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Gaza e a Ucrânia. Oitava paragem: Los Angeles e como a política externa pode afetar a eleição

04 nov. 2024, 19:59
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Até à Casa Branca

segunda, 04 nov. 2024
Fotografia de José Carlos Duarte
José Carlos Duarte
Foto da Newsletter

Gaza e a Ucrânia. Oitava paragem: Los Angeles e como a política externa pode afetar a eleição

Imensos estudantes em tendas. Protestos e até distúrbios nos campus. Nas melhores universidades dos Estados Unidos da América (EUA), milhares de jovens protestaram contra o apoio militar norte-americano a Israel. As autoridades norte-americanas detiveram mais de três mil alunos entre abril e maio, mas as manifestações acabaram por se estender a outras partes do Ocidente, num gesto de defesa à causa palestiniana.

O assunto ganhou inevitavelmente mediatismo. O Presidente Joe Biden, e na altura candidato à Casa Branca, tentou acalmar os ânimos, assinalando que existe o “direito aos protestos”, mas não o “direito de criar caos”. Donald Trump foi bastante mais crítico, prometendo acabar imediatamente com aqueles protestos. Mas nenhum colocou sequer em causa terminar com o apoio dos Estados Unidos a Israel.

Em cidades mais progressistas dos Estados Unidos, as que concentram o maior número de população que professa o islamismo, têm sido lançadas várias críticas à administração Biden pelo fornecimento sem limites de armamento a Israel. É num desses locais que o Observador faz a sua oitava paragem pela Route 66: Los Angeles, na Califórnia.

A Califórnia, Estado natal de Kamala Harris, é hoje um bastião democrata. Desde as vitórias de Ronald Reagan e George Bush pai, os republicanos nunca mais venceram as presidenciais aqui. Aliás, a diferença foi aumentando ao longo das décadas. Enquanto Bill Clinton em 1992 obteve 46%, Joe Biden angariou, 28 anos depois, 63% dos votos. Assim, os eleitores muçulmanos, por muito que estejam frustrados com a gestão do conflito na Faixa de Gaza, não terão qualquer impacto no resultado californiano.

A situação é diferente em outras partes do país, principalmente nos swing states. O Michigan é o exemplo mais paradigmático. Com 2,1% de população muçulmana, esta minoria pode decidir se é Kamala Harris ou Donald Trump quem sai vitorioso no Estado. “Em estados como o Michigan, a Pensilvânia ou o Wisconsin, em que as eleições foram decididas por uma margem pequena em 2016 e 2020, mudanças modestas no eleitorado podem ter um impacto enorme”, afirmou à Newsnow Chris Borick, professor de Ciência Política na Universidade de Muhlenberg.

Tipicamente, o eleitorado muçulmano vota no Partido Democrata. Em 2024, existe o risco de isso não acontecer por causa da gestão da guerra em Gaza. “Há um segmento da população nesses Estados em que o assunto é muito importante”, continua Chris Borick. E não é que haja uma transferência de voto desses eleitores para os republicanos, já que o partido de Donald Trump ainda é mais vocal no seu apoio a Israel. Mas os eleitores preferem abster-se ou votar num terceiro candidato, o que acaba por ser uma vantagem para o Partido Republicano.

“A eleição presidencial deverá ser renhida, como têm sido as últimas. O sucesso de um candidato vai depender, em larga medida, da taxa de participação”, corrobora Michael Traugott, professor de Ciência Política na Universidade do Michigan, à Newsnow, acrescentando que quem está contra a política da administração Biden não deverá votar em Trump. Porém, “podem ficar em casa e isso causar um efeito na proporção dos votos”.

Ciente desta possível perda do eleitorado, a democrata tem-se desdobrado em apelos para um cessar-fogo em Gaza e no Líbano, assim como tem defendido a solução de dois Estados. Numa das últimas ações de campanha na Universidade do Michigan este domingo, Kamala Harris reconheceu que o último ano tem sido “difícil” para a comunidade árabe-americana, por causa da “escala da destruição em Gaza”.

“É devastador e, como Presidente, farei de tudo ao meu alcance para acabar com a guerra em Gaza, para trazer os reféns de volta a casa, terminar o sofrimento em Gaza, assegurar que Israel está seguro e o povo palestiniano pode concretizar o seu direito à dignidade, liberdade, segurança e autodeterminação”, frisou Kamala Harris. O discurso é equilibrado e tenta conjugar o desejo securitário israelita com a aspiração da independência do Estado Palestiniano.

Se isso agrada aos eleitores de centro, talvez seja menos cativante para os mais progressistas. Muitos democratas da ala esquerda demonstram insatisfação com as políticas da administração Biden em relação a esse assunto, da qual Kamala Harris faz parte. Um dos representantes da fação mais à esquerda, o senador Bernie Sanders, até gravou um vídeo a apelar ao voto, mesmo que se “discorde da posição” da candidata presidencial na guerra de Gaza.

Com Donald Trump, o discurso é menos crítico das ações de Israel. Um especialista israelita em política norte-americana, Shmuel Rosner, considera, em declarações à NPR, que, caso o republicano vença as eleições, Israel “vai sentir-se mais livre” para levar prosseguir a guerra “da maneira que quer”. Por isso, é difícil que os eleitores muçulmanos estejam tentados a votar no Partido Republicano.

Há outro assunto na política externa que também pode levar à perda de votos — mas afeta mais Donald Trump do que propriamente Kamala Harris. A questão ucraniana. O antigo Presidente prometeu que vai terminar com a guerra da Ucrânia em 24 horas, não precisando de que forma o vai fazer. Isso, juntamente com alguns elogios que tem feito a Vladimir Putin, indicam que o magnata poderá obrigar Kiev a fazer cedências territoriais, terminando o conflito com uma vitória para a Rússia.

No debate a 10 de setembro entre Kamala Harris e Donald Trump, que decorreu na Pensilvânia, a democrata aproveitou para questionar: “Porquê é que não diz aos 800 mil norte-americanos com origem polaca na Pensilvânia o que rapidamente cederia [na Ucrânia] em favor do que pensa ser uma amizade com um ditador que o comeria ao almoço?” Com este ataque, a democrata queria aproveitar-se do sentimento de animosidade face à Rússia que muitos polacos sentem e que se exarcebou após a guerra na Ucrânia.

Kamala Harris tem prometido, contrariamente ao adversário, manter o apoio militar e financeiro à Ucrânia. Já com Donald Trump, existem várias incógnitas, como assinala o analista político ucraniano Oleksandr Kovalenko ao New York Times: “Donald Trump é completamente imprevisível — de forma negativa ou positiva. Trump pode bloquear totalmente a ajuda à Ucrânia, ou pode de forma imprevisível tomar um posicionamento em que que ajuda a Ucrânia de uma forma que nem Joe Biden, nem Kamala Harris fariam”.

Se Donald Trump é mais imprevisível, o seu vice-presidente, JD Vance, é menos. Bastante crítico do auxílio norte-americano a Kiev, o número ‘dois’ dos republicanos não tem pudor em apoiar o seu fim e a defender que a Rússia deve manter os territórios ocupados na Ucrânia, sob condição de manter uma zona desmilitarizada.

Embora sendo um tema que está a ser olhado com grande atenção pelo resto do mundo, os eleitores norte-americanos não dão grande importância à política externa — e não será isso que, em princípio, definirá o seu sentido de voto. Uma sondagem da YovGov, publicada no final de outubro, mostra que apenas para 15% dos eleitores de Kamala Harris e 24% dos votantes em Donald Trump esse é o tópico que mais importa. Assuntos como a economia, a saúde, o crime, o ambiente e a educação são assuntos com maior peso no momento em decidir em que se vai votar.

Mas apesar de não ser um fator determinante para a maioria dos eleitores, para alguns, em particular os eleitores de origem muçulmana, o assunto pode definir se vão ou não votar. Em Estados como a Califórnia, essa dinâmica não tem relevância. Mas em swing states, em que todos os votos fazem a diferença, a gestão da política externa pode ser fulcral para a vitória de um dos candidatos.

O que aconteceu esta semana?

  • Kamala Harris distancia-se de Joe Biden — e faz questão de enfatizar que os eleitores do magnata não são “lixo”

Figura praticamente ausente da campanha democrata, Joe Biden cometeu uma gaffe que obrigou Kamala Harris a distanciar-se do atual Presidente. Numa entrevista em que defendeu os habitantes de Porto Rico após um comediante ter apelidado o território de “ilha flutuante de lixo” num comício de Donald Trump, o Chefe de Estado apelidou os apoiantes do republicano como “lixo”.

Tentando conter os danos e evitando que o adversário ganhasse um trunfo, Kamala Harris reagiu e disse “discordar totalmente” em destratar as pessoas com base em quem é que elas votam.

“No trabalho que faço tento representar todas as pessoas, quer me apoiem, quer não, e como Presidente dos Estados Unidos serei a Presidente de todos os norte-americanos, quer tenham votado em mim ou não”, disse Kamala Harris.

  • Donald Trump aproveitou a deixa, vestiu um colete e conduziu um camião

Para mostrar a sua indignação com os comentários de Joe Biden e aproveitando a onda mediática, Donald Trump conduziu um camião do lixo e vestiu um colete fluorescente numa ação de campanha. Depois, num comício, o republicano também vestiu a mesma indumentária.

No comício, Donald Trump fez questão de realçar que “250 milhões de norte-americanos não são lixo”. “Esta semana, a Kamala tem comparado os seus oponentes políticos aos mais malvados assassinos na História e, agora, o desonesto Joe Biden finalmente disse o que ele e Kamala pensam sobre os nossos apoiantes. Ele chamou-os de lixo”, disse o republicano.

“A minha resposta ao Joe e à Kamala é muito simples. Não se pode liderar a América se não se ama os norte-americanos. Não se pode”, sublinhou.

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Voting systems are targets of conspiracy theories, but get tested for accuracy
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RFK Jr. set for major food, health role in potential Trump administration
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How Trump's challenges to the 2020 election unfolded in the courtroom
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5 de novembro

Eleições presidenciais norte-americanas
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