Há uma pergunta que me acompanha há anos: para que serve a escola?

Sou professor desde 1991 e continuo a questionar-me quando olho para os alunos. O mundo mudou. A escola, nem tanto. Custa-me que um lugar onde os jovens passam grande parte da semana seja, para tantos, um sítio de onde querem sair ou, se possível, nem chegar a entrar.

Procuro abrir um debate sobre a escola que acredito ser possível: uma escola que dê vontade de viver.

Em 2017, comecei o caminho DoTamanhoDoMundo porque via desmotivação e, até, repulsa pela escola. Impressionava-me o contraste com crianças de outras partes do mundo que desejam aprender mesmo sem condições mínimas. Inquietava-me que, entre nós, a escola fosse um ponto de passagem: entra-se, cumpre-se e sai-se. Tem de ser vivida, não apenas sobrevivida. Dessa inquietação nasceram as primeiras iniciativas de «A escola que será».

A transmissão de conhecimentos é uma missão fundamental da escola, mas não chega. A escola atual tem, essencialmente, de nos ensinar a viver com os outros, a decidir, a criar, a assumir responsabilidades e a perceber que podemos transformar aquilo que nos rodeia. A escola e os seus agentes continuam a preparar os alunos para exames e testes formatados visando um modelo humano e profissões que já não existem ou tendem a desaparecer, mas nas quais continua, paradoxalmente, a insistir. O importante hoje (e sempre) será fomentar um ser inteiro vocacionado para um futuro cada vez mais diferenciado e incerto em relação ao passado recente e tal, estou em crer, pelo que constato in loco todos os dias, não se faz carimbando todos de modo semelhante. É por isso que trabalhamos juntos, a partir da pureza das turmas, refletindo em ação onde “cabem” em cada trabalho outros conceitos, espreitando os manuais de todas as disciplinas e tendo todos como “ferramenta”, como parceiro e alavanca de aprendizagem.

Na Escola Duarte Lopes, em Benavente, António sofreu bullying por ter alopecia. Podíamos ter ficado pelas palavras bonitas. Os colegas quiseram mostrar-lhe que não estava sozinho. Nasceu o «Somos Todos Antónios»: os alunos raparam o cabelo, as alunas prenderam-no, num gesto simbólico de solidariedade. A iniciativa ganhou dimensão nacional e levou-nos à Assembleia da República.

A visita ao Parlamento aconteceu a 20 de outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying. Não tínhamos escolhido a data por esse motivo; só descobrimos o significado no autocarro. Naquele momento, os alunos não estavam apenas a representar a escola. Estavam a ser escola, a que importa.

Uma ação assim não nasce do nada. Exige uma cultura em que os alunos aprendam a escutar, a pensar antes de agir e a sentir que podem transformar o que os rodeia, indo mais além, nunca satisfeitos com o “foi sempre assim” ou com um modelo que os formata. É essa cultura que procuramos construir, dia após dia, numa autoconstrução orientada.

Para dar corpo a esta cultura, recorremos a práticas como assembleias de turma, alunos-mentores — dentro da própria turma, sem retirar dela nenhum elemento —, o Minuto da Ampulheta, o Dado da Honestidade, portefólios e momentos de reflexão e partilha pessoal. Estas práticas criam oportunidades para os alunos terem voz, tomarem decisões e assumirem responsabilidades. Quando ajudam um colega ou participam numa decisão, a cidadania deixa de ser apenas um tema estudado e passa a ser uma experiência vivida. Os alunos tornam-se protagonistas, não figurantes.

Na Escola Duarte Lopes, apesar de nem todos terem acesso direto à atmosfera DTDM, temos observado uma mudança: a escola tornou-se um lugar de transformação e oportunidade. Os registos disponíveis apontam para menos ocorrências disciplinares, maior assiduidade e recuperação de alunos em risco de insucesso (por via do projeto, temos Selo Anticorrupção e Selo Escola Sem Bullying, iniciativas a que a escola aderiu agora na totalidade). Há ainda uma mudança menos fácil de quantificar, mas visível no quotidiano: alunos que sentem que contam e que a escola também lhes pertence.

Não procuro uma escola menos exigente. Procuro uma escola mais humana, onde o afeto dê sentido ao rigor e onde a felicidade não seja confundida com facilitismo. Brincar, criar, perguntar e experimentar também são caminhos para aprender — em qualquer área do conhecimento, em qualquer idade, ainda mais na escola. Do início ao fim deste caminho os alunos são os primeiros a perceber e a estimular (num contexto, ainda, passivo) que aquilo que fazemos nas nossas aulas (EV e ET) e no contexto holístico do projeto a dias e horas fora do horário. Há coisas que só visto e ouvido pelos protagonistas, é o caso (embora divulgue nas redes sociais).

Precisamos de outra forma de viver a escola: disciplinas que não sejam ilhas, uma comunidade que participe e alunos que aprendam também fora da sala de aula, em contacto com a cultura, a arte, o território e problemas reais. Os alunos não são cidadãos em espera: precisam de responsabilidades agora, não pontuais com iniciativas efémeras, mas num sentido permanente. O silêncio, por si só, não prova que houve aprendizagem; a obediência não é o mesmo que cidadania, nem a quantidade de trabalho garante a sua qualidade e/ou amplitude.

Não sei como será a escola do futuro. Sei como gostaria que se sentisse: um lugar onde cada aluno possa criar, errar, aprender e ser levado a sério; onde encontre exigência e confiança, direitos e responsabilidades. Aprender não é apenas preparar-se para a vida. É vivê-la, já!

DoTamanhoDoMundo não pode ser «o meu» projeto. Se depender apenas de mim, falhou. Quero que se torne uma cultura que outras pessoas e escolas possam experimentar, adaptar e continuar. Não quero seguidores. Quero cúmplices. Replicar não é copiar: é respeitar as pessoas e a realidade de cada lugar.

Ser finalista do Global Teacher Prize Portugal pode ajudar a dar visibilidade a esta ideia e a aproximar pessoas que queiram contribuir para uma escola à medida dos seres humanos de hoje e dos desafios de amanhã.

A escola não precisa de mais documentos ou de palavras novas para velhos hábitos. Precisa de coragem para perguntar se aquilo que fazemos ainda faz sentido. Acredito, com os alunos e com quem da comunidade se junta a nós, numa escola exigente sem ser pesada, feliz sem ser facilitista, profundamente humana e útil de facto. Aprende-se com a cabeça, com as mãos e com os outros.

Uma escola que não se limita a preparar o futuro. Começa, todos os dias, a vivê-lo.

É essa a escola que ainda não existe por inteiro. E é essa que vale a pena começarmos a construir — juntos.

Para conhecer o DoTamanhoDoMundo:

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Vídeo «O que é, para ti, DoTamanhoDoMundo?»: https://www.youtube.com/watch?v=fgm2wRr2gHA