Talvez ainda não tenhamos o suficiente distanciamento histórico-crítico que nos permita avaliar correctamente o estado actual do mundo. Por isso, devemos prestar atenção a todos aqueles que, antes de nós, ousaram identificá-lo com sentido e discernimento proféticos. Um imenso horizonte de interesses especulativos tem sido, nos últimos tempos, o campo de acção da política internacional. Isto, porque a ciência, grande aliada do poder tecnológico, conseguiu aumentar o espaço terrestre criando a ilusão de que se tornou mais amplo. Este novo espaço é o actual centro da disputa entre os líderes políticos mundiais, com o objectivo de nomear qual o líder mais apto a assumir a totalidade do seu governo. Embora nos pareça insólito vamos tomando consciência de que o Planeta Terra se tornou ingovernável segundo os parâmetros de governo até agora utilizados. O facto, deve-se a que ainda não aprendemos as novas linguagens que conferem total viabilidade política a esse novo espaço, que expande o diâmetro terrestre.
O pensamento profético de Hannah Arendt, filósofa política, já tinha identificado a raiz do problema na sua grandiosa obra A Condição Humana, editada em 1958 (1). Ao analisar “a alienação do mundo” no limiar da era moderna, refere que se trata de um desfasamento entre a vida contemplativa e a vida activa. Esta última sobrepôs-se à capacidade espiritual na sua determinação de fabricar um mundo inteiramente novo: «Assim, o seu mais alto ideal deve ser o conhecimento matemático, tal como a era moderna o concebe, isto é, não o conhecimento de formas ideais recebidas de fora da mente, mas de formas produzidas por uma mente que, neste caso particular, nem sempre necessita do estímulo… dos sentidos por outros objectos além de si mesma. Esta teoria é bem aquilo que Whitehead lhe chama: ‘a consequência da derrota do senso comum’». (p.348). O obscurecimento do sentido comum da história da Humanidade impera na actual visão política, moldada pelo pensamento matemático e pelo desenvolvimento científico-tecnológico.
A génese deste conflito remonta a uma etapa da história muito anterior à do advento do modernismo, ela inscreve-se no auge da controvérsia messiânica que é a identidade de Jesus de Nazaré. Ele é condenado à morte por blasfémia, a acusação é esta: «É que Tu, sendo um homem, a ti próprio te fazes Deus» (Jo 10, 33). Desde logo se percebe nisto a negação da condição humana, tal como a conhecemos, uma sentença que se perpetuará pelos séculos até aos actuais modelos de descarte desta mesma condição. Entre a natureza humana e a natureza divina não pode haver nenhum intercâmbio, a única possibilidade é tornarmo-nos, nós próprios, divinos numa dimensão totalmente alheia a um Deus soberano. O ensombramento da figura de Jesus estava relacionado, também, com o anúncio de um novo Reino e de uma condição de realeza diferente da exercida neste mundo: «“A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá”. Disse-lhe Pilatos: “Logo, Tu és rei!” Respondeu-lhe Jesus: “É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade”» (Jo 18, 36-37). Foi este pronunciamento que o levou à morte. Todo o drama da história, a raiz de todas as disputas, guerras e genocídios resume-se a este enfrentamento, que ao longo do tempo tem assumido diversos matizes.
Revisitando os oito Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, estabelecidos na Cimeira do Milénio da ONU, no ano 2000, e a serem cumpridos até ao ano 2015, verificamos que o mundo perfeito que então se idealizou sofreu uma inversão total. O acordo, estabelecido com 191 estados-membros da ONU e 22 organizações internacionais, propunha-se: erradicar a pobreza extrema e a fome, atingir o ensino básico universal, promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater a HIV/AIDS, a malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental, estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento. Pouco ou nada destes objectivos se concretizaram, muito pelo contrário. Estávamos longe de pensar que este mundo idealizado se referia a uma pequena parcela da humanidade, que todos os outros seriam descartados pela proliferação da fome, das guerras, da destruição do ensino, pela violência contra mulheres, crianças e idosos, a destruição do ambiente, etc., etc. Contudo, se olharmos bem para os objectivos do pontificado do Papa Francisco percebemos que o seu desejo é implementar os oito itens dos Objectivos do Milénio, à luz da Doutrina Social da Igreja. Tem sido esta a orientação do seu discurso e dos seus escritos.
No seu intento deparou-se também com obstáculos dentro da própria Igreja, já anteriormente referidos pelo Papa Bento XVI no primeiro volume da sua Trilogia sobre Jesus de Nazaré. Trata-se da questão da implementação do “reino”: «Entretanto desenvolveu-se em vastos círculos da teologia, especialmente em âmbito católico, uma reinterpretação secularista do conceito de “reino”, que dá início a uma nova visão do cristianismo, das religiões e da história em geral e, com esta profunda transformação, quer fazer novamente aceitável a alegada mensagem de Cristo. (…) “Reino” significaria simplesmente um mundo onde reinam a paz, a justiça e a salvaguarda da criação. Não se trataria de mais nada. Este “reino” deveria ser realizado como meta da história. E esta seria a verdadeira meta das religiões: trabalharem juntas para a vinda do “reino”» (cap. III). É este o motivo pelo qual pouco se fala do I Concílio Ecuménico de Niceia, realizado no ano 325, ou seja, da celebração dos 1.700 anos deste evento. A Igreja prefere falar de Jubileu, da história dos Jubileus, bem mais tardios, e propõe o tema “peregrinos da Esperança”. Porque a centralidade de Niceia é, precisamente, o combate à doutrina ariana e a proclamação de Jesus Cristo no qual se realizou a união hipostática, a união da natureza humana com a natureza divina, abrindo o acesso a uma nova criação que está muito além das estratégias geopolíticas mundiais.
Focam este assunto os cardeais Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Unidade dos Cristãos, e Rainiero Cantalamessa, pregador emérito da Casa Pontifícia. Ambos, denunciam o arianismo dentro da Igreja Católica e que tinha sido enfrentado no I Concílio de Niceia. Foi sempre muito difícil erradicar da Igreja esta doutrina. Segundo o cardeal Koch, verifica-se uma arianização da fé em Cristo dissociada do Jesus histórico. Por isso, Rainiero Cantalamessa ousou afirmar numa recente publicação sobre Niceia, a 5 de fevereiro, que «Jesus Cristo está rigorosamente ausente no diálogo entre as religiões, (…) os temas debatidos são a paz, a pobreza, o ambiente e, nalguns casos, as questões éticas». De igual modo, está ausente do diálogo entre a ciência e a fé, que se limita «a discutir se o mundo teve ou não um início e um criador», e do diálogo entre a fé a razão onde se discutem apenas questões metafísicas. Refere, também, que Friederich Nietszche para determinar a “morte de Deus” centrou em Jesus Cristo o inimigo da história e não na religião: «A ele se deve reconhecer o “mérito” de não ter escolhido um alvo fácil – a “religião” – para os seus ataques, mas de ter identificado claramente a frente em que se trava a batalha decisiva entre a fé e o ateísmo, ou seja, a Pessoa e o ensinamento de Cristo».
A confirmação de que o mundo caminha neste sentido está na recente decisão da UNESCO de elevar o legado do filósofo Friedrich Nietszche a Património Documental da Humanidade.
(1) Hannah Arendt, A Condição Humana, Relógio D’Água Editores, 2001.