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Tiroteios e estatísticas. Primeira paragem: Chicago, onde a criminalidade é o tema número um

17 set. 2024, 19:41
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Até à Casa Branca

terça, 17 set. 2024
Fotografia de Cátia Bruno
Cátia Bruno
Editora de Internacional
Foto da Newsletter

Tiroteios e estatísticas. Primeira paragem: Chicago, onde a criminalidade é o tema número um

“O crime neste país disparou!” Donald Trump referiu-se assim ao tema da criminalidade no debate da semana passada contra Kamala Harris, o que lhe valeu um reparo de um dos moderadores: “Presidente Trump, como sabe, o FBI diz que a taxa de criminalidade geral está a descer neste país.” A resposta do candidato republicano foi a de que o organismo está a “falsear as estatísticas”: “Eles não incluem as piores cidades.”

Uma das “piores cidades” frequentemente invocadas por Trump como exemplo de elevada criminalidade é Chicago, no estado do Illinois, o ponto de partida da nossa viagem pela famosa Route 66 que atravessa a América. Ao longo das próximas semanas e até ao dia da eleição presidencial (a 5 de novembro), em cada uma das newsletters “Até à Casa Branca” o Observador fará paragens por várias cidades norte-americanas que são atravessadas por esta estrada. Em cada uma, olharemos para um tema que marca esta campanha.

A “Cidade Ventosa”, nome pelo qual é conhecida a cidade de três milhões de residentes, é a terceira maior do país. A sua população é diversa: é composta por cerca de um terço de afro-americanos, um terço de caucasianos e um terço de hispânicos. É uma cidade claramente pró-democrata, elegendo frequentemente autarcas mais à esquerda e votando consistentemente nos nomeados presidenciais do Partido Democrata.

Nas estatísticas nacionais, não é sequer a cidade com a maior taxa de criminalidade; Nova Orleães e St. Louis, em estados que são bastiões do Partido Republicano, estão acima, por exemplo. Mas Chicago é frequentemente apontada como um exemplo grave no que diz respeito à segurança, devido à sua alta taxa de homicídios. E é também destacada uma e outra vez por Trump como exemplo de caos: “É pior do que o Afeganistão. É pior do que uma zona de guerra”, chegou a dizer quando ainda era Presidente, em 2020.

O desmentido ao candidato feito no ar durante o debate tem por base os dados mais recentes do FBI, que mostram uma descida acentuada da criminalidade a nível nacional no último ano quando comparada com o último ano de mandato de Trump.

E os democratas têm tentado dar visibilidade a esses números: ainda em abril, o procurador-geral Merrick Garland foi precisamente a Chicago para se gabar das estatísticas, destacando a descida de 13% de todo o tipo de crime nesta cidade.

Mas os números não explicam tudo. Apesar das estatísticas oficiais, o tópico da criminalidade e segurança é aquele que continua a mais preocupar os habitantes de Chicago. Uma tendência que é nacional e histórica. Desde 1993 que em 85% de todas as sondagens da Gallup os norte-americanos dizem achar que o número de crimes aumentou quando comparado com o ano anterior — mesmo quando os números dizem o contrário. Como explicar esta aparente contradição? E que impacto pode essa sensação ter nesta eleição?

Em relação à primeira pergunta, foi claramente respondida em julho pelo especialista em justiça criminal da Universidade Loyola, em Chicago, à televisão local WTTW: “Muitas vezes, o que importa às pessoas não são os dados oficiais sobre a criminalidade. É como elas sentem as coisas ou se apercebem delas.”

Ou seja, quando toca a criminalidade e insegurança, o reflexo político é sempre uma questão de perceção. “A criminalidade [em Chicago] está a descer há três décadas. Mas digam isso às pessoas que vivem em Highland Park depois do tiroteio do 4 de julho e elas vão dizer que vocês são loucos”, acrescentou o professor.

Olson referia-se a um dos crimes mais violentos do último ano. Durante o fim de semana do feriado nacional, um homem de 21 anos disparou sobre a multidão que assistia à parada do Dia da Independência. Ao longo desse fim de semana, registaram-se vários crimes com armas: ao todo, 109 pessoas foram atingidas a tiro nesses dias, em diferentes atos criminosos. Acabaram por morrer 19, entre elas uma criança de oito anos.

As soluções políticas para resolver a questão não são simples. Para Donald Trump, o aumento de criminalidade percecionado (embora não sustentado pelas estatísticas) está ligado a um aumento da imigração, propondo que seja barrada a entrada no país aos estrangeiros.

À esquerda, quando o tema da criminalidade surge na discussão pública, é frequentemente ligado ao slogan “Defund the Police” (“retirem os fundos à polícia”), que se popularizou na sequência dos protestos contra a morte do afro-americano George Floyd por um polícia. Mais um exemplo da complexidade do tema que, se para muitos republicanos, como Trump, parece estar ligada à imigração, à esquerda muitos consideram ter tudo a ver com questões de desigualdade racial.

Inicialmente, Kamala Harris mostrou-se favorável a esta proposta. Quando era candidata às primárias democratas em 2020, Harris declarou numa entrevista que os manifestantes tinham razão, porque enquanto a polícia é recorrentemente “militarizada”, as escolas públicas vão “perdendo fundos”. Desde que se tornou vice-presidente de Joe Biden, contudo, Harris alinhou sempre com a política oficial da administração Biden: não reduzir o financiamento à polícia, mas sim aumentá-lo tanto quanto os fundos destinados a áreas como a educação e os projetos comunitários.

O debate cristalizou-se na eleição para a presidência da Câmara de Chicago, em 2023, quando os dois principais candidatos (ambos do Partido Democrata) defenderam visões radicalmente diferentes sobre o tema: Paul Vallas, mais ao centro, projetou uma mensagem de “lei e ordem” e obteve votos até de eleitores pró-Trump; Brandon Johnson, mais à esquerda, chegou no passado a defender abertamente o slogan “Defund the Police” e acabou por vencer numa cidade tradicionalmente mais à esquerda.

Mas o país não é todo igual a Chicago. E, mais uma vez, a perceção nem sempre corresponde aos números. No orçamento da cidade para 2024, o departamento de polícia não viu o seu financiamento reduzido; pelo contrário, foi reforçado em mais 91 milhões de dólares. Ao todo, a autarquia gasta agora quase dois mil milhões de euros por ano com as forças policiais locais, muito acima de outras grandes cidades como Nova Iorque ou Los Angeles.

O que aconteceu esta semana?

  • Donald Trump é alvo de nova tentativa de assassinato

Depois de ter sido atingido a tiro numa orelha num comício em julho, na cidade de Butler (Pensilvânia), o antigo Presidente Donald Trump voltou a ser alvo de uma tentativa de assassinato, de acordo com o FBI. Tudo aconteceu este domingo, num dos campos de golfe de Trump, na Florida.

Um agente do Serviço Secreto (agência responsável pela segurança de Presidentes e ex-Presidentes) detetou um homem armado entre a vegetação que teria a mira apontada ao candidato. Era Ryan Wesley Routh, que acabaria por ser detido nas horas seguintes.

O caso relançou o debate sobre as possíveis falhas de segurança do próprio Serviço Secreto e o Presidente Joe Biden apressou-se a anunciar um reforço de meios da equipa que acompanha Trump ao longo desta campanha. Mas, desta vez, a retórica política subiu de tom, ao contrário do que tinha acontecido em julho. Se à altura Trump quis sublinhar uma mensagem de unidade contra a violência política, desta vez culpou os democratas pelo ataque, dizendo que estão a levar a política no país “a um novo nível de ódio”.

  • Kamala Harris corteja o voto dos Teamsters, o sindicato mais à direita 

A candidata democrata reuniu-se esta segunda-feira com representantes da International Brotherhood of Teamsters, um dos maiores sindicatos do país — e o que está mais alinhado ao centro, contando com vários membros republicanos.

Os relatos que saíram da reunião foram de que terá sido “tensa”. “Quero o vosso apoio, mas, se não o tiver, vou tratar-vos exatamente da mesma forma como se o tivesse tido”, terá dito Kamala Harris, segundo testemunhas presentes na reunião.

Não está ainda excluída a possibilidade de isso acontecer. Na sequência da reunião, o presidente Sean O’Brien (que esteve no comício do Partido Republicano em julho) afirmou que, se o sindicato decidir apoiar algum dos candidatos, irá anunciá-lo a partir desta quarta-feira.

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o que se escreve lá fora

Do Voters Have Trumpnesia?
Mother Jones
Federal Debt Is Soaring. Here’s Why Trump and Harris Aren’t Talking About It
Wall Street Journal
Is There More to JD Vance’s MAGA Alliance Than Meets the Eye?
Politico Magazine
Republicans Should Go from Trump’s ‘Concepts’ to Plan on Health Care
National Review
The never-Trump movement has leaders. What about followers?
The Economist
Trump called for ‘unity’ after the first assassination attempt. Not this time
Politico
Trump joins the crypto boom. Will he or Harris also regulate it?
Christian Sciente Monitor
When Political Memes Take on a Lie of Their Own
The New York Times
Why these 3 states are the most consistent tipping point in American politics
CNN

agenda para a semana

17 de setembro

Dia Nacional de Registo de Eleitores
Kamala Harris visita Associação de Jornalistas Negros, em Filadélfia (Pensilvânia)
Tim Walz participa em evento em Asheville, Carolina do Norte
JD Vance discursa em Eau Claire, Wisconsin
Encontro de Donald Trump com eleitores em Flint, Michigan

18 de setembro

JD Vance em evento em Raleigh, Carolina do Norte
Comício de Donald Trump em Unionsdale, Nova Iorque

19 de setembro

Comício virtual com Kamala Harris e Oprah Winfrey

20 de setembro

Visita de Kamala Harris a Madison, Wisconsin

21 de setembro

Comício de Donald Trump em Wilington, Carolina do Norte
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