres.

Observador: Houve desenvolvimentos das negociações intermediadas pelo cardeal que representa o Papa numa tentativa de solução deste processo de crise pós-eleitoral?
Venâncio Mondlane: Até este momento, nada, porque a Frelimo, pura e simplesmente, não quer ceder. O Presidente da República dizia que estava de saída e já não tinha poder.

E houve alguma diligência do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa?
Eu acho que o Presidente está cauteloso. No início, não tanto. Há quem o critique porque diz que ele muda facilmente de posição, mas acho que a vida é assim, em função da informação disponível. A informação que o Presidente tem hoje leva-o às cautelas que está a tomar agora, porque certamente está a acompanhar o que está a acontecer em Moçambique.

Tem falado com ele?
Ainda hoje lhe mandei uma mensagem, não sei se vai responder ou não. Dizia-lhe que estava disponível para trocar uma palavrinha com ele, logo que ele tivesse disponibilidade. Mandei uma mensagem para ele pelo WhatsApp, mandei uma mensagem para o Luís Montenegro, e espero que me respondam [48 horas depois não tinha havido resposta]. Não posso ter a ilusão de que tomem partido da minha causa. Mas vou disponibilizar informação atualizada do que está a acontecer em Moçambique para que eles possam posicionar-se em função disso. Sob o ponto de vista diplomático, ético, moral, não é aconselhável que um ser humano católico tenha uma espécie de cumplicidade com este tipo de situações humanamente inaceitáveis que estão a acontecer em Moçambique. O mínimo que podiam fazer era não vir a esta tomada de posse. Ninguém. Nem o embaixador.

Acompanha a política portuguesa?
Um bocadinho.

Em que partido acha que votaria em Portugal?
Iniciativa Liberal.

Nas sondagens para as presidenciais, surge em primeiro lugar o almirante Gouveia e Melo. Conhece-o?
Tenho ouvido muito falar do militar. Não posso dizer que tenha alguma antipatia por ele, pelo contrário. Não sinto nenhum repúdio. Não digo que votaria nele, mas… Até agora não decidimos sobre isso.

▲ Mondlane no quarto de um hotel onde passa a maior parte dos seus dias escondido

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um ativista muito presente nas manifestações nos bairros comentou com o Observador que falta precisamente um militar com coragem a apoiar Mondlane, um “Salgueiro Maia” que pudesse influenciar outros militares para ajudarem a concretizar uma revolução. O descontentamento e os protestos têm de facto bloqueado o país, quase ninguém consegue ir trabalhar, não há pagamento de portagens nem de impostos, houve saqueamentos generalizados no dia de Natal, a economia está a ressentir-se e o Estado anunciou o corte do pagamento do 13.º mês.

Mas estes protestos populares têm sempre esbarrado na polícia e nos militares, cuja cúpula se tem mantido fiel ao regime, apesar de vários apelos nos grupos de WhatsApp com estratégias para o povo tomar o palácio presidencial.

Para o jovem barbeiro, “foi uma dádiva” poder ter conversas a sós com o ídolo político que ensinava palavras novas, enquanto o atendia. Com a relação mais cúmplice, Venâncio Mondlane começou a oferecer-lhe prendas no aniversário: uma Bíblia primeiro (Luís estranhou e não a abriu durante dois anos); e o livro das 8 mil palavras, uma prenda claramente bem escolhida face à paixão de Luís pelo vocabulário.

Nos dois primeiros destes três dias de protesto convocados por Mondlane antes da tomada de posse, o poderio militar e das forças de segurança tem sido dissuasor suficiente para evitar que as manifestações cheguem sequer próximo do centro de Maputo, uma bolha privilegiada, onde se regista forte presença de viaturas militares e de homens armados e de cara tapada. As três primeiras mortes de populares nestes protestos ocorreram a dezenas de quilómetros do centro, em bairros da periferia.

[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

“A brutalidade do assassinato do Elvino Dias com 25 tiros foi para me traumatizar e aterrorizar o povo”

Na conversa com o Observador no hotel que tem usado como esconderijo, Venâncio Mondlane assume que fez de propósito para cortar ligações com militares: “Eu queria demonstrar que é possível a gente fazer uma luta sem precisar de armas, sem precisar de disparar nenhuma bala, e com base em manifestações populares levarmos um governo a tomar consciência de que tem de mudar, como aconteceu na famosa marcha sobre Roma com Mussolini na altura. Infelizmente, não foi possível.”

Agora, admite que o não envolvimento de militares pode ter sido um erro estratégico: “Estou de acordo porque, para dizer a verdade, estou com 50 anos, é mais ou menos a idade de independência do país, mas com a minha experiência política, como ativista social, como comentador de televisão, por aí fora, eu nunca tinha tido uma clara evidência do quão draconiano é este regime. Nunca me passou pela cabeça que eles chegassem a tanto.”

▲ Venâncio Mondlane durante a entrevista ao Observador

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Observador: De todas as mortes desde as eleições (entre três e quatro centenas, dependendo das fontes), qual é que mexeu mais consigo?
Venâncio Mondlane: O impacto mais traumático foi a 19 de outubro, com o assassinato de Elvino Dias, que era meu advogado particular, meu mandatário nacional, também amigo pessoal e membro do Conselho Jurisdicional do meu gabinete. A brutalidade do assassinato com 25 tiros, quando eles sabiam que o Elvino já tinha iniciado a elaboração do recurso para estas eleições gerais de 2024… A ideia deles era primeiro criar um efeito traumático em mim, aterrorizar-me, e dissuadir todos aqueles que pudessem associar-se à luta de contestação dos resultados. O objetivo era mesmo aterrorizar o povo e isso doeu-me profundamente. Não só o assassinato dele, mas o que eles queriam atingir matando o Elvino da forma como o fizeram.

Ainda sofre muitas ameaças de morte? Quantas vezes já o tentaram matar?
Houve três ocasiões em que escapei de uma tentativa de assassinato. No dia 21 [de outubro], na praça, enquanto estava a falar com jornalistas, houve planos concretos para me tirarem a vida. Outra ocasião foi quando eu estava em Sandton, quando apareceram pessoas armadas no condomínio onde estava com a minha família, e nós tivemos de saltar para a porta das traseiras. A outra foi uma armadilha que sofri, quando estava no Médio Oriente, fui convidado por um grupo de pessoas que diziam que queriam apoiar-me e eu, de forma ingénua, fui a esse encontro e, de facto, quiseram assassinar-me e tive de saltar de uma janela, de um primeiro andar, e caí no jardim.

O secretário ex-barbeiro que aprendeu palavras novas com Venâncio e o trata por “pai”

Perante esta ameaça permanente, praticamente todos os seus passos são acompanhados por seguranças armados, mesmo dentro do hotel. Ainda este sábado, o seu assistente particular e responsável pela comunicação foi alvo de disparos quando preparava um comício junto a um mercado de Maputo. Luís Mariquel, 28 anos, é a sombra de Venâncio Mondlane e trata-o por “pai”, (tal como chama “irmãos” aos filhos biológicos de Mondlane). Tem mesmo de fazer um esforço para se corrigir e o tratar por “presidente” na presença de outras pessoas. Quase todos os detalhes da vida do candidato passam por ele: a comida, a organização do dia, os diretos nas redes sociais, a organização de outros colaboradores — até a mulher de Mondlane lhe liga quando não consegue falar com o marido.

▲ Luís Mariquel, 28 anos, é a sombra de Venâncio Mondlane e trata-o por “pai”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Sabe tudo de que gosta e não gosta este seu “pai” adotivo, identifica quando está bem e mal disposto (chama-lhe Léus em vez de Luís quando está contente) e anda com ele para todo o lado. Este secretário-sombra era fascinado por política desde os 16 anos: ficava a ouvir os discursos do parlamento pela televisão, não propriamente pela luta de ideias, mas para aprender palavras novas. De cada vez que descobria uma palavra, ia ao dicionário e tomava nota num caderno. Entre todos os políticos que ouvia, o deputado Venâncio Mondlane já era o que mais se destacava neste fator específico da riqueza de vocabulário. Muito rapidamente se tornou seu ídolo, que admirava à distância.

Descendente de um dos melhores barbeiros de Maputo, profissão que foi seguida pelos seus irmãos, também Luís Mariquel começou por trabalhar no salão do pai, muito frequentado por deputados. Numa noite, chegou Venâncio Mondlane para cortar o cabelo e ao mesmo tempo fazer campanha — não havia mais ninguém livre e ficou ele incumbido de o atender. O político gostou do resultado do corte de cabelo e da conversa e a partir daí tinha encontrado o seu barbeiro, (sempre disponível para lhe cortar o cabelo a horas mais tardias, em casa) — mas ainda sem imaginar que Luís viria a ser muito mais do que isso.

Para o jovem barbeiro, “foi uma dádiva” poder ter conversas a sós com o ídolo político que ensinava palavras novas, enquanto o atendia. Com a relação mais cúmplice, Venâncio Mondlane começou a oferecer-lhe prendas no aniversário: uma Bíblia primeiro (Luís estranhou e não a abriu durante dois anos); e o livro das 8 mil palavras, uma prenda claramente bem escolhida face à paixão de Luís pelo vocabulário.

O jovem barbeiro passou para a política quando Venâncio o convidou para colaborar com a sua estratégia de comunicação como deputado, acompanhando-o sempre que mudou de partido. Deixar a Renamo, onde recebia três salários de três cargos que desempenhava em três gabinetes, foi uma decisão difícil, mas mesmo assim avançou. Hoje não tem propriamente um salário, mas diz que nunca lhe faltou nada.

“Deus está a mandar-me vir trabalhar consigo. Eu vou consigo até às últimas consequências”, disse-lhe o barbeiro, numa prova de fidelidade extrema, sem saber como ficaria a sua vida, numa altura em que mais ninguém acompanhava Venâncio Mondlane. “Ele ficou emocionado e feliz. Não é muito de chorar. Mas eu sinto: já consigo perceber que ele está emocionado.”

Além de gerir toda a sua vida, Luís Mariquel é também quem vai à frente de Venâncio Mondlane nas deslocações para ações de campanha ou gravações de diretos para as redes sociais. Compete-lhe garantir que está tudo de acordo com a exigência e o gosto do “pai”.

O segurança que era agente duplo e provocou o último ataque

A penúltima grande prova de fidelidade dada por Luís a Venâncio foi o corte do seu próprio cabelo comprido, quase até à cintura, não propriamente por ter um aspeto pouco formal (garante que o candidato nunca criticou a dimensão do cabelo), mas porque ele mesmo percebeu que esse visual o tornava muito fácil de identificar para quem quisesse abater o candidato. Sempre que Luís Mariquel chega a qualquer lado, é quase certo que está a reconhecer o terreno para ver se é seguro Venâncio Mondlane chegar pouco depois.

▲ Luís Mariquel começou por trabalhar no salão do pai, muito frequentado por deputados e foi aí que conheceu Venâncio Mondlane

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A última grande prova de fidelidade dada por Luís a Venâncio ocorreu este sábado em Maputo, quando o secretário saiu do hotel para ir preparar a logística de uma aparição pública de Venâncio Mondlane, onde iam participar dois músicos. Um dos músicos entrou em contacto com um elemento da antiga equipa de segurança, sem saber que ele tinha sido dispensado por pertencer aos serviços secretos moçambicanos e trabalhar como agente duplo: também passava informações ao regime sobre os passos de Mondlane. Terá sido esta brecha de segurança a estar na origem da armadilha que se seguiu.

Apareceu um carro sem matrícula e o condutor pediu o telefone a Luís Mariquel, que nem percebeu logo e recusou dar o aparelho. Surgiu a seguir outro homem de arma em punho, a pôr uma máscara na cara, e a disparar em direção aos seus pés. “As balas graças a Deus não me apanharam”, suspira o secretário.

"Temos o maior canal de WhatsApp dos PALOP com 238 mil seguidores, perdemos uns quantos por causa de uns hackers que entraram aí. Só para tu teres uma ideia: o político em Moçambique, depois de mim, que tem o maior número de seguidores é o Manuel de Araújo. Sabes quantos é que ele tem? Três mil"
Venâncio Mondlane, candidato presidencial derrotado segundo os resultados oficiais em Moçambique

Os agressores levaram o telefone, os computadores, a mesa de som e a carteira do secretário com 30 mil meticais (456 euros) para pagar as despesas logísticas daquele evento. Primeira preocupação de Luís Mariquel depois de ter estado debaixo de fogo: avisar o “pai”, que já estava a caminho, para voltar para trás e não se expor a este perigo; segunda preocupação: avisar um técnico para tentar inutilizar de forma remota tudo o que estivesse no telefone e nos computadores; terceira preocupação: relativizar o susto e seguir em frente — “Seja feita a vontade de Deus. Nesta vida, a qualquer momento, pode ser-se baleado. É a vida de guerra. E eu estou na guerra. Vou continuar até ao fim, até onde eu puder. A minha vida neste momento é Venâncio Mondlane. Eu sou servo de Venâncio Mondlane. É como se Deus me tivesse deixado viver para servir este homem na Terra.”

Observador: que cuidados tem de ter com a sua segurança no dia-a-dia?
Venâncio Mondlane: Tenho cuidado com a comida. É uma irmã minha que confecciona quase sempre e o Luís que me traz. Também com a água: podem ter posto uma seringa na água e não dar para perceber. Outro aspeto muito importante é a cibersegurança, a minha página de Facebook já ficou inativa umas 7 ou 8 vezes. Eles [Frelimo] fazem cinco mil denúncias para a fazer cair e então nós pedimos aos nossos seguidores para todos os dias recomendarem a nossa página. Com 300 mil recomendações, acabou essa história de as denúncias fazerem cair a nossa página. Tenho uns dez grupos de WhatsApp com o meu núcleo restrito, para comunicação e segurança, etc, mas tento usar mais o Signal.

Vai continuar a viver num hotel?
Estamos à procura de uma casa. Vai chegar um contingente de fuzileiros navais na próxima semana, apoiantes meus, vêm à civil mas estão armados, e já poderemos ir para uma vivenda. Neste momento tenho três homens armados, um major do exército e dois fuzileiros.

Quem são as pessoas em que mais confia?
No Dinis [Tivane, braço direito], de forma cega. No Luís [Mariquel]. No Cremildo [Chichongo, coordenador de marketing]. E nos meus irmãos. Só estas pessoas sabem desta live [um direto nas várias redes sociais] que vamos fazer agora. O resto da equipa vai ser surpreendida quando começar.

Faz ideia de quantos seguidores tem?
Mesmo depois de todos os ataques que já sofremos, estávamos com um milhão e quatrocentos mil seguidores no Facebook, estamos no YouTube com duzentos mil seguidores, temos o maior canal de WhatsApp dos PALOP com 238 mil, perdemos uns quantos por causa de uns hackers que entraram aí. Só para tu teres uma ideia: o político em Moçambique, depois de mim, que tem o maior número de seguidores é o Manuel de Araújo. Sabes quantos é que ele tem? Três mil. Neste momento, eu tenho o recorde de visualizações em direto de África. Foi no dia 24 de outubro de 2024: atingimos 167 mil pessoas em visualização simultânea.

▲ Venâncio Mondlane a sair do hotel por uma porta das traseiras do hotel onde está escondido

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

Os diretos nas redes sociais são a principal forma de Venâncio Mondlane comunicar com a população. Justificam, por isso, que corra o risco de sair do hotel que tem usado como esconderijo para o fazer da forma mais profissional possível. O Observador acompanha uma destas deslocações.

Muda de roupa para vestir um fato e gravata, termina as suas notas manuscritas ainda antes de sair do quarto, dirige-se a um elevador nas traseiras com acesso direto à garagem, para evitar sair pela porta da frente do hotel, e desloca-se no carro acompanhado pelos seguranças, que se certificam de que não estão a ser seguidos ao longo do caminho até um bairro residencial. Entram num portão que é logo tapado por uma carrinha, para dificultar qualquer intrusão de outro veículo, param o carro no que parece ser um quintal de uma casa banal, entram na residência e de repente estão num ambiente de um estúdio de televisão. Venâncio é recebido pelo anfitrião, o dono do estúdio, que trata por “Chairman”. É um dos seus principais apoiantes, que está numa cadeira de rodas, e o acolhe dizendo: “A casa é sua”.

Há um cadeirão amarelo onde Venâncio se senta a falar com o dono do estúdio. Têm uma relação tão próxima e de tanta confiança que o “Chairman” é a única pessoa que recebeu mensagem de um número de telemóvel novo, (da última vez que o candidato trocou por questões de segurança) e não desconfiou que era mesmo Venâncio Mondlane.

[Veja no vídeo o momento em que Venâncio Mondlane abandona o seu esconderijo até ao estúdio para gravar o direto para as redes sociais]

Numa régie profissional, os técnicos vão preparando o direto, sob a supervisão direta de Mondlane, que dita os títulos desta transmissão: “Protesto contra os traidores do povo; protesto contra os ladrões do povo; imprime a fotografia do teu verdadeiro presidente, olho por olho, dente por dente, concurso da nova bandeira de Moçambique”. Vai ao detalhe de ver cada gralha, corrigir cada elemento visual a mais.

A difícil escolha das fotos, a coragem da mulher e o dinheiro para viver

Antes de arrancar, o secretário dá-lhe um copo de água e o “Chairman” ordena: “Telefones no silêncio, pessoal”. Estão oito colaboradores e a equipa do Observador a assistir a tudo.

Venâncio Mondlane avança para o púlpito e tem atrás de si uma parede branca e a bandeira de Moçambique. Durante cerca de 30 segundos, fica em oração, mãos entrelaçadas e cabeça baixa, olhos fechados. Abre os olhos e avisam-no: “Intro no ar”.

▲ Preparativos para o direto nas redes sociais num estúdio de vídeo profissional

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

“Boa noite, moçambicanos, moçambicanas, compatriotas. Estamos em direto” — pede a todos os que estão a ver para partilharem e deixa as suas mensagens e apelos políticos do dia. É aqui que anuncia os três dias de protestos, entre esta segunda e esta quarta-feira, da tomada de posse dos deputados (na segunda) à tomada de posse do Presidente.

Termina com “um forte abraço” (e abraça-se a si próprio), um beijo de som repenicado que atira com os dedos. “Eeeeee tchau”, despede-se, enquanto estica a palma da mão em direção à câmara. Enquanto os oito técnicos aplaudem, Venâncio faz um toque de punhos com o secretário e preocupa-se logo em saber: “Que tal? Som, luz, tudo?” Depois pergunta pelos números e sabe que teve 20 mil seguidores no arranque.

"Onde vejo realmente sucessores é entre os jovens. Estou com 50 anos, mas gostaria de ter feito este papel mais jovem ainda, com os meus 20 anos. Mas existem alguns jovens muito talentosos. Há duas coisas importantes. Não é só o talento em matérias discursivas, mas também a integridade. Pessoas que estejam disponíveis para perder a sua própria vida em defesa de valores. Alguns são comentadores de televisão, são muito bons."
Venâncio Mondlane, candidato presidencial derrotado segundo os resultados oficiais em Moçambique

Tem uma preocupação extrema com a imagem. Nota-se não só por aparecer sempre impecavelmente vestido e arranjado, mas também por outro detalhe: desafiou o povo a manifestar-se empunhando cartazes com a cara do “verdadeiro Presidente” e, questionado sobre qual seria a sua imagem favorita para esses cartazes, pára a entrevista: “Sim, tenho fotografias preferidas. Deixa ver se encontro”. Desbloqueia o telemóvel e vai apontando várias hipóteses, umas seis, quase como se afinal ficasse indeciso: numa com a Bíblia, noutra à chegada a Maputo, noutra por estar ajoelhado, outra é um desenho com inteligência artificial, outra que alguns miúdos estão a colar nos cadernos da escola. Acabou por deixar duas fotos para a seleção final: “Gosto destas duas”.

▲ Venâncio Mondlane no final do seu direto para as redes sociais

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

Observador: Porque é que estas são as duas fotografias preferidas?
Venâncio Mondlane: Porque elas surgem num contexto muito interessante. O meu último destino antes de voltar foi o Qatar. Na minha passagem por alguns países africanos apanhei malária, no nível mais alto e perigoso. Se tu não tiveres tratamento em dois dias, morres. Fiquei internado num hospital público em Doha. Quando entro no avião para Maputo ainda sentia sequelas da malária, sentia-me fisicamente fraco, mal conseguia colocar-me de pé. Estava com muito medo do que ia acontecer à chegada ao aeroporto. Receava que pudesse dar alguns passos e cair. De manhã, vou à casa de banho do avião, começo a cuidar de mim, o cabelo, o arranjo do fato e ponho-me a orar a Deus, a pedir que Ele me refortaleça porque não me sentia capaz de dar dez passos. E foi o momento em que a minha aparência física foi das mais deslumbrantes, as pessoas ficaram maravilhadas. No meu íntimo estava a sentir-me muito fragilizado. Mas a minha esposa depois ligou-me e disse: “Eu não creio no que eu vi porque fui deixar-te no aeroporto [está no Qatar]. Isto claramente é uma intervenção de Deus. Este homem não ia conseguir dar dez passos”. Graças a Deus a esposa que eu tenho é a pessoa mais corajosa que já conheci neste mundo.

▲ Venâncio Mondlane mostra uma das suas fotografias favoritas no seu telemóvel

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais do que o Venâncio?
Muito mais do que eu. Ela é muito mais. Já tive várias ocasiões em que quis recuar. Ela é que disse que não. “Aqui não se recua. Vamos para a frente, Venâncio.” Mesmo perante a polícia, mesmo perante ataques policiais, ela era muito corajosa. Nos momentos em que sinto realmente muita pressão, ela é que dá a maior força para não parar com isto, não desistir: ”Não pode parar. Temos muita gente na nossa responsabilidade”. É guerrilheira. Se fosse nos tempos da luta armada, estaria num campo de batalha com a arma mesmo. Os meus filhos também são muito corajosos. Um está a estudar no Chipre e a outra agora vai passar a estudar na Alemanha.

Vive com que dinheiro?
Com os apoios dos apoiantes. Desde que renunciei ao cargo de deputado, tenho vivido assim.

Tem dinheiro para viver até quando?
Tem dado para viver até hoje. Não tenho motivos para duvidar. Eu vou continuar a ter para viver amanhã. Só com base neste apoio. Por exemplo, agora bloquearam-me as contas todas, convencidos de que iam apertar-me até aos ossos. Mas abri uma conta Paypal, que eles não têm como impedir, e tenho recebido o dinheiro de todo o mundo. Mas, acima de tudo, vivo pela graça de Deus.

▲ Cerca de 20 mil pessoas o direto de Mondlane

JOAO PORFIRIO/OBSERVADOR

A ameaça de parar as ruas e as condições para uma negociação

Faltam cinco anos para as próximas eleições presidenciais, muito tempo. A menos que aconteça algo de muito extraordinário e imprevisto, Venâncio Mondlane tem agora de gerir o seu capital político no imediato. Enquanto tiver apoio popular, só admite parar se o regime aceitar negociar um pacote em que pede um investimento gigantesco em habitação para construir três milhões de casas em cinco anos; uma linha de crédito de 600 milhões de dólares para financiar o empreendedorismo de jovens e mulheres; libertação imediata de todos os detidos na sequência dos protestos; indemnizações às famílias das vítimas; e assistência médica para as vítimas destes protestos.

Se este pacote for aceite, admite integrar o Conselho de Estado e nomear o seu braço direito, Dinis Tivane, para um cargo no governo. Se não for aceite, a arma que lhe resta é o poder de conseguir parar o país, tornando-o ingovernável, até Daniel Chapo e a Frelimo cederem — ou Venâncio Mondlane ser eliminado. Não há em toda a oposição ninguém que se aproxime sequer do seu estatuto político. Ele próprio tem dificuldade em apontar quem poderia ter potencial para o substituir como líder da oposição à Frelimo.

▲ "O presidente eleito pelo povo" pousa no quarto do hotel onde passa a maior parte do seu tempo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Observador: Vê alguém que pudesse ser o seu sucessor?
Venâncio Mondlane: Bom, eu não vou nomeá-lo, naturalmente, também para não  o comprometer. A partir do momento em que eu citar o nome, o jovem imediatamente é assassinado. Mas eu sei que existem.

Não vê ninguém da sua geração?
Onde vejo realmente sucessores é entre os jovens. Estou com 50 anos, mas gostaria de ter feito este papel mais jovem ainda, com os meus 20 anos. Mas existem alguns jovens muito talentosos. Há duas coisas importantes. Não é só o talento em matérias discursivas, mas também a integridade. Pessoas que estejam disponíveis para perder a sua própria vida em defesa de valores. Alguns são comentadores de televisão, são muito bons. Se mantiverem a postura que têm e, sobretudo, quando passarem pela prova de fogo.

A prova de fogo é o convite da Frelimo?
A prova de fogo são os aliciamentos materiais e financeiros. Quando tu fores testado nisso, tudo bem. Quando tiveres situações em que os teus valores e as benesses materiais estiverem em causa e tiveres de decidir… aí, sim, essa é a prova de fogo.

De que é que tem mais saudades de fazer na sua vida normal?
Uma das coisas é andar pelas ruas, cumprimentar as pessoas, conversar com gente simples, sobretudo nos mercados. Era isso que eu gostava de poder fazer. Mas agora estou muito limitado.

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