Sob a sua nova administração em 2025, os Estados Unidos afastaram-se claramente da promoção da democracia internacional, da integração euro-atlântica e do apoio material direto à Ucrânia. Como resultado, há uma discussão crescente sobre o novo papel da Europa — tanto na defesa da Ucrânia como no tratamento das autocracias e de outros desafios internacionais. Não só os parceiros europeus da OTAN terão de assumir uma maior responsabilidade pela sua própria segurança, como toda a Europa terá de abordar outras questões globais fundamentais sem o apoio dos EUA — desde a proteção ambiental e dos direitos humanos até ao desenvolvimento político e socioeconómico.
O problema é que «Europa» é um conceito difuso quando se trata de assuntos externos e de defesa. Apesar dos laços estreitos e da proximidade geográfica, as nações europeias têm culturas estratégicas e perspetivas geopolíticas diferentes. Em muitos países europeus, a ascensão de partidos radicais de direita e de esquerda levou a uma polarização extrema da opinião pública — não só sobre assuntos internos, mas também sobre assuntos externos.
O atual pluralismo geoestratégico do continente está a levar a formulações incompatíveis de interesses nacionais e divergências de pontos de vista sobre importantes questões transfronteiriças entre as capitais europeias. Às divisões ideológicas que separam a UE dos Estados europeus iliberais fora da União, como a Bielorrússia ou a Sérvia, soma-se a diversidade normativa da Europa , que conduz a desacordos dentro da União sobre quais devem ser as prioridades e os objetivos da política externa da UE.
Independentemente destas complicações, os desafios e riscos para a democracia e a liberdade globais estão a aumentar. Hoje, mais do que nunca, a UE seria necessária como agregadora, modeladora e implementadora de uma política externa europeia comum — da mesma forma que a União determina as políticas comerciais europeias. Para cumprir esta tarefa, os Estados-Membros da UE teriam de regressar ao seu antigo consenso normativo relativo ou adotar um novo Tratado da União Europeia com poderes supranacionais mais fortes para Bruxelas ou, na melhor das hipóteses, fazer ambas as coisas. Não é provável que nadadisto aconteça num futuro próximo.
Sem um acordo geoestratégico entre os Estados-Membros da UE e/ou um novo tratado da União, serão necessárias outras soluções institucionais. Uma forma de avançar é criar alianças ad hoc de política externa e de segurança entre Estados-Membros da UE com ideias semelhantes, que unam forças para perseguir este ou aquele objetivo. O Tratado de Lisboa permite a cooperação parcial dentro da União e, portanto, a ação conjunta de grupos de governos europeus com ideias semelhantes. No entanto, o princípio do consenso e o direito de veto nacional sobre decisões fundamentais limitam o papel potencial do Conselho da UE, da Comissão e do Serviço de Ação Externa como veículos institucionais para uma política externa consolidada das democracias europeias empenhadas.
De qualquer forma, a cooperação intraeuropeia só pode ser eficaz até certo ponto. Por si só, as democracias europeias são demasiado fracas para se afirmarem em conflitos geopolíticos, económicos e militares globais. Para uma cooperação transeuropeia mais ampla, está atualmente a surgir um modelo de planeamento e coordenação interdemocrático com a Coligação dos Dispostos (COW) relacionada com a Ucrânia, que está em consulta desde a primavera de 2025.
Esta aliança informal de democracias reúne 33 países cujos governos concordam em grande parte com os seus valores gerais, interesses nacionais e objetivos externos. A COW, que até agora tem sido reconhecidamente pouco coesa, inclui países que são europeus, mas não membros da UE, como o Reino Unido e a Noruega, e até mesmo países distantes da Europa, como a Austrália e o Japão. Embora a atual COW trate apenas da Ucrânia, ela poderia expandir seu foco no futuro para outras questões importantes para o futuro da democracia em todo o planeta.
O principal conflito global atual gira mais, nos termos do professor de Stanford, Michael McFaul, em torno de autocracias versus democracias, e menos em torno de um “choque de civilizações”, como afirmou o falecido professor de Harvard, Samuel Huntington, há mais de três décadas. A famosa tese de Huntington não explica a cooperação atual entre a Rússia cristã ortodoxa, o Irão fundamentalista islâmico e a Coreia do Norte paleocomunista na guerra contra a Ucrânia cristã ortodoxa. A composição da Organização de Cooperação de Xangai ou do grupo BRICS não corresponde ao esquema de Huntington de colaboração e conflito internacional determinado culturalmente. Em contrapartida, o título do livro a ser lançado Autocratas vs. Democratas: China, Rússia, América e a Nova Desordem Global, de McFaul, ex-embaixador dos EUA em Moscovo, capta melhor a dimensão fundamental da futura cooperação e confronto entre Estados.
O esforço conjunto, no âmbito da COW, para ajudar a Ucrânia por parte dos países da UE e não pertencentes à UE não é, portanto, uma coincidência, mas sim sintomático. É parte integrante de uma redefinição global das linhas de conflito resultante da crescente oposição mundial entre as ordens de acesso aberto e de acesso fechado. Isto deve ter implicações institucionais para as relações entre as democracias europeias e não europeias que estão interessadas em defender e promover os valores e regras da democracia liberal.
Hoje, autocratas e seus diplomatas, bem como ideólogos como o fascista russo Aleksandr Dugin, estão empenhados em estabelecer e expandir redes e alianças transcontinentais estatais e não estatais. Governos, partidos e intelectuais antiliberais da Ásia, Europa, Américas e África estão cada vez mais a apoiar-se e a coordenar-se entre si. Por razões de autopreservação, os Estados, partidos e outras organizações pró-democracia europeus e não europeus devem fazer o mesmo. Os governos e as sociedades civis das democracias liberais devem construir coligações e instituições mundiais que ultrapassem as fronteiras geográficas e culturais.
O G7 e a OTAN, como potenciais centros de cooperação interdemocrática global, estão atualmente a ser prejudicados pelo impulso antiliberal, pelo amadorismo administrativo e pela confusão estratégica da nova administração dos EUA. A UE continua a ser atormentada por contradições nacionais entre os seus Estados-Membros e complicações estruturais na sua tomada de decisões. Neste contexto, a até agora informal COW relacionada com a Ucrânia poderia oferecer uma solução. Juntamente com outras redes, a COW pode servir de exemplo ou mesmo de núcleo para uma futura cooperação geral entre civilizações entre governos e grupos pró-democráticos.