Fui percebendo que uma entrevista com o Wagner Moura, actor brasileiro, tornou-se viral junto de amigos e conhecidos de esquerda, sendo fã dele e curioso com o ângulo que estava a ser partilhado, fui ver e ouvir com atenção. E reparei que tornou-se viral, partilhada quase como um troféu, quando foi nessa mesma entrevista que o Wagner chamou “fascismo de esquerda” a uma parte da própria esquerda.

Vale a pena parar aqui. O mundo da cultura inclinar-se para a esquerda não é novidade, é quase endémico. Por isso o que tornou esta conversa interessante não foi ele afirmar-se de esquerda. Foi tudo o resto.

O Wagner defende justiça social e, ao mesmo tempo, aceita a pergunta que costuma vir da direita: quem é que paga? Reconhece que a discussão sobre o tamanho do Estado é legítima e que quase nunca se faz, porque fica presa na identidade e na legitimidade de quem desafia. Critica o identitarismo, à esquerda e à direita. Diz que a polarização é a maior ameaça à democracia. Isto não é um discurso de esquerda à moda antiga. É um liberal progressista que se apresenta de esquerda. E foi uma lufada de ar fresco.

O problema não está nele. Está no uso que se fez dele.

Porque o que a esquerda foi buscar à entrevista não foi a coragem de criticar os seus. Foi mais um carimbo, o de que o humanismo só existe de um lado. Aquela ideia de que a esquerda é o único espectro que entende o factor humano, e que todas as outras linhas de pensamento são contra o humano. É um erro tão evidente que quase custa desmontá-lo.

Custa porque a história está cheia de regimes de esquerda que nada tiveram de humanistas. Custa porque a bondade não é um monopólio, é uma disposição, e essa não escolhe lados. Um liberal pode ser profundamente humanista. Um conservador também. Chamar humano a um lado só, e desumano a todos os outros, não é uma posição moral. É preguiça vestida de arrogância.

E é essa preguiça que vai matando a própria esquerda. Quando se define pela identidade e não pelas ideias, quando troca o argumento pelo carimbo, quando continua a puxar a luta de classes para justificar um Estado cada vez maior, esvazia-se. Deixa de convencer. Fica a falar para dentro, para quem já lá está, e a chamar fascista a quem discorda. O nome, até esse, foi o próprio Wagner que lho deu.

O melhor da entrevista é que ele faz o contrário. Abre a discussão em vez de a fechar. Diz que é fundamental falar com a “direita” sobre o que interessa. Percebe que numa democracia saudável há poucas trincheiras e muito debate de ideias. Era isto que a esquerda devia ser, e é isto que ela está a perder.

Continuo fã do Wagner. Não por ser de esquerda ou de direita, mas por ser um profissional excepcional e ter dito, no meio dos seus, aquilo que dá trabalho dizer. O humanismo não é uma bandeira que se levanta. É uma forma de estar, e não tem dono.