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MIGUEL A. LOPES/LUSA

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Zé Pedro sabia: o rock'n'roll não morre

O maior bacano, o bom rebelde, o revolucionário sorridente, o subversivo com coração, um tipo cujas veias só conheciam a bondade. Como se diz adeus? "Hey, hey, my, my, rock'n'roll will never die".

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Isto não era para ser assim — este texto até abria com uma graçola, em que chamava ao Keith Richards “o Zé Pedro inglês”. Depois parei para dar de jantar ao meu puto e comecei a ler o que se escreveu na net — e confesso que só aí percebi que dezenas e dezenas e dezenas de amigos meus tinham histórias com ele e invariavelmente acabavam as suas homenagens chamando-lhe bacano. Tenho um pouco de vergonha de confessar isto, mas desatei a chorar. O puto perguntou-me porquê e saiu-me isto: “Morreu um amigo do pai”. Não é verdade — vi o Zé Pedro meia dúzia, uma dezena de vezes. E no entanto, lida cada uma daquelas mensagens, é como se fosse. Perdoem: isto não é um obituário convencional. Que se lixem os factos — para quem nasceu entre 1970 e 1980, o Zé Pedro era mesmo o maior bacano. E isto é o adeus possível.

O maior bacano, o bom rebelde, o revolucionário que nunca perdia o sorriso, o subversivo com coração — como é possível que um tipo tão do rock, que forneceu uma electricidade danada a alguns dos temas mais zangados do rock português, fosse o maior bacano, um tipo cujas veias só conheciam a bondade — e que raio isso interessa quando falamos de um músico? Mas interessa e interessa muito; e, acreditem, era mesmo um bacano — sendo que não digo isto pelo que li hoje mas porque ao longo de anos e anos e anos e anos a trabalhar no mundo da música ouvi uma miríade de músicos, roadies, electricistas, técnicos de som, radialistas, jornalistas e DJs dizerem a mesma frase e com um sorriso nos lábios só de lhe pronunciarem o nome: “O Zé Pedro? É um bacano”.

Morreu Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, aos 61 anos. “O nosso Zé Pedro deixou-nos hoje. Foi em paz”

E agora que vamos ter de reformular a frase para o pretérito passado, talvez valha a pena lembrar que só um bacano é conhecido publicamente num país inteiro pelo seu nome próprio — algum dia Keith Richards deixou de ser, nas rádios ou nas televisões, Keith Richards? Mas o Zé Pedro nunca foi José Pedro Amaro dos Santos Reis; ninguém imagina o porteiro do hotel a pegar-lhe nas malas e a dizer “Por aqui, senhor Amaro dos Santos Reis”. E alguém faria ideia de que ele nascera já no longínquo ano de 1956 (a 22 de Setembro, para ser exacto)? Sessenta e um anos, este puto que ainda saía à noite e ficava doido com uma canção nova? E isto só é possível porque Zé Pedro porque nunca criou distância entre a estrela rock e a malta para quem aqueles riffs — em particular os debitados até 1988 — e aquelas palavras significavam muito mais que um par de acordes engraçado.

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Um dia viu a electricidade

Vamos pôr as coisas assim: o primeiro concerto que vi foi dos Xutos. Era doido pelos Xutos, queria ser o Tim ou o Zé Pedro, como antes quisera ser Roy Rogers ou Fernando Gomes. Roubava o lenço vermelho da minha irmã, atava-o na perna e pegava na vassoura para rockar como um rocker a sério. E um dia contei isto a um deles, que respondeu “Ai sim?”, e virou costas. Ora bem: o Zé Pedro estava ao lado e riu-se e veio perguntar: “Estavas a falar a sério?”. E eu disse que sim e ele a perguntar onde fora o concerto e que idade eu tinha e o que eles tinham tocado e “já gostavas de rock’n’roll com essa idade?” e ‘bora de contar uma história alucinada dessa digressão. E ‘bora de contar histórias de como cada canção foi feita.

Porque este gajo gostava de rock’n’roll, adorava rock’n’roll, ouvir rock’n’roll, passar rock’n’roll num clube, num bar, na rádio, conversar sobre rock’n’roll, do qual sabia quase tudo e quando não sabia queria aprender com toda a humildade. Certa vez encontrei-o no Bairro Alto — eu estava de folga e tinha acabado de comprar discalhada (embora só me lembre de que havia ali um disco dos Cramps); ele cumprimentou-me com maior felicidade do que eu a ele, porque eu sou tímido e ele era assim; lá me perguntou o que eu trazia e a conversa durou hora e meia. E, de novo, não éramos amigos — mas ele era assim. E foi assim com muita gente.

Viciou-se na electricidade de tal maneira que passou o resto da vida a criá-la dentro de si e a devolvê-la ao povo na forma de sequências de cinco, seis notas endiabradas -- isto apesar de só ter pegado numa guitarra aos 21 anos.

E no entanto podia ter sido tudo muito diferente — estamos a falar de um gajo que passou a infância em Timor, que viu electricidade pela primeira vez aos seis anos, que passou a infância a viajar, à conta da profissão do pai, militar. Podia muito bem nunca ter regressado a Portugal; podia nunca ter visto electricidade.

Mas viu — e viciou-se nela de tal maneira que passou o resto da vida a criá-la dentro de si e a devolvê-la ao povo na forma de sequências de cinco, seis notas endiabradas — isto apesar de só ter pegado numa guitarra aos 21 anos. Isto um tipo filho de militar — e se calhar até foi por oposição à figura parental que decidiu — em Dezembro de 1978 — abraçar a vida malvada do rock’n’roll. E em boa hora o fez, porque o que os Xutos produziram numa década é apenas e só da ordem do extraordinário — Cerco (1985), Circo de Feras (1987) e 88 (1988) em particular.

Em dez anos eles levaram o país da desconfiança à adoração: eram punks que os conservadores viam como uma ameaça, o que é natural se nos lembrarmos da letra de “Avé Maria” e do país que éramos quando aquela bomba explodiu no éter; uma década depois começavam a tornar-se uma instituição. Não eram apenas gente que gostava de barulho e que tivera problemas com drogas; eram a banda-sonora da vida dos filhos dos operários, da malta dos subúrbios, dos putos que não sabiam o que fazer à vida, de todos aqueles que encontraram nos três acordes dos Ramones a fuga à vidinha de merda que se levava neste rectângulo sufocante e atávico.

Zé Pedro: “A guerra está à nossa porta mas as músicas de hoje são lamechas”

É que os Xutos tinham guitarras com uma fúria danada — mas também tinham palavras, directas, cruas, honestas. Os Xutos foram a única banda portuguesa a ter conseguido, até hoje, a escrever coisas sérias em português sem tretas nem pedantismos. Sabem aquilo que um gajo sente quando lê com atenção uma letra do Springsteen? Só os Xutos nos fizeram sentir assim em português.

O Homem do Leme

As gerações reagem umas às outras e os putos nascidos de 85 para a frente não têm a mesma relação com os Xutos que nós tínhamos — mas no país dos dois canais de televisão, no país em que a igreja tinha um poder enorme e a Renascença muitos pruridos, em que o futuro era alombar numa fábrica, no país que uma década antes mal conhecia o saneamento, no país do respeitinho, do meter para dentro, do “antes sermos obscuros que falarmos das coisas com à vontade”, de repente havia canções como “Homem do Leme” e “Conta-me Histórias”. E este é mesmo um caso de antes e depois — há um antes e depois dos Xutos, um antes e depois de Cerco.

Que outra banda teria cantado “A carga pronta e metida nos contentores, adeus ó meus amores, que me vou para outro mundo”. Quem mais faria um “Quero Mais”, em que o rock’n’roll era a compensação por tudo, maus empregos, vida de merda, tudo? E talvez tenha sido isso que os fez manterem-se no coração das pessoas, mais que uns GNR, por exemplo: o povo identificou-se com eles e eles nunca se afastaram das suas raízes — basta pensar em canções como “Dia de São Receber”.

Numa entrevista antiga, Zé Pedro dizia ao Blitz que quando fazia solos parecia um gato a miar -- razão pela qual desistira de tentar e apostara tudo no ritmo; e basta ouvir ao que ele faz em "À Minha Maneira" para percebermos isso: ele pura e simplesmente empurra a canção rumo ao suor.

Há nos Xutos uma qualquer ética rara, que os obrigava a fazer CANÇÕES: com intensidade, paragens e arranques, gritos, duas guitarras em duelo, grandes refrões. Zé Pedro não era um exímio guitarrista técnico, não fazia coisas complicadas — mas tinha um sentido de ritmo e de tensão raros. Para usar uma metáfora de um comentador de futebol, ele e Kalu eram a casa de máquinas das canções dos Xutos.

Numa entrevista antiga, Zé Pedro dizia ao Blitz que quando fazia solos parecia um gato a miar — razão pela qual desistira de tentar e apostara tudo no ritmo; e basta ouvir ao que ele faz em “À Minha Maneira” para percebermos isso: ele pura e simplesmente empurra a canção rumo ao suor. A ginga que a gente sente? É ele e o Kalu, ali no meio campo, com a equipa às costas. É que antes de ser músico Zé Pedro era um punk no vestir e na atitude, mas antes de ser punk era um consumidor de música. E continuou a sê-lo pela vida fora — nunca deixou de ouvir o que saía, de ler o que se escrevia. Até porque foi por aí que ele começou: a escrever sobre música e a passá-la na rádio. E portanto sabia o que uma canção precisava — e a canção rock precisa de fazer suar.

A vida de Zé Pedro em imagens

Talvez tenha sido essa ética, essa vontade de fazer canções tão boas quanto as que conhecia aos Pistols e aos Clash — e mantenho que são e ando à pancada com todo e qualquer caramelo que ouse insinuar que não — que conduziu os Xutos de minúsculas salas na Amadora aos Coliseus, que institucionalizou os punks, e isto apesar de certos comportamentos que o país não aceitava bem, como a dependência de heroína, ali na década de 80.

Este era um assunto acerca do qual ele nunca fugiu. Porque — e isto é uma impressão que muitas pessoas confirmam — este era um tipo desempoeirado, em cujo vocabulário não havia palavras como culpa ou pecado. Falava de tudo, com um à vontade danado. Certa manhã, tendo uma entrevista com ele depois de almoço, ligou-me para saber a hora certa e, estando eu a entrar num restaurante para almoçar e estando ele perto, veio ter comigo e ali comemos. Não havia agentes, relações públicas, o diabo a quatro a controlar ou a dizer isto ou aquilo. A conversa durou quase até ao fim da tarde, sempre a falar de música, de rock, de riffs, de histórias do rock, de mitologias do rock.

Não podia parar, não sabia parar

E creio que esta alegria de estar vivo, este amor à música, foi fundamental para ele se ter tornado na figura gigante que agora tento, impotente, homenagear: primeiro como fornalha que alimentou a ambição dos Xutos, uma banda que não aceitava outra coisa senão grandes canções e palavras simples; depois essa generosidade ajudou a institucionalizar os Xutos. A partir de certo momento Zé Pedro tornou-se uma espécie de divulgador, de conhecedor de rock que mais que mostrar sabedoria queria partilhar os seus achados.

Em 2001 foi operado de urgência ao esófago e pouco depois estava de volta aos palcos. Porque o rock não pode parar -- mas não pode parar porque há um público que precisa, que gosta das tuas canções, para quem as tuas canções são importantes.

Julgo que essa alegria, esse amor à música se começaram a notar quando ele se tornou uma figura pública com impacto na cultura nacional, uma figura pública, por assim dizer, presente. E creio que o país acreditou que aquela figura que surgia nas entrevistas, que apresentava programas de TV e de rádio era antes de mais um tipo com um coração imenso que, se pudesse, ia todas as aldeias mostrar um riff às velhinhas.

E percebeu que ele passou uma vida toda a danar-se todo por dar de volta o que havia recebido. Exemplo: em 2001 foi operado de urgência ao esófago e pouco depois estava de volta aos palcos. Porque o rock não pode parar — mas não pode parar porque há um público que precisa, que gosta das tuas canções, para quem as tuas canções são importantes.

Devo ter-me esquecido de coisas verdadeiramente importantes, de factos. Fiquemo-nos só com este: hoje, em cada testemunho que li, do gajo que uma vez abriu para ele ao tipo que conheceu um dia no bar de província, toda a gente usou a mesma palavra: bacano. E como se diz adeus ao tipo que a cada passo celebrava esta coisa difícil mas boa de estar vivo? Como se diz adeus ao gajo que guiou a nossa adolescência? Como se diz adeus ao maior bacano? Talvez citando uma que ele gostava:

Hey, hey, my, my, rock’n’roll will never die

Adeus, maior.

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