Há umas semanas, a Patrícia Fernandes publicou aqui no Observador um artigo pertinente sobre liberdade de expressão. Destaco uma frase central: “É surpreendente que tantos tenham ignorado quem dizia que proteger a liberdade de uma opinião contrária à nossa é, acima de tudo, proteger a nossa liberdade de dizer algo contrário ao poder instalado.”

Inspirada por essa reflexão — e também pelos recentes acontecimentos que envolveram a Universidade de Harvard — gostaria de sublinhar a importância da liberdade de expressão no contexto das instituições de ensino superior.

As universidades sempre foram centros de criação e difusão do conhecimento. São espaços onde ideias surgem, são testadas, debatidas e aperfeiçoadas. É ali que nasce a inovação e se cultiva o progresso intelectual. Para que isso aconteça, é essencial que as universidades preservem um ambiente de pensamento crítico, debate aberto e confronto de ideias. No centro desse processo está a liberdade de expressão. Sem ela, o conhecimento empobrece, a inovação estagna e a missão académica é comprometida.

Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento da chamada cultura do cancelamento, que se espalhou na sociedade atingindo também o meio académico. Cada vez mais, opiniões divergentes são vistas como ofensivas, e a resposta é o silenciamento, não o debate.

No contexto universitário, essa cultura manifesta-se na punição de estudantes, docentes ou oradores convidados ou staff não docente, que expressam ideias controversas ou desalinhadas com as ideologias predominantes. Ainda que muitas dessas reações partam de uma intenção legítima de combater discursos nocivos, os seus efeitos podem ser desproporcionais: cancelamentos de eventos, marginalização social e até perdas de emprego. Em vez de promover o diálogo e o pensamento crítico, essa prática gera medo e autocensura — comprometendo a liberdade intelectual.

Esse ambiente é particularmente preocupante nas universidades, cuja missão é justamente promover a livre troca de ideias em busca da verdade. Quando opiniões impopulares deixam de ser toleradas, o debate desaparece, e com ele o avanço do conhecimento. O progresso académico exige o questionamento de premissas, a discussão de temas difíceis e a aprendizagem através da discordância.

É claro que as universidades devem garantir ambientes respeitosos e inclusivos. Mas isso não pode ser feito à custa da liberdade de expressão. É preciso encontrar um equilíbrio entre proteger a dignidade de todos e manter o diálogo aberto. Silenciar não é educar — é impedir o crescimento.

Em simultâneo assistimos à crescente politização das Universidades que servem hoje de berço aos mais diversos ativismos. Nos EUA, muitas universidades de prestígio passaram os últimos anos a encorajar o ativismo nos seus campos. Recentemente, e a propósito do conflito na Palestina, foram muitas as Universidades onde houve manifestações a favor de Gaza, e houve Universidades na Europa que cancelaram acordos de cooperação com congéneres Israelitas por razões políticas. Não foram razões académicas ou científicas, mas razões de ordem ideológica.

As universidades não deveriam acolher iniciativas não académicas (e.g., políticas, ativistas, etc.), pois são enviesadas pela promoção de agendas e ideias pré-concebidas, não tendo como fim a partilha, discussão e progressão do conhecimento.

Tanto na cultura de cancelamento como na promoção de ativismos no campus assistimos à distorção daquela que é em meu entender, a função essencial de uma Universidade: a produção e a partilha de conhecimento.

Sem partilha, discussão e progressão do conhecimento, as Universidades mais não são do que associações culturais e recreativas para jovens adultos.