Quando digo que sou professora de Matemática, a reação é quase sempre a mesma: “Aquilo que ninguém gosta”. A verdade é que escolhi esta profissão porque adoro Matemática e adoro ensinar. Gosto de fazer a diferença, de saber que todos podem aprender – vale a pena remar contra a corrente.

Há quem veja a tecnologia na escola como uma ameaça, uma “Caixa de Pandora” pronta a libertar distrações e dependências digitais. Mas o que acontece quando essa caixa é aberta com propósito pedagógico e não por mero entusiasmo tecnológico? A minha experiência de quase 10 anos, em contextos tão diversos — escolas grandes e pequenas, turmas numerosas e reduzidas, meios urbanos e rurais, diferentes realidades socioeconómicas e familiares — ensinou-me algo inesperado: quando aberta com intencionalidade, essa caixa revela não só desafios, mas também oportunidades e esperança.

Quando os alunos surpreendem

A minha relação com a tecnologia na sala de aula começou pela procura de formas de motivar e cativar alunos numa época em que eles são nativos digitais. Procurava tornar conceitos abstratos em algo tangível e relevante para o seu mundo. Foi assim que a programação em Scratch e Python, os robots educativos, os Arduinos e os micro:bits, mas também apps educativas, escape rooms digitais e estratégias de gamificação entraram nas minhas aulas — do 1.º ciclo ao secundário, passando pelos cursos profissionais.

Mas mais do que as ferramentas em si, o essencial foi aliar a metodologia do learning by doing a todas estas tecnologias. Dar autonomia aos alunos, permitir que cada um aprenda ao seu ritmo, respeitar os diferentes pontos de partida e competências — é isto que, para mim, dá sentido à educação. Não se trata de tecnologia pela tecnologia, mas de criar contextos onde os alunos experimentam, erram, corrigem e descobrem por si próprios.

Programar a calculadora gráfica com o Rover para explorar funções, usar sensores do micro:bit para recolher dados estatísticos reais, criar escape rooms matemáticos, gamificar a aprendizagem de equações, desenvolver algoritmos em Scratch para resolver problemas de geometria — não eram atividades “extra”. Eram a própria Matemática, mas vista de outro ângulo, vivida na primeira pessoa.

Foi numa dessas experiências, durante a participação no concurso internacional Bebras — que avalia pensamento computacional através de desafios lógicos —, que tive uma surpresa que me fez repensar certezas pedagógicas. Alguns dos alunos que melhor se classificaram foram precisamente aqueles que, em contextos tradicionais de avaliação, não costumavam destacar-se. O que me fez pensar: será que somos nós, professores, que nem sempre pensamos “fora da caixa”?

Quando diversificamos as formas de aprender e avaliar, abrimos espaço para que diferentes tipos de inteligência e raciocínio brilhem. Aqueles alunos que pareciam ter mais dificuldades revelaram-se excelentes a experimentar sem medo do erro, a testar hipóteses, a depurar código e a persistir até encontrar soluções criativas.

A uniformização

Quando ensinamos Matemática de forma tradicional, esperamos frequentemente que os alunos resolvam problemas de uma única maneira — a “nossa” maneira. Não estaremos, com isso, a limitar o seu pensamento?

Falamos muito do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, das competências que queremos desenvolver. Mas será que, com tantas competências a “cumprir”, estamos verdadeiramente a deixar espaço para que os alunos mostrem o que realmente sabem e são? Para que revelem o seu lado criativo, o seu pensamento divergente, a sua forma única de resolver problemas? Ser diferente não tem de ser mau — pode ser precisamente o que precisamos numa sociedade que valoriza a inovação e o pensamento crítico.

Defendo que o uso da tecnologia, da programação e da robótica deve fazer parte de todos os ciclos de ensino. Aliás, se olharmos para as Aprendizagens Essenciais de Matemática, verificamos que conceitos como o recurso sistemático à tecnologia e o pensamento computacional estão cada vez mais presentes — e ainda bem. Mas vou mais longe: estas práticas devem estar presentes desde o pré-escolar, através de experiências lúdicas e estruturadas que desenvolvam pensamento lógico, criatividade e autonomia.

Os meus melhores resultados vieram precisamente de contextos onde ninguém esperava. Em Fornos de Algodres, com recursos limitados, mas vontade infinita, os meus alunos ganharam vários prémios regionais e nacionais, como, por exemplo, os alunos de Matemática Aplicada às Ciências Sociais que conquistaram o 3.º lugar nacional no concurso de Estatística do Instituto Nacional de Estatística. Outros foram reconhecidos a nível nacional. Em Gouveia, os meus alunos receberam a menção honrosa num concurso da Porto Editora.

Para além dos prémios e menções honrosas, os resultados foram visíveis também no desempenho académico. Alunos que antes se calavam começaram a participar, quem temia errar passou a arriscar, e quem achava que ‘não era bom a Matemática’ começou a acreditar em si. As notas melhoraram — mas, acima de tudo, melhorou a confiança. O impacto foi tão visível que outros docentes da escola começaram a adotar práticas semelhantes.

O reconhecimento

Foi esse percurso, feito de experiências e descobertas, que me levou até ao Global Teacher Prize Portugal 2025. Ser finalista do Top 10 foi, para mim, muito mais do que um reconhecimento individual. Foi a confirmação de que vale a pena contrariar o conformismo, de que é possível inovar mesmo com poucos recursos, de que os resultados dos alunos falam mais alto do que qualquer discurso.

Este tipo de iniciativas dá visibilidade à inovação que nasce nos contextos mais improváveis — das grandes escolas urbanas às pequenas rurais. Valoriza o que se faz longe dos holofotes e dá voz aos professores que, diariamente, enfrentam turmas sobrelotadas, falta de recursos e excesso de burocracia, mas continuam a acreditar.

Não vejo o prémio como uma distinção pessoal, mas como um reconhecimento coletivo de todos os professores que lutam por uma escola mais criativa, inclusiva e humana.

A Caixa de Pandora

Na mitologia grega, quando Pandora abriu o jarro proibido, libertou todos os males do mundo — mas deixou a esperança no fundo. Hoje, a expressão “Caixa de Pandora” é usada para descrever ações com consequências imprevisíveis.

A tecnologia na educação pode, de facto, trazer desafios. Mas quando integrada com propósito pedagógico, formação adequada e tempo — esse bem cada vez mais escasso para os professores —, transforma-se numa ferramenta poderosa de inclusão e democratização do conhecimento.

Vi alunos tímidos ganharem confiança ao apresentarem os seus projetos. Vi alunos com dificuldades de aprendizagem descobrirem que são bons a resolver problemas complexos. Vi turmas inteiras mudarem a forma como olham para a Matemática — e para si próprios.

Entre desafios, burocracias e incertezas, continuo a acreditar no mesmo princípio: a educação muda quando os alunos se tornam protagonistas e é por isso que continuo a abrir a minha “Caixa de Pandora” todos os dias. Porque sei que, no fundo, o que lá está não são apenas desafios tecnológicos ou pedagógicos. O que lá está é esperança — a esperança de que a educação pode, de facto, mudar o mundo. Um aluno de cada vez.