Quando Donald Trump sugeriu que os Estados Unidos deveriam exercer controlo sobre o estreito de Ormuz, a maioria dos comentadores focou-se na provocação diplomática. Errou o alvo.

O que está em causa não é hegemonia simbólica. É aritmética energética.

Cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo estreito de Ormuz. Quem controla o fluxo, controla o preço. E quem controla o preço, controla quem consegue crescer — e a que custo.

Os Estados Unidos atingiram uma autonomia energética que era impensável há vinte anos. Produzem mais petróleo do que consomem. Isso muda tudo, mas não da forma que se pensa habitualmente. Não os liberta da geopolítica do petróleo: transforma-os num dos seus principais arquitectos.

Um barril a 100 dólares não prejudica Washington. Prejudica Pequim.

A China não tem essa independência. Importa mais de 70% da energia que consome, e grande parte dessa energia vem do Irão, com quem mantém relações comerciais e diplomáticas que resistiram a todas as sanções ocidentais. O Irão vende petróleo à China com desconto. A China fecha os olhos às pressões de Washington. É um equilíbrio que funciona para os dois e que irrita profundamente os americanos.

Aqui entra o Irão. E entra também a Venezuela.

São dois países com reservas enormes, relações próximas com a China, e que operam fora do sistema financeiro ocidental. Em ambos os casos, a pressão americana, seja por sanções, isolamento diplomático ou ameaças militares, serve um propósito que vai além da retórica sobre democracia ou direitos humanos. Serve para encarecer o acesso da China à energia.

Se o petróleo iraniano circula com dificuldade, a China paga mais. Se a Venezuela não consegue exportar livremente, a China paga mais. Se o estreito de Ormuz estiver sob influência americana, a China paga o que Washington tolerar.

Há uma frase atribuída a Henry Kissinger que resume bem a lógica que atravessa décadas de política externa americana: “Controla o petróleo e controlarás as nações.” Independentemente da sua origem exacta, a frase descreve com precisão o que se passa.

O que mudou é que os Estados Unidos já não precisam do petróleo para si. Precisam dele como instrumento. E um instrumento só funciona se for escasso, ou se parecer escasso.

A questão que fica por responder é se esta estratégia ainda chega a tempo.

A China tem investido sistematicamente em alternativas: energias renováveis, acordos bilaterais com produtores africanos e do Médio Oriente, e uma rede de infra-estrutura, a chamada Nova Rota da Seda, que reduz a dependência das rotas marítimas controladas por frotas ocidentais.

O estreito de Ormuz é uma alavanca real, mas tem prazo de validade.

O que Trump disse em voz alta é o que a política externa americana tem praticado em silêncio há anos: manter o mundo dependente de um recurso cujo fluxo Washington pode condicionar. É redutor como análise? Talvez. Mas é precisamente essa aparente simplicidade que lhe dá força, e que explica por que razão ninguém a diz directamente.

O petróleo nunca foi só energia. Foi sempre poder. E quando se percebe isso, o mapa do mundo lê-se de outra forma.