Inscrever militantes na Juventude Socialista é, hoje em dia, uma espécie de escape room burocrático. Daqueles em que ninguém explica às regras, as pistas contradizem-se e a porta só abre se tiveres exatamente o carimbo certo, emitido por alguém que, naturalmente, não está disponível. A pessoa começa o processo cheia de vontade, idealismo e aquela convicção juvenil de que participar politicamente ainda vale a pena. Sai dele a ponderar se não teria sido mais simples tirar uma carta de piloto de helicópteros do INEM ou candidatar-se a um visto para Marte.
Tudo começa de forma aparentemente banal: uma ficha de inscrição. Normal. Depois, a assinatura. Também normal. Mas rapidamente percebemos que não se trata de uma assinatura qualquer. É necessária uma assinatura verificada. Não basta seres tu, tens de provar que és tu. E aqui entra o momento decisivo: ou a assinatura é reconhecida por notário, ou então é exigida assinatura presencial na sede da estrutura, em Lisboa. Lisboa, claro. Porque se há coisa que define a juventude portuguesa é a facilidade com que todos podem largar trabalho, estudos e vida pessoal para ir rapidamente à capital assinar um papel. Em horário laboral, evidentemente, porque a revolução também fecha às cinco e não atende ao sábado.
Entretanto, o mundo mudou. Compra-se casa com assinatura digital. Abre-se uma conta bancária pelo telemóvel. Criam-se empresas online. Casa-se, divorcia-se e trata-se da maioria dos assuntos com o Estado sem sair do sofá. Mas para entrar na Juventude Socialista, o nível de exigência continua algures entre a adoção de um panda gigante e o acesso a documentação classificada da NATO.
O resultado não é surpreendente. Jovens com vontade de participar, de debater ideias, de se organizar politicamente, acabam por desistir algures entre a fotocópia do cartão de cidadão, a procura de um notário disponível e a sensação crescente de que talvez não sejam assim tão bem-vindos. Não por falta de compromisso político, mas porque a militância não devia exigir mais logística do que uma mudança de casa.
E é aqui que o problema deixa de ser apenas burocrático e passa a ser político.
Uma juventude partidária que dificulta sistematicamente a entrada de novos militantes não está apenas a ser desorganizada ou antiquada. Está a fazer uma escolha. A escolha de não crescer. Ou, mais precisamente, de crescer apenas até ao ponto em que o crescimento não ameaça equilíbrios internos, controlo da estrutura ou lideranças instaladas.
A Juventude Socialista gosta muito de falar em renovação, participação e abertura. Mas na prática, a estrutura parece funcionar como um clube excessivamente exclusivo, onde o entusiasmo juvenil é bem-vindo desde que não venha em excesso, não altere demasiado a correlação de forças e não faça perguntas incómodas. Crescer implica diversidade. Diversidade implica conflito. E conflito implica perda de controlo.
É difícil não interpretar este labirinto burocrático como um mecanismo informal de filtragem. Quem insiste muito e obedece, entra. Quem não insiste nem é obediente, não faz falta. Quem tem tempo, contactos e proximidade à estrutura consegue ultrapassar obstáculos.
Quem vem de fora, quem não conhece ninguém, quem vive longe dos centros de decisão, fica pelo caminho.
Neste contexto, a responsabilidade política não pode ser abstraída da liderança. Uma secretária-geral que verdadeiramente quisesse ver a Juventude Socialista crescer, renovar-se e alargar a sua base teria como prioridade remover entraves, simplificar processos e ir ao encontro dos jovens; não obrigar os jovens a peregrinações administrativas. Quando isso não acontece, a leitura é inevitável: crescer dá trabalho, mas sobretudo dá menos controlo.
No fundo, talvez todo este processo seja um teste involuntário de resistência. Um rito de passagem não oficial: se sobreviveres à inscrição, estás preparado para a política portuguesa, para as reuniões intermináveis, para as atas, para os regulamentos internos Quem desiste pelo caminho não falhou; apenas percebeu mais cedo que a estrutura fala muito de juventude para a frase clássica “isso depois vê-se”. e, mas tem algum medo dela.
E talvez esse seja o maior paradoxo de todos: uma organização criada para representar jovens que, na prática, parece fazer tudo para garantir que continuem a ser poucos.
Exija-se Liberdade.