O meu filho mais velho chegou do 10.º ano com um exercício de matemática e pôs a folha de vencimento dos pais em cima da mesa. Queria aplicar o que tinha aprendido aos nossos ordenados.
Há trinta anos andávamos embrulhados em geometria e trigonometria. Hoje o programa traz impostos, folha de vencimento, segurança social, literacia financeira. Não digo que a geometria tenha sido tempo perdido, digo que a primeira coisa que a vida adulta nos pôs à frente foi um recibo de vencimento, e ninguém nos tinha ensinado a lê-lo. Acho a mudança muito pertinente, e o momento também, porque é trazer o mundo real, neste caso o financeiro, para o conhecimento empírico e académico. As percentagens, as proporções e as funções passam a servir para perceber o que nos descontam.
Percebo que haja quem discorde, e com todo o direito. Há quem ache que a escola deve ensinar a pensar e deixar o dinheiro para casa, e há quem tenha uma relação tão desconfortável com ele que prefere não falar do assunto, nem em casa nem na sala de aula. Numa altura de tanta polarização sobre a dimensão e a responsabilidade do Estado, percebo também porque há quem prefira que o tema não se domine. Mas o dinheiro fala-se de qualquer maneira. Um miúdo que não aprende o que ganha, o que paga e para onde vai, aprende da pior forma, com o primeiro ordenado e o primeiro erro, ou com quem lhe quiser vender alguma coisa. Ensinar-lhe finanças pessoais é dar-lhe a régua antes de ele ter de medir.
O que me surpreendeu foi o que veio a seguir. Ao ver a diferença entre o bruto e o líquido, o meu filho descobriu que o dinheiro tem um custo, e que parte desse custo se cobra antes de o vermos. Começou, de forma completamente orgânica, a perguntar para onde ia o dinheiro retido, como se media se estava bem aplicado e como funcionava a progressividade, ou seja, como as taxas sobem à medida que sobe o valor bruto. Depois de muitas perguntas tirou conclusões, umas ingénuas, outras bastante radicais, mas todas à procura da mesma coisa: o retorno do que se cobra.
Em casa a conversa foi comprida, e acabou por ser sobre nós. Explicámos-lhe que o dinheiro vem de trabalharmos e que cada euro tem mais do que um destino. Foi aí que ele percebeu que a parte que sai do bolso dos pais e vai para o Estado não é escolha nossa, e que o resto, esse sim, é, e diz muito sobre quem somos.
Também lhe explicámos para que servem os impostos. Servem para pagar a escola onde ele aprendeu a questioná-los, a saúde, as estradas, as pensões. Dissemos-lhe que pagar faz parte de viver em comunidade, e que exigir retorno faz parte da mesma coisa. Ele aceitou as duas, e foi aí que a conversa ficou difícil, porque a primeira ensina-se depressa e a segunda obriga-nos a olhar para o que temos.
Em 2025, impostos e contribuições sociais pesaram 35,3% do PIB, segundo o INE. É uma conta que um aluno do 10.º ano faz sem esforço, e a pergunta seguinte foi: o que recebemos por isso? Não discuto que se pague. Discuto o retorno, e é aí que a cobrança aos níveis atuais perde a legitimidade.
Hoje o meu filho sabe com clareza quanto custa os pais trabalharem, e sabe também o que recebemos em troca, ou o que não recebemos.
Amanhã, não será surpresa se quiser emigrar.