A cultura é o que nos distingue enquanto espécie. É o que nos permite criar, reagir, adaptar e imaginar. É também o que nos dá identidade – pessoal e coletiva. Um país sem cultura é um país sem espinha dorsal. E por isso, a forma como olhamos para a cultura diz muito sobre o que queremos ser.
Defendo que o papel do Estado na cultura deve ser estruturante, mas não paternalista. O Estado deve criar condições para que a cultura floresça: através da educação, do acesso, da valorização social. Mas não deve substituir o critério do público ou do mercado com subsídios mal distribuídos. Apoiar a cultura não é despejar dinheiro. É criar estrutura, exigência e valor.
Em Portugal, porém, a conversa anda sempre ao contrário. Discutem-se orçamentos, não estratégias. Fala-se de milhões, mas não de propósito. Em 2025, o orçamento da Cultura vai rondar os 824 milhões de euros, com reforços prometidos até 2029. Mas a pergunta essencial continua por fazer: o que estamos realmente a construir com este dinheiro?
O modelo dominante, alimentado por uma visão política que confunde apoio com dependência, continua a tratar a cultura como um setor frágil que precisa de proteção constante. E o resultado é previsível: mais dinheiro, menos critério. Mais ruído, menos valor.
Ser agente cultural não é um direito adquirido. É uma função que se conquista com qualidade, mérito e relevância. O teatro que enche salas, o livro que encontra leitores, o quadro que se vende – esses são sinais de valor. É o mercado, no sentido mais simples da palavra, que valida o trabalho cultural. Isso não significa submeter a cultura à lógica comercial, mas reconhecer que o interesse e a participação do público são a prova de vida de qualquer manifestação artística.
Há em Portugal uma tendência perigosa para confundir vontade com vocação. Nem todos os que dizem ser artistas o são. E o desemprego de um artista não é, por si só, um problema cultural do país. A cultura precisa de liberdade e de espaço para o talento, mas também de exigência. Sem essa exigência, perdemos a medida da qualidade.
É por isso que nomes como Vhils, Amália Rodrigues ou Daniela Ruah, entre tanto outros, são consensuais: o mercado valida, o Estado não atrapalha. E isso devia ser regra, não exceção.
O Estado deve ser o grande facilitador e educador cultural – aquele que garante que todos têm acesso, que promove a literacia artística e que cria condições para que o talento floresça. Mas nunca o substituto do mérito.
A cultura é, antes de tudo, o reflexo da nossa humanidade.
E talvez o maior desafio de Portugal não seja financiar a cultura, mas aprender a valorizá-la com critério, exigência e liberdade.