1 O filho pródigo

É, provavelmente, uma das parábolas mais populares de Jesus. Consta do Evangelho de S. Lucas e fala-nos de um pai que tem dois filhos (Lc 15:11-32). O mais novo, desejando independência, pede ao pai a sua herança antecipada e sai de casa. É literalmente o filho pródigo, no sentido de despojador: esbanja o seu dinheiro e vê-se em situação de aflição, o que o leva a regressar a casa. O pai recebe-o de braços abertos, celebrando o regresso de um filho perdido, mas o irmão mais velho ressente-se: serviu e obedeceu sempre ao pai e este nunca o celebrou nem reconheceu da mesma maneira.

Os estudiosos discutem os possíveis sentidos desta parábola, em particular tendo em conta o lugar que ocupa na narrativa, mas há um sentido que transparece de imediato para um leitor não especialista e que só resulta por nos reconhecermos no desconforto do irmão mais velho: mesmo que a situação pareça injusta, o amor de Deus encontra-se naquela atitude de perdão e reconciliação – um amor que não desiste de nós.

É esse amor que devemos, como “amor ordenado”, orientar para a Família: não nascemos no vácuo e dessa relação inextricável com outros decorrem laços e obrigações que não se rompem facilmente e que dão propósito à vida, ligando o passado ao futuro. Hoje podemos recorrer às perspetivas evolutivas para compreender de que forma este amor à família se inscreve na nossa natureza – mas, uma vez mais, os antigos já sabiam tudo.

Não é, assim, surpreendente que a família tenha sido visada por todos os regimes políticos que procuraram reorganizar a sociedade. A verdade é que a lealdade política absoluta exige um corte com a lealdade familiar, uma revolta dos mais novos contra os seus pais, os mais velhos, as tradições – ou, como a Revolução Cultural chinesa definiu, contra os quatro antigos: as ideias antigas, a cultura antiga, os antigos costumes e os antigos hábitos.

A luta contra o passado materializou-se, por isso, contra as escolas e as universidades, mas implicava denunciar igualmente a família, como nos mostrou George Orwell. Afinal, o que é a família senão o depositário fiel da cultura, dos costumes e dos hábitos antigos?

2 Os filhos dos anos 60

Mas não precisamos de recorrer aos regimes totalitários ou às principais distopias do século XX para encontrar os perigos da revolta contra a família. Não foram os anos revolucionários dos Sixties (nos Estados Unidos e em França) uma manifestação de revolta contra as gerações mais velhas e a tentativa de estabelecer novas regras sociais? Importava atacar a autoridade, denunciar as normas sociais e sexuais como uma forma de opressão e violência e defender um novo mundo que libertasse os mais novos dos constrangimentos antigos.

Como sabemos, o capitalismo alimentou-se facilmente desta geração, que muito rapidamente trocou as liberdades da rua pelos confortos materiais, mas o seu legado cultural sobreviveu: em resultado das ideias que Wilhelm Reich e Herbert Marcuse levaram para os Estados Unidos, as normas sociais foram-se deslassando pouco a pouco e as últimas décadas foram marcadas pela desconstrução da instituição familiar e das obrigações, compromissos e responsabilidades que necessariamente estão a ela associados. Em troca, ficamos com a “década do eu”, como Tom Wolfe consagraria num ensaio para a revista New York em 1976, ou a “cultura do narcisismo”, para usar a expressão de Christopher Lasch.

Importa assim reconhecer que a obsessão com o eu não foi um efeito das redes sociais: as suas raízes foram plantadas naqueles anos revolucionários e o telemóvel limitou-se a ampliá-las. Hoje encontramos manifestações dessa “cultura do eu” por todo o lado, mas é possível que uma das suas formas mais extremas se reflita na “tendência” recente de organizar funerais ainda em vida – para que, pasme-se, possamos “ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre nós”, “ter uma palavra a dizer sobre como as coisas devem ser feitas” ou “para dizermos aos nossos que devem falar de nós para não sermos esquecidos”.  Haverá maior exemplo de narcisismo do que isto?

E como não haverão de viver em constante ansiedade se pensam assim? Em sentido contrário, deviam ler Marco Aurélio:

“Lembra-te disto: dentro de breve tempo, tu e o teu compadre estareis mortos; e em breve nada de nós restará, nem sequer o nome.”

O mesmo é dizer, não vale a pena preocuparmo-nos tanto, não somos assim tão importantes.

Mais uma coisa: as antigas tradições que associamos à morte nunca foram para os que morreram (esses estarão, se Deus quiser, num sítio melhor). São para os que ficam e carregam nos ombros a dor de perder aqueles que amam, cabendo à comunidade o dever de os ajudar a carregar essa dor.

3 No contact

Foi nesta “cultura do eu” que os filhos dos Boomers cresceram, moldados por uma parentalidade gentil que considera a própria ideia de limites uma forma de violência, por uma cultura escolar que considera a ideia de autoridade uma forma de violência e por um contexto político que considera a ideia de Ocidente e de valores ocidentais uma forma de violência (mais sobre isto na próxima semana).

Os resultados não podiam deixar de ser catastróficos: as gerações mais novas foram protegidas de tudo o que pudesse ser interpretado como desafio ou desconforto e infantilizadas numa cultura terapêutica que reforça o seu narcisismo e que tem promovido, nos Estados Unidos, a vulgarização do “estrangement” [afastamento] familiar quando sentem que a sua família não pensa da mesma forma ou, nomeadamente, não aceita a sua “nova identidade”.

Reforçando a proteção face ao desconforto, muitos terapeutas e “influencers” promovem agora o “no contact” – o corte de ligações total com a família para que o jovem não se sinta constrangido ou incomodado por ideias diferentes e possa ser livre de afirmar o seu “verdadeiro self”.

Como Noelle Mering nota no seu livro, o afastamento da família ou da comunidade foi sempre um recurso nas sociedades humanas: mas era geralmente feito pelos mais velhos para proteger a comunidade. A particularidade do “no contact” é a de que é feita pelos mais novos para promover a individualidade, prometendo a libertação total. Como não seria resultado de um ato voluntário – não foi consentida –, a família exerceria, afinal, uma opressão incompreensível e injustificável. E, por isso, cortados os laços familiares, tornar-nos-íamos mais livres, nomeadamente para estabelecer “relações voluntárias” dentro de novas “comunidades”.

É claro que a geração “no contact” vai aperceber-se, mais cedo ou mais tarde, de que não há nada mais frágil do que este tipo de relações voluntárias – que não estando sujeitas à vinculação do sangue, se tornarão dispensáveis e frágeis à primeira dificuldade, pelo que, na maioria dos casos, os espera um futuro de solidão. Como diz Mering,

“Uma visão da família que parte da dissolução das obrigações não consegue garantir facilmente a continuidade. Quando as “famílias” são criadas exclusivamente com base na escolha individual, são inevitavelmente regidas pela mesma lógica de escolha e, como tal, permanecem vulneráveis a serem rejeitadas em nome da própria liberdade que as criou.”

Mas é possível que, mais uma vez, a culpa não seja exatamente deles: afinal, como nota Louise Perry, eles são os filhos da geração-divórcio, os Boomers que enfraqueceram o compromisso do casamento, transmitindo a ideia de que poderíamos desistir dele a qualquer momento. Será, assim, surpreendente que eles olhem para a instituição familiar como um produto dispensável? Recordemos, por isso, o pai do filho pródigo.