Uma criança não nasce a gostar de legumes, a rejeitar peixe ou a pedir doces. Aprende. E é precisamente por isso que a alimentação nos primeiros anos de vida merece mais do que atenção: merece intenção.
Nos primeiros anos, alimentar não é apenas fornecer nutrientes. É promover crescimento e desenvolvimento, mas também descoberta, autonomia, aprendizagem e relação. É nesta fase que a criança contacta com sabores, cheiros, cores e texturas e começa, pouco a pouco, a construir as suas preferências e a sua relação com a comida.
Por isso, quando pensamos na alimentação em creche, a pergunta não pode ser apenas: “A ementa é nutricionalmente adequada?”. Devemos perguntar também “Que relação com a alimentação estamos a ajudar esta criança a construir?”.
Uma creche é, também, um espaço de educação alimentar. É ali que muitas crianças fazem várias refeições, experimentam alimentos, observam os outros e constroem rotinas. As orientações nacionais são, por isso, fundamentais: dão às instituições uma referência comum, assente em evidência científica, e ajudam a transformar conhecimento em prática. Mas educar para comer bem é muito mais do que retirar bolachas, sumos ou produtos com excesso de açúcar e sal. É oferecer variedade. É permitir o contacto repetido com alimentos novos. É respeitar diferentes texturas e etapas de desenvolvimento. É criar um ambiente seguro, tranquilo e positivo à mesa. E é, sobretudo, compreender que o adulto não deve transformar a refeição numa batalha.
Uma criança pode recusar hoje aquilo que aceitará amanhã. Pode comer muito numa refeição e pouco noutra. Pode precisar de tempo para se familiarizar com um sabor. Respeitar os sinais de fome e saciedade não significa deixar de orientar, significa reconhecer que comer também é uma competência que se aprende.
Da mesma forma, os adultos são modelos. As crianças observam o que comemos, o que dizemos sobre os alimentos e a forma como reagimos perante uma recusa. Antes de lhes ensinarmos a comer, ensinamo-las, muitas vezes sem perceber, através do nosso próprio comportamento. É aqui que a creche e a família precisam de se encontrar.
Não numa lógica de fiscalização, mas de parceria. Não para procurar culpados, mas para construir coerência. A alimentação infantil não deve ser mais uma fonte de ansiedade para famílias que já enfrentam tantas exigências. Informar não é culpabilizar. Capacitar não é exigir perfeição.
Enquanto nutricionista materno-infantil e docente universitária, considero
essencial formar quem cuida, apoiar quem educa e capacitar todos os que acompanham as crianças no seu dia a dia. Só assim conseguiremos transformar recomendações em práticas e conhecimento em experiências que, desde cedo, contribuam para construir uma relação saudável, positiva e duradoura com a alimentação.
As novas orientações da DGS são, por isso, um passo importante. Mas são apenas o início. O verdadeiro desafio começa agora: transformar recomendações em práticas quotidianas e conhecimento em experiências.
Neste Dia Mundial da Alimentação, vale a pena olhar para a alimentação infantil como aquilo que ela realmente é: uma responsabilidade coletiva. Famílias, creches e profissionais têm papéis diferentes, mas não podem trabalhar em sentidos opostos. Porque os hábitos alimentares não se constroem num único lugar, nem num único momento. Constroem-se todos os dias.