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São precisas mais orquestras como esta

11 jul. 2023, 17:10
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A Música na Minha Cabeça

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Fotografia de Martim Sousa Tavares
Martim Sousa Tavares
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Música contra a ignorância

Falar da West-Eastern Divan Orchestra é um pouco como contar a história da civilização do norte global: juntam-se um argentino-israelita (Daniel Barenboim) e um palestiniano-americano (Edward Said) e o resultado é, em 1999, o nascimento desta orquestra que afirma, a todo o custo, não ser um projecto político. E passado quase um quarto de século, eis que a Europa vai precisar da sua própria West-Eastern Orchestra.

São duas mentes ímpares as que estão por detrás desta ideia: Daniel Barenboim é o pianista prodígio, depois tornado maestro. O jovem marido apaixonado de Jacqueline du Pré, cujo casamento de vinte anos o ligou até à morte prematura da violoncelista britânica. O subsequente conquistador dos palcos e dos pianos. O poliglota, o globe-trotter, o pedagogo e, por fim, o embaixador da paz. Várias vezes nomeado à boca pequena para o Prémio Nobel da Paz, não há orquestra que não tenha dirigido nem peça que nunca tenha tocado.

Já Edward Said foi um intelectual de altíssima craveira, autor de vários livros, entre os quais Orientalismo, texto fundamental para compreender e re-situar o ponto de vista no que toca à relação do ocidente com o oriente e vice-versa. Agitador pela causa da Palestina, é pai dos estudos pós-coloniais, cujo departamento criou na prestigiada Universidade de Columbia, nos EUA.

A premissa de ambos era simples: uma orquestra, com o mais alto nível artístico, que congregasse jovens músicos de Israel e dos países árabes do médio oriente, mas também do Irão, para provar que a concórdia e a amizade são possíveis entre os povos, como a música pode bem demonstrar. A orquestra toma o nome de uma colectânea de poemas de Goethe, e é sob esta alçada iluminista que rapidamente começou a somar prémios e reconhecimentos pelos méritos em prol do entendimento entre os povos.

Nas palavras do próprio Barenboim, no entanto, este teima em não ser um projecto político. Pelo menos não no sentido em que entendemos a política, feita por políticos, dominada por partidos e agendas em circuito fechado. É, sim, um projecto político se entendermos a política como uma forma de estar, uma manifestação da cidadania.

Eis o que é a orquestra, segundo as palavras do próprio maestro:

“Não é uma história de amor nem de paz. Tem sido muito elogiosamente descrito como um projecto para a paz, mas não o é. Não vai haver paz caso estes jovens toquem bem ou menos bem. A orquestra é um projecto que foi concebido contra a ignorância. Um projecto que sublinha o facto de que é absolutamente essencial que as pessoas se conheçam, se entendam e saibam o que pensam e sentem entre si, sem terem necessariamente de estar em acordo. Não estou a tentar convencer os músicos árabes a partilhar o ponto de vista israelita nem os israelistas a partilhar o ponto de vista árabe. O que quero é criar uma plataforma onde ambos os lados possam estar em desacordo sem ser preciso recorrer a armas.”

A sede actual da orquestra é em Sevilha, onde todos os verões se juntam músicos de países como o Egipto, Irão, Israel, Palestina, Jordânia, Líbano ou Síria, mas também espanhóis, claro, ou não se estivesse numa das cidades com maior cruzamento histórico de culturas entre as religiões e tradições muçulmana, cristã e hebraica.

Entretanto, a visão dos dois criadores produziu ainda uma academia, a Barenboim-Said Akademie, em Berlim, dedicada ao ensino musical ao mais alto nível para alunos das mesmas proveniências geográficas, e produziu também um livro de ensaios, Paralelos e Paradoxos, Reflexões sobre Música e Sociedade, publicado em 2002, alguns meses antes da morte de Said.

O que é certo é que a orquestra, sozinha, não parou as guerras nem travou os atritos israelo-árabes. Nunca o poderia fazer, como de resto Barenboim tão eloquentemente sublinha. Segundo uma reportagem no The Guardian de 2008, há músicos israelitas que apenas se juntam a esta orquestra pelo privilégio de poderem tocar com Barenboim, preferindo abster-se do diálogo e confrontação de ideias com os colegas músicos da Palestina. É inevitável que, uma vez ali dentro, aquele grupo de pessoas espelhe os princípios e ensinamentos que trazem de casa. No entanto, o bem que já fez, em 24 anos de actividade, é totalmente merecedor do respeito e confiança que tem recebido por parte de governos, instituições e salas de concerto, das Nações Unidas ao Vaticano, da Philarmonie de Berlim ao Teatro Colón em Buenos Aires.

De resto, a luta contra a ignorância é de facto a bandeira certa para uma orquestra como esta. Porque, como uma vez vi comentar o cardeal José Tolentino Mendonça, não há guerra que não esteja fundada na ignorância.

Em Sevilha, a orquestra desenvolve vários projectos pedagógicos e em comunidade. Os seus músicos vão crescendo e assumindo posições noutras orquestras. Tornam-se professores, profissionais em vários pontos do mundo e, com sorte, devolvem um pouco daquilo que receberam enquanto jovens neste coletivo. No fundo, é só isto que se pede. Tanto e tão pouco.

Na Europa, parece-me cada vez mais evidente que está na hora de surgir uma, duas, três, cinquenta orquestras assim. Não apenas para juntar jovens russos e ucranianos, separados pela mais fratricida, ignóbil e ignorante guerra, mas também de todos os países balcânicos, da Europa de leste e central. A animosidade que os estados bálticos sentem em relação aos russos está em níveis recorde. A atitude que a Sérvia demonstra para com a Europa central é de crescente desprezo. A Hungria parece não saber que jogo jogar e a Bielorrússia é um país-fantoche. Se, por algum raio de iluminação fosse possível, uma vez terminada esta guerra — porque, como todas as guerras, também esta acabará — juntar estes jovens e simplesmente pô-los a tocar música juntos, isso já seria um grande feito político, se bem que meramente artístico.

A política tem, realmente, de sair fora de portas e estar na vida de todos, através de atitudes cívicas que constroem o mundo em que vivemos. É por isso que as orquestras podem ser um potente aliado na causa democrática. Em Portugal, temos projectos de maior escala, como a Orquestra Geração, excelente exemplo da democratização da cultura e de equidade social, ou projectos locais, como a Orquestra dos Navegadores, uma iniciativa conjunta da Orquestra de Câmara Portuguesa e do município de Oeiras, desenvolvida no Bairro dos Navegadores. Ou ainda projectos localizados e em menor escala, como a Cértima Orquestra, de Oliveira do Bairro, que integra imigrantes numa experiência musical agregadora e colectiva. Sem querer puxar a brasa à minha sardinha, não posso deixar de referir a Orquestra Sem Fronteiras, de que sou fundador, que actua no interior do país e em acção transfronteiriça, juntando jovens da raia ibérica dos dois lados da fronteira e que em 2022 venceu o Prémio Carlos Magno para a Juventude, uma iniciativa do Parlamento Europeu que visa, precisamente, premiar organizações jovens que promovem os valores de união na Europa.

Quando, em Maio de 2022, recebi na Alemanha o prémio das mãos de Katarina Barley, vice-presidente do Parlamento Europeu, esta referiu no seu discurso algo parecido com aquilo que tenho estado aqui a reforçar: a política não é para ser exercida apenas por políticos. A música pode dar disso exemplo e é um passo em frente no reconhecimento de que, tal como todos temos a nossa pegada carbónica, também temos uma pegada política e uma pegada cultural. Somos responsáveis pelo nosso metro quadrado, independentemente daquilo que fazemos como profissão.

E eu, enquanto maestro, músico e cidadão, quero é ver mais orquestras como estas na Europa e no mundo fora.

Martim Sousa Tavares desenvolve uma atividade múltipla em prol da música clássica e da cultura. Dirige orquestras, é autor de programas na televisão, na rádio e em podcast, escreve música e sobre a música e realiza conferências [ver o perfil completo].

 

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