1 Outros regressos

O regresso a Ítaca consagrou Ulisses como lenda imortal, por quem a cultura ocidental sempre se enamorou. Mas o fim da guerra de Troia determinou outros regressos e nem todos foram bem-sucedidos. Pensemos em Agamémnon, a carregar os seus barcos com os despojos da cidade destruída e levando consigo Cassandra, uma dos muitos filhos de Príamo e Hécuba. Cassandra era profetisa de Apolo, embora tenha sido castigada por este ao recusar o seu amor: teria o dom da predição, mas estava condenada a que ninguém acreditasse nas suas profecias. Por isso, quando avisou Agamémnon de que os dois morreriam à chegada a Micenas, Agamémnon ignorou o aviso.

É possível escrever todo o ano sobre a maldição da casa de Atreu a que Agamémnon pertencia (e revisitaremos em breve Orestes, cuja história marca o início da civilização ocidental), mas a figura mais trágica é provavelmente a do próprio Agamémnon, que detinha uma espécie de poder imperial sobre os territórios vizinhos ao ponto de Homero falar dele como “o soberano dos homens” (na tradução de Frederico Lourenço). É ele que abre a Ilíada discutindo, com raiva a cólera de Aquiles, sobre Criseida e a peste com que Apolo castigava os gregos:

“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.”

Na Odisseia, ficamos a saber que os barcos de Agamémnon resistiram à tempestade com que os deuses castigaram os gregos e alcançaram Micenas rapidamente. À chegada, Clitemnestra recebe o marido com honras de rei e herói e prepara-lhe um banho: é aí assassinado pela esposa, que se tinha juntado a Egisto, rival de Agamémnon. Cassandra morreria logo depois.

2 O sacrifício

Agamémnon é irmão de Menelau, o marido da bela Helena que é levada de Esparta para Troia por Páris, e é ele quem convoca os gregos para que, unindo forças num exército conjunto, resgatem a esposa de Menelau e recuperem a honra dos Aqueus. Mas os gregos ficam presos no estreito de Áulis, a caminho de Troia, por uma calmaria que não permite a viagem dos barcos. A ausência de vento indicava a insatisfação dos deuses pelo que Agamémnon convoca Calcas, para que o adivinho indicasse o que fazer.

A resposta de Calcas foi perturbadora. Ártemis, uma das deusas do Olimpo, estaria a castigar os gregos por Agamémnon ter caçado uma das suas corças sagradas e exigia um sacrifício para compensar esta falta: o da sua filha Ifigénia. Depois de muita indecisão, Agamémnon envia um barco a Micenas para que Clitemnestra traga Ifigénia sob o falso pretexto de casamento com Aquiles. Chegada à ilha, Ifigénia é morta para satisfação dos deuses, choque dos gregos e horror de Clitemnestra. Mas o vento regressou e os barcos puderam partir para Troia.

François Perrier, The Sacrifice of Iphigenia (1632-3)

Foi esta morte que Clitemnestra vingou, dez anos depois, quando o marido regressou a Micenas, de acordo com o direito e o dever que eram exigidos pelas Fúrias, ou Erínias, os seres ctónicos que ditavam os fados e a que os próprios deuses estavam sujeitos. Ésquilo, na primeira peça de Oresteia, expõe as razões de Clitemnestra:

“Não creio que se possa considerar indigna a morte deste homem. Efetivamente, não foi pela traição que ele fez a desgraça cair sobre o palácio? Sofreu o que merecia, por ter dado ao meu rebento, dele concebido, a minha chorada Ifigénia, uma sorte imerecida. Não poderá jactar-se no Hades; pagou com a morte pela espada o mal que fez.”

3 A lição de Ifigénia

O sacrifício do filho é um tópico recorrente dos textos antigos (como não nos lembrarmos do sacrifício de Isaac?). Mas a ideia é de tal forma chocante que o ato é, por regra, interrompido. No caso de Ifigénia, o final tende a apresentar variações, com a mais popular a defender que, no último momento, Ártemis teria substituído Ifigénia por uma corça e levado a jovem como sacerdotisa para Táurica. Como dizem alguns autores, os homens que assistiam ao ritual teriam fechado os olhos com o horror e foi esse momento que permitiu à deusa efetuar a substituição. É uma imagem bonita. Afinal, trata-se do sacrifício último, o mais difícil de todos, e que, ainda assim, estaríamos dispostos a fazer em troca de um valor mais alto.

Diversas interpretações foram levantadas ao longo dos séculos para revelar o absurdo deste sacrifício, desde os exageros e irracionalidades da religião à razão de estado que se imporia aos líderes. Mas parece possível enquadrar este sacrifício de outro modo no século XXI, se atendermos às ideias progressistas e ao espírito YOLO (You Only Live Once) que influenciam o nosso modo de pensar e agir e têm dado forma, para usar a expressão de Louise Perry, a uma cultura do divórcio.

É um tema delicado, mas que simboliza bem as profundas alterações sociais e culturais que se têm registado nas últimas décadas por todo o Ocidente e que se encontra sujeito a duas forças paralelas.

Por um lado, temos sido convencidos de que o casamento se traduz numa estrutura patriarcal com o objetivo de oprimir mulheres e crianças. Tratando-se de uma instituição maligna seria não só necessário resistir-lhe, mas também desqualificá-la afirmando que se trata de uma mera relação convencional que pode ser desfeita a qualquer momento.

Por outro lado, vivemos sujeitos à pressão do imediato e da felicidade permanente, que nos faz querer desistir de qualquer projeto que levante dificuldades e que pareça atentar contra a nossa felicidade a curto prazo. A verdade é que temos perdido a capacidade de adiar a gratificação imediata em prol de um bem maior e é mesmo possível que, se repetíssemos entre os adultos o famoso teste do marshmallow feito às crianças, descobríssemos que estamos todos, enquanto sociedade, mais infantis. Como nota a minha irmã mais nova, tomar decisões exigentes em prol dos filhos é particularmente difícil porque os resultados não são imediatos e é cada vez mais difícil pensarmos a longo prazo.

É claro que há situações (de maus-tratos, abuso, violência) em que o divórcio é necessário, mas no processo de desencantamento do mundo, como lhe chamou Max Weber, dessacralizamos o casamento e colocamos a liberdade individual e a ânsia de felicidade permanente no altar da cultura moderna. Devemos estar, contudo, atentos aos seus efeitos: novos deuses exigem novas vítimas e, por isso, parecemos dispostos a sacrificar os filhos nesse desejo por concretizar projetos pessoais ou ter, na expressão mais triste dos nossos dias, “tempo para mim”.

Mas não estamos condenados a cair no erro de Agamémnon e há já muita investigação sobre a importância do casamento e da família para a felicidade pessoal e, sobretudo, sobre o terrível impacto do divórcio nas crianças – algo que os Blink-182 já sabiam em 2002, quando cantavam em nome de uma geração: “it´s not right” (a música chama-se Stay Together For The Kids). A lição de Ifigénia é a de que uma vida plena exige compromissos e os compromissos exigem persistência, trabalho e, às vezes, sacrifícios. Mas não os dos nossos filhos.