Numa altura em que o sucesso das medidas preventivas se baseiam, em parte, na eficácia do isolamento dos infetados com o SARS-CoV-2, impedindo-se o contacto com as outras pessoas, a telessaúde está a tornar-se, em alguns casos, uma alternativa e noutros um complemento significativo da prestação de cuidados aos infetados, mas também à restante população, sobretudo os doentes crónicos.

A telessaúde constitui um conceito abrangente para definir formas de prestar serviços de saúde à distância onde se enquadra, por exemplo, a teleconsulta ou a telemonitorização. Em Portugal, um barómetro sobre telessaúde e inteligência artificial, apresentado pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares em meados de 2019, revelou que 87% dos hospitais do SNS e mais de metade das instituições disponibilizava teleconsultas e que apenas 25% dos hospitais do SNS tinham programas de telemonitorização.

Aparentemente, já existia uma boa base para alavancar a utilização destas ferramentas, mas havia barreiras à sua utilização, como a “baixa motivação na adoção da telessaúde por parte dos profissionais de saúde”, segundo reportou o mesmo barómetro. Neste momento, devido à COVID-19, o contexto atual assume-se como uma motivação extrínseca para recorrer à telessaúde e para fazer a triagem, avaliação e seguimento dos doentes com a Covid-19, assegurando a eficácia da intervenção clínica aliada à segurança dos profissionais de saúde ao mitigar o contacto pessoal.

E a distância pode ser relativa: alguns hospitais nos EUA estão a fazer videoconferência entre o suspeito de Covid-19 e o médico, que se encontram no mesmo hospital, mas em espaços distintos. Assim, a teleconsulta pode ser um canal de comunicação e de prestação de cuidados de saúde num contexto de transmissão comunitária do Sars-CoV-2, mas também para os outros utilizadores dos serviços de saúde, sobretudo os doentes crónicos, que fazem parte do grupo de risco e que devem manter-se em isolamento, e a quem é preciso dar cuidados assistenciais em continuidade.

Em resposta a esta necessidade, o sector privado (hospitais, seguradores, entre outros) tem, também, apresentado soluções de teleconsulta para os seus clientes porque estes reconhecem o valor da solução num cenário de estado de emergência, onde continuam a existir outras situações urgentes e emergentes para além da COVID-19.

Sabemos que para a população em geral a adoção destas novas tecnologias pode apresentar algumas dificuldades mas, também é verdade que, de acordo com o inquérito do INE sobre o uso de tecnologias de informação, publicado no final de 2019, a internet chega a 81% das casas e é usada por 76% da população residente em Portugal. Embora sejam valores altos, estão abaixo da média Europeia, o que pode ser uma limitação a curto-prazo embora este “choque exógeno” repentino fez-nos adaptar ao “novo normal” em que:

– Ferramentas como Skype, Teams, Zoom ou Facetime estão a ser utilizadas em larga-escala, em diferentes contextos, como no tele-trabalho e na tele-escola, e podem ser o “trampolim” para tornar a videochamada com o profissional de saúde muito mais fácil.

– Devido ao confinamento, estamos a “consumir” o canal online como nunca: desde a banca ao retalho, temos um maior acesso e predisposição para este canal, que já não era novo.

– Os smartphones têm uma elevada taxa de penetração em Portugal o que torna este dispositivo uma ferramenta disponível em muitos lares e um facilitador da saúde virtual.

No caso da telemonitorização, a situação é mais tímida. Recentemente, foi anunciado que o hospital Santa Marta iria iniciar a monitorização de doentes COVID-19 através de telemóvel e sensores específicos. Serão dez doentes com critérios clínicos para alta, mas ainda sem critérios de cura, o que implica um acompanhamento prolongado, no domicílio. Estes doentes necessitam de uma monitorização próxima, de forma a identificar precocemente alterações do seu estado de saúde e a telemonitorização assume uma relevância significativa permitindo, em tempo real, aceder à informação dos sensores, como por exemplo, o oxímetro ou o termómetro.

Não obstante a relevância desta tecnologia na COVID-19, e à semelhança da teleconsulta, não devemos esquecer os doentes com as outras doenças, sobretudo as crónicas, que necessitam de um seguimento frequente pelo médico, mas que também são de risco para a COVID-19, sendo prioritário inovar na prestação de cuidados nestas doenças, de forma a assegurar a acessibilidade aos cuidados de saúde, sempre que necessário. Aqui parece-me que é oportuno alavancar os programas de telemonitorização da doença crónica, sobretudo na insuficiência cardíaca e na doença pulmonar obstrutiva crónica, dada a sua elevada prevalência em Portugal e a importância do seguimento destes doentes, de forma próxima, com o objetivo de identificar precocemente as agudizações e permitir aos profissionais de saúde dar uma resposta, evitando a deslocação ao hospital, necessária em grande parte das agudizações, e assim evitar locais propícios a contágio com o Sars-CoV-2.

Nas últimas semanas já vimos que o contexto é altamente desafiador para todos nós mas, se tivermos a capacidade de explorar o que já fazemos em saúde digital em Portugal, podemos estar a iniciar uma nova era de prestação de cuidados com qualidade assistencial, acessibilidade e eficiência, encabeçada pela telessaúde.

João Tiago Pereira é Product & Business Development Manager na Linde Saúde