Há mais de 30 anos que os Serviços de Urgência estão assim. Centenas de doentes a acotovelarem-se angustiados á espera da observação médica. É uma amálgama de gente com queixas variadas, que podem ser manifestações de doenças ligeiras ou graves. Não o sabem, e isso é assustador.
Esperam horas a fio, mais ou menos conformados com a priorização determinada pela Triagem de Manchester, que lhes deu uma pulseirinha. Os contemplados com uma de cor vermelha ou laranja, são observados de imediato e ás vezes até são levados para a Sala de Emergência. O diabo são as pulseiras amarelas, que deveriam ver o Médico no prazo máximo de 1 hora, e que chegam a esperar 10 horas, naquele ambiente hostil, barulhento e mal cheiroso, cheios de fome e sede. Dos Verdes e dos Azuis, nem vale a pena falar. Ás vezes, só no dia seguinte. Mas, há que valorizar a introdução da Triagem de Manchester em Portugal, no já longínquo ano de 1994. Antes disso, ou o doente estava tão mal que ia diretamente para a Sala de Ressuscitação, ou se entrasse pelo seu pé, era visto de acordo com a hora de chegada, tivesse ou não sintoma de alarme. Havia alguns porteiros com sensibilidade clínica, que tiravam da fila o doente grave e diziam ao Médico:
– Ó Doutor veja este primeiro. Não está com boa cor…
A Triagem de Manchester é um sistema de algoritmo diagnóstico, que ordena os doentes por tempos máximos de observação médica, a partir das queixas que o doente apresenta. É feito de forma a que a doença grave não deixe de ser sinalizada, pelo que se o sintoma é mais provável indicar doença ligeira, mas há a possibilidade, mesmo que remota, de poder ser uma patologia grave, a pulseira será laranja. Por isso, há muitos doentes laranjas que se tornam amarelos depois da observação médica, e cerca de 30% dos amarelos afinal deveriam ser verdes. E, é assim que deve ser, para a proteção e segurança do doente e do médico!
A Linha SNS24 foi inaugurada em Julho de 2017, com o intuito meritório de aconselhamento do doente para onde se deveria dirigir, em vista das queixas apresentadas. Com o tempo, foi-lhe dada outra função, uma espécie de upgrade, como a de “porta de entrada no SNS”, em substituição dos Cuidados Primários de Saúde. Passamos a ouvir e a ver essa frase repetida até á exaustão, na rádio, na televisão e nos placards publicitários. A eficácia do serviço, no sentido de evitar o recurso ao Serviço de Urgência de doentes ligeiros, foi-nos sendo garantida pelo número de chamadas telefónicas atendidas, sempre em crescendo, obrigando á contratação de mais e mais enfermeiros.
A substituição da observação médica por uma linha telefónica, como forma de evitar a avalanche de doentes nos Serviços de Urgência, sempre me pareceu votada ao fracasso. O enfermeiro do outro lado da linha vai aplicar um algoritmo, que necessariamente exacerba a gravidade das queixas, para que não fique em casa nenhum doente grave. Basta ter febre, mesmo que se lhe abríssemos a boca nos mostrasse uma amigdalite, e a indicação dada ao doente será a de ir ao SU. Nunca foi estudada a percentagem de contactos da Linha SNS24 em que o recurso ao SU hospitalar teria sido evitado, apenas sendo divulgado o aumento exponencial das chamadas. Assim, de forma algo leviana, foi sendo inferido que sem aquele serviço o caos na Urgência seria ainda maior!
A maior parte dos Hospitais aceitou a recomendação superior de tornar obrigatório o contacto com a Linha SNS24 antes da admissão no SU. É claro que é alguma coisa, se não há uma alternativa de observação médica de Cuidados Primários. Agora, foram divulgados os dados hospitalares, verificando-se que os verdes e azuis constituem 38% dos recursos á Urgência. É igual ao que era, antes da obrigatoriedade do contacto com a Linha SNS24.
A cada sistema, só podemos pedir-lhe aquilo para que nasceu. A Linha SNS24 é útil para orientação do doente para o SU que está aberto ou sossegar um hipocondríaco preocupado com uma comichão. Não tira doentes ligeiros da Urgência. O algoritmo não está desenhado para isso.