A Realidade das Provas Finais no 3.º Ciclo
As provas finais de avaliação no 3.º ciclo são um termómetro importante para avaliar a competência dos alunos nas áreas da Língua Portuguesa, entre as quais a produção escrita. Porém, os dados obtidos nas provas finais, nos últimos anos, indicam um desempenho aquém do esperado.
Segundo o Relatório Nacional das Provas Finais do 3.º Ciclo do Ensino Básico 2015-2019 do IAVE, os alunos do 9.º ano de escolaridade frequentemente enfrentam dificuldades na construção de textos corretos do ponto de vista lexical, morfológico e sintático. Muitos estudantes manifestam dificuldade em manter a coerência e coesão textuais. Em alguns casos, a estrutura textual é precária, o que dificulta a compreensão do leitor e compromete a avaliação.
Exames Nacionais de Português no Secundário: Desafios Continuados
Os resultados dos exames nacionais de Português no ensino secundário, no domínio da escrita, seguem um padrão também preocupante. Muitos alunos, mesmo ao atingirem um nível mais avançado de escolaridade, continuam a mostrar deficiências nas suas produções escritas.
De acordo com o Relatório dos Exames Nacionais do Ensino Secundário 2017-2019 e 2021-2023, publicado pelo IAVE, uma grande parte dos estudantes tem dificuldade em escrever textos bem estruturados. Além do uso de um vocabulário limitado e impreciso, revelam dificuldades no âmbito da correção na ortografia, na morfologia e sintaxe, na aplicação das regras de pontuação, na coesão e coerência textuais. Estas limitações comprometem a qualidade da escrita, tornando-a superficial e pouco aprimorada.
Causas das Dificuldades na Escrita
Um dos problemas mais destacados é a falta de hábitos de leitura. A leitura é a base para o desenvolvimento da escrita, pois amplia o vocabulário, melhora a compreensão textual e oferece exemplos de estruturas discursivas variadas. No entanto, muitos estudantes não desenvolvem rotinas de leitura. Sem a prática regular da leitura, a escrita tende a ser limitada e empobrecida.
Muitas vezes, os professores não têm tempo suficiente para trabalhar de forma aprofundada a produção textual, privilegiando atividades de leitura e interpretação. Deste modo, o desenvolvimento pleno das competências de escrita é prejudicado. O ensino da escrita exige ensino explícito dos processos envolvidos (recolha de informação, planificação, textualização e revisão), prática contínua e acompanhamento individualizado.
Caminhos para a Melhoria
Diante do panorama descrito, é urgente adotar medidas que possam melhorar a qualidade da escrita dos alunos em Portugal. Para isso, é fundamental repensar a forma como o ensino da escrita é estruturado nas escolas, devolvendo à produção textual um lugar central desde os primeiros anos de escolaridade. O ensino da escrita não deve ser apenas uma atividade pontual ou ocasional, mas sim um processo contínuo, que envolva o aluno de maneira progressiva e dinâmica.
Uma possível solução é aumentar o tempo dedicado à prática da escrita, incorporando atividades que incentivem os alunos a escrever sobre temas diversos, em diferentes contextos e com diferentes objetivos. Além disso, a leitura deve ser estimulada de forma mais intensa, oferecendo aos alunos textos ricos e variados, que os desafiem a pensar e refletir sobre o uso da língua.
A dinamização de oficinas de escrita, onde os alunos possam experimentar diferentes géneros/formatos textuais, consolidar os processos da planificação, textualização e revisão, receber feedback construtivo, pode ser uma estratégia eficaz. Também determinante é a formação (inicial e contínua) dos professores em metodologias de ensino da escrita.
À semelhança do que se faz noutros países, a criação de Projetos Regionais ou Nacionais de Escrita, com uma estratégia regional ou nacional para a escrita pode ser mais um caminho para melhorar esta competência.
Se tomarmos medidas eficazes, como a melhoria da formação dos professores para o ensino da escrita e o reforço da prática da escrita, poderemos mudar o rumo da educação em Portugal e melhorar as competências linguísticas dos nossos estudantes.