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Fact Check

O governo grego baixou o salário dos ministros em 30%?

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Em maio, uma página partilhou a informação de que os salários dos ministros gregos tinham tido um corte de 30% e pediu o mesmo para Portugal. Pormenor: corte foi em 2012, em pleno resgate da troika.

A frase

“Governo grego baixa salários dos ministros em 30 por cento. Se gostavas que fizessem o mesmo em Portugal partilha.”

— Página de Facebook Coletes Amarelos na Luta, 1 de maio de 2019


A publicação foi feita a 1 de maio de 2019 e rapidamente chegou às 262 partilhas. A montagem juntava a alegação de que a Grécia tinha cortado o salário dos seus ministros em 30% com o rosto de um homem, não identificado. Nela, pedia-se ainda que fosse feito o mesmo em Portugal.

O homem da fotografia é Antonis Samaras, que foi, de facto, primeiro-ministro do governo grego e que aplicou, de facto, esse corte de 30% nos salários dos seus ministros. Aliás, os ordenados dos políticos gregos chegaram a ter um novo corte posterior, de 15%. Mas a imagem não conta toda a história: o primeiro corte foi aplicado há sete anos, foi acompanhado de cortes em muitas outras áreas da sociedade grega — ou não estivesse o país sob domínio da Troika, a propósito de um dos três resgates financeiros que pediu — e Samaras já não é primeiro-ministro da Grécia.

Vamos então aos factos.

Os salários dos ministros foram de facto cortados em 30% — mas foi em 2012

Antonis Samaras tinha ganho a eleição poucos dias antes quando fez o anúncio dos ditos cortes de salário, no seu primeiro Conselho de Ministros. “Temos que fazer a diferença desde o início e é isso que vamos fazer e esse é o nosso primeiro compromisso”, disse Samaras aos seus colegas, de acordo com o jornal grego To Vima. “As pessoas são o nosso chefe e o nosso objetivo é servir.” Assim sendo, o primeiro-ministro não hesitou: redução de 30% no seu salário e no salário dos restantes ministros, bem como uma restrição no número de carros utilizados pelo governo.

Três meses depois, Samaras reforçaria em público o mérito da medida, defendida internacionalmente numa entrevista ao Washington Post: “Baixámos os salários de todos os políticos, do Presidente ao primeiro-ministro, passando pelos deputados. Cortámos nas despesas parlamentares. Toda a gente sabe que somos sérios.”

O problema? Estas medidas não foram tomadas recentemente. Estávamos em junho de 2012 quando Samaras fez aquele anúncio ao seu Conselho de Ministros, há quase sete anos. E a decisão era uma forma de dar o exemplo, num país que já ia no seu segundo resgate financeiro em dois anos (e que ainda viria a ter um terceiro) — ou seja, num país afetado por cortes em múltiplas áreas, que afetavam a maioria dos cidadãos.

Antonis Samaras esteve no poder apenas três anos. A austeridade que aplicou sob as instruções da Troika contribuiu para que perdesse as eleições de 2015, que deram a vitória a Alexis Tsipras, num terramoto político que viu o partido de extrema-esquerda SYRIZA reclamar vitória e quebrar a hegemonia de Nova Democracia (centro-direita, partido de Samaras) e PASOK (centro-esquerda).

Tsipras viria, ele próprio, também a aplicar cortes, já no poder. Incluindo aos salários dos ministros, que tiveram nova talhada em agosto de 2015, com 15% a menos nos ordenados. “O sistema político deve responder aos sentimentos da sociedade”, declarou o primeiro-ministro. Contudo, não há notícia de qualquer corte de salários ministeriais em 2019 ou até em 2018.

Cortes nos políticos? Sim, mas acompanhados de cortes em salários e pensões de toda a população

As medidas são verdadeiras, é certo, embora haja confusão sobre quem as levou a cabo e quando. Mas tudo isto tem pouca relevância se não tivermos em conta o contexto. A Grécia teve três resgates financeiros ao longo dos últimos anos. A austeridade que foi aplicada nestes períodos, também pelos dois primeiros-ministros em causa, incluiu medidas como cortes no salário mínimo, nos salários dos funcionários públicos e nas pensões, a par de um desemprego galopante e de um impacto concreto no poder de compra e qualidade de vida dos gregos.

O corte dos salários dos ministros em 30% foi aplicado já depois de o governo anterior ter aplicado um corte de 22% no salário mínimo, por exemplo, passando dos 750€ por mês para 585€. Já o governo de Samaras, que aplicou a redução dos 30% nos ordenados ministeriais, foi o mesmo que, um ano depois, propôs um plano para a função pública, no qual 25 mil funcionários seriam colocados num programa com salários reduzidos.

Os executivos anteriores e o de Samaras, em plenos resgates financeiros, foram reduzindo as pensões. E também com Alexis Tsipras, que se tinha comprometido a não tocar nas reformas, o terceiro resgate em 2015 só foi autorizado em troca de cortes nas pensões e outras medidas austeras. No ano seguinte, o Executivo do SYRIZA proporia uma redução de três mil milhões de euros nas pensões, ao longo dos três anos seguintes. Ao todo, estima-se que as reformas dos gregos tenham encolhido em média 40%, de 2010 a 2017. Alguns estudos falam mesmo em 70% de redução.

Independentemente de se considerar que estas medidas de austeridade eram ou não necessárias, certo é que foram aplicadas por vários governos de diferentes partidos, num contexto de recessão económica. O desemprego atingiu níveis recordes, chegando aos 27,5% em 2013 (um ano depois do corte nos salários dos ministros), de acordo com dados da OCDE. Portugal, nessa mesma altura, tinha um desemprego também elevado, mas quase 10% inferior ao registado na Grécia. E o impacto das medidas fez-se sentir no dia-a-dia dos cidadãos: a taxa de privação material severa — que dá conta da percentagem de população que tem falta de, pelo menos, quatro dos nove indicadores usados para medir a privação material, como a capacidade de ter uma refeição de carne ou de peixe, pelo menos, de dois em dois dias, ou de pagar o aquecimento da casa — chegou aos 22% nos anos de 2015 e 2016. Em Portugal, o nível mais alto que atingiu no pico da crise (2013) foi 10%. Os dados são do Eurostat.

Em 2012, na mesma entrevista em que Samaras se gabou de ter cortado os salários dos ministros ao Washington Post, o próprio primeiro-ministro grego admitia o impacto tremendo que a austeridade estava a ter no país e o facto de esta ir para lá dos bolsos dos políticos: “Já estamos a cortar tudo até ao osso. A não ser que haja luz ao fundo do túnel, fico muito preocupado.”

Conclusão

A página dos Coletes Amarelos em Luta desejou para Portugal o mesmo corte dos salários dos ministros gregos, de 30%. O dado está correto: esses salários foram, de facto, alvo desse corte. Aliás, até sofreram um corte subsequente de 15%.

O problema está na falta de contexto. Esse corte inicial de 30% ocorreu em 2012 — como a montagem deixava adivinhar, ao ilustrar a medida com o rosto de Antonis Samaris (líder de 2012 a 2015), embora não o identificando — e não recentemente.

Para além disso, a montagem também não explica o contexto de austeridade e resgate financeiro em que foram feitos esses cortes. Ao pedir a mesma medida para Portugal, os Coletes Amarelos portugueses não deixam claro se também gostariam que eles fossem acompanhados das mesmas medidas medidas de austeridade que foram aplicadas na Grécia.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Enganador

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

MISTO: As alegações do conteúdo são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

O Observador é signatário e entidade verificada pelo International Fact-Checking Network (IFCN)
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