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Ciência

A separação das culturas e suas sequelas

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Não chega ter filósofos nos departamentos científicos. É preciso dar preparação filosófica aos cientistas, sem o que nunca desenvolverão qualquer sentido crítico em relação aos seus próprios métodos.

O dualismo cartesiano, com a separação da mente do corpo, do pensamento das emoções, das razões das causas, do objectivo do subjectivo, teve profundas consequências na nossa vida social e cultural que se prolongam até hoje. Para Descartes, os seres vivos tinham um corpo material regido pelas leis da causalidade mecânica, e um espírito à semelhança de Deus que era governado pela Razão.

Esta dualidade, com uma separação estrita de campos, está na base da separação das “duas culturas”, a cultura ligada às ciências exactas, de que a física se tornou o protótipo, e a cultura ligada às chamadas “humanidades”, como a história ou a sociologia. As primeiras caracterizavam-se pela procura de leis universais e intemporais, que passou a ser o objectivo supremo da ciência, e por uma quantificação rigorosa das suas variáveis. As segundas foram desvalorizadas porque lidavam apenas com factos concretos e não com “essências” (caso da história), e a quantificação de variáveis era muito mais problemática.

Esta separação levou a um cisma profundo na formação geral e na educação formal das populações, nesta última sobretudo a nível superior, onde os cursos de ciências e os de humanidades estão desde há muito separados e assim permanecem até hoje. E deixou as ciências exactas e a técnica em roda livre, sem que sobre elas fosse exercido um escrutínio significativo de ordem moral ou de valores ao longo de pelo menos quase dois séculos. Desenvolveu-se a ideia de que a ciência era isenta de valores na medida em que era “objectiva”, “factual”. Por outro lado, o carácter exacto e rigoroso dos estudos científicos e os seus êxitos no domínio técnico exerceram um enorme fascínio e sedução sobre as gerações e atraíram os mais jovens para o seu campo, e a sociedade passou em grande medida a ser liderada, em muitos dos seus sectores vitais, por técnicos ou especialistas, isto é, por pessoas com formação quase exclusivamente científica.

As consequências de tudo isto são múltiplas e profundas, impossíveis de sintetizar num texto como este. Em grande medida a técnica desumanizou-se, passou a ser a justificação de si própria, a técnica pela técnica.

A discussão à volta da eutanásia, embora possa ter outras dimensões, tem também, pelo menos em parte, a ver com isto. E muitas outras questões altamente relevantes para a nossa vida colectiva, como as alterações climáticas e a degradação do ambiente em geral, de que o problema da poluição dos oceanos se poderá vir a tornar um exemplo paradigmático, estão igualmente relacionadas com a separação das culturas e a desumanização da técnica. A tomada de consciência sobre estes problemas que desde há várias dezenas de anos se tem vindo a aprofundar progressivamente, não implica que não estejamos ainda no início de um processo de humanização da técnica e que muito reste por fazer.

Voltando à questão da eutanásia. A actual medicina avançou imenso em prolongar a sobrevivência material do corpo humano, mas não investiu em igual proporção em integrar os aspectos qualitativos de bem-estar mental e emocional nesse prolongamento da sobrevivência. Uma parte muito significativa da investigação clínica utiliza o princípio da causalidade linear, próprio da física, em que a uma intervenção corresponde um resultado (ou um reduzido número de resultados) escolhidos, em regra, de forma a serem facilmente quantificáveis. Isto representa uma simplificação brutal do funcionamento de um organismo vivo. Por um lado, o ser humano é um sistema altamente integrado, que, face a qualquer intervenção, reconfigura-se globalmente de forma não linear, nunca sectorialmente. Por outro lado, o fascínio pelo quantificável, que ainda existe na medicina actual, marginaliza, na investigação clínica, muitos resultados que são muitas vezes os mais relevantes do ponto de vista do indivíduo, mas que não se prestam facilmente à quantificação.

Há muito pouca integração entre os aspectos da medicina clínica e os da psicologia e da psiquiatria. Na preparação médica básica há uma valorização muito marcada do conhecimento dos mecanismos fisiológicos do organismo, destacado das questões cognitivas, psicológicas e de valores. Não é por acaso que ainda há hospitais psiquiátricos independentes, e que, tanto quanto me lembro, nunca conheci um interno de psiquiatria a fazer um estágio em medicina interna ou vice-versa.

A questão do chamado “encarniçamento terapêutico” é um bom exemplo da técnica pela técnica, da técnica desumanizada, separada de valores, a que a formação universitária de veneração da ciência pela ciência conduziu algumas gerações de médicos, a minha inclusive. E foram estes médicos, entre os quais me incluo, que, no terreno, começaram a tomar consciência das situações altamente perturbadoras e de elevado sofrimento a que a aplicação cega das guidelinespodia conduzir. E esta tomada de consciência levou e continua a levar a uma mudança considerável na actuação prática no terreno, de não valorizar a sobrevivência como o objectivo supremo da actuação médica, e de recusar tratamentos considerados fúteis. E levou ainda à criação de novas especialidades mais preocupadas com a qualidade de vida do que com a sobrevivência, como a dos cuidados paliativos.

É por este caminho que se deve prosseguir. Não é legítimo, na minha opinião, pedir aos médicos mais nada a não ser prosseguir a humanização da prática médica, de modo a que ela sirva efectivamente o bem-estar global do indivíduo, físico e espiritual. Os médicos existem para defender a vida, não para provocar a morte. E não se pense que humanizar a prática médica é um pequeno desafio: há um campo imenso de trabalho pela frente que deverá começar pelo repensar da medicina em geral, passando pela reestruturação do próprio ensino universitário e pela reformulação de muitos aspectos da assistência médica e ir até à reavaliação dos métodos de investigação clínica.

Não há ciência de qualidade separada da filosofia. A filosofia é uma reflexão sobre o que somos e fazemos. Não chega integrar filósofos nos departamentos científicos. É preciso dar preparação filosófica aos cientistas, sem o que eles nunca desenvolverão qualquer crítica significativa em relação aos seus próprios métodos. E isso terá de começar a ser feito ao nível das universidades.

Um conhecimento fragmentado não é um verdadeiro conhecimento. Ser um técnico altamente qualificado, dominar um conhecimento com a chancela de científico, mas não ter qualquer formação em humanidades, é ser profundamente ignorante, ao contrário do que muitos dos próprios pensam. A ignorância no passado estava ligada ao analfabetismo ou a uma literacia incipiente e era, por essa razão, humilde. Nessa altura as classes letradas tinham um saber global. Actualmente, a ignorância está ligada à separação das culturas e à fragmentação do saber e tornou-se profundamente arrogante e perigosa.

Num tempo em que já ninguém se atreve a contestar que todas as áreas de conhecimento têm igual dignidade, e em que assistimos, num certo sentido, à vingança da história, na medida em que o elemento narrativo, próprio da história, penetrou em todas as ciências ditas “exactas”, incluindo a cosmologia e a própria física, é tempo de retirar as devidas ilações e acabar radicalmente com a separação das culturas.

Professora aposentada

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