1. A cegueira ideológica é uma das insanidades do século; ela expressa-se em modo teimosia e obstinação. A cegueira ideológica é uma desordem da mente, que se traduz numa crise de percepção, e na consequente dificuldade em discernir o que é real e o que é imaginário; o que corresponde à verdade ou à mentira. Ou seja, o indivíduo devido a convicções exacerbadas e à adesão cega a verdades inquestionáveis, torna-se incapaz de avaliar a realidade de forma objetiva, criando uma visão distorcida e falsificada da mesma. Ou seja, a cegueira ideológica transforma o cérebro (ou o que dele resta…) num filtro selectivo e discriminador, fazendo com que o seu titular passe a valorizar, unicamente, o que vai ao encontro das suas crenças e convicções, da sua visão de mundo, ignorando dados e métricas de sentido contrário.

2. A cegueira ideológica não expressa qualquer tipo de limitação cognitiva ou intelectual (há cegos ideológicos bastante inteligentes); ela não é, portanto, um problema hereditário, de genes; não existe o gene da cegueira ideológica. Este fenómeno é, assim, impulsionado por dinâmicas mais ou menos tribais de certos grupos específicos (o parlamento, o clube, o partido, o grupo religioso, a própria família…) os quais, valorizam mais a coesão interna e o sentimento de pertença (que lhes dão segurança e um propósito comum), que a própria lógica ou validade intrínseca dos argumentos; e tal assim acontece, mesmo perante evidências claras de ideias erradas ou mesmo absurdas. Parece, portanto, que a cegueira ideológica é mais um problema de natureza sociológico do que psicológico.

3. A cegueira ideológica tem, contudo, um padrão claro e transversal: ela pega num aspecto parcial da realidade (que até pode ser verdade), mas exacerba-o, e absolutiza-o sem considerar outros aspectos relevantes da mesma. Ao fazer isto, captura parte da verdade e, a prazo, anula o equilíbrio e a sensatez que a tornava verdadeira; e este é o seu grande pecado! Como é frequente, ver-se alguém muito indignado condenar, sem qualquer hesitação, uma determinada acção, atitude ou comportamento e, simultaneamente, considerar essa mesma acção como aceitável quando a mesma é realizada por alguém que está do “seu lado da barricada”.

4. Quando uma ideologia se transforma num sistema de “ideias fixas”, fechado, autocentrado, caricatural… deixa de servir como instrumento válido para interpretar a realidade e transforma- se num mero corpo de ideias autocentradas, acabadas e incontestáveis. Por isso, a cegueira ideológica enfraquece o pensamento crítico, empobrecendo o debate de ideias; a pessoa debate, não para avaliar, questionar, aprender; não para reavaliar e reaprender, mas apenas para defender, a qualquer custo, o seu ponto de vista. Lamentavelmente, um pequeno grupo afectado pela cegueira ideológica tem capacidade para atrair e influenciar um vasto número de pessoas (muitas, seguramente de boa-fé) e nelas verter todos os sintomas desta falsificação da percepção, desta deturpação da realidade, fantasiosa, ideológica, redutora, caricatural.

5. Por exemplo, Imigração, Igreja, judeus, Israel, América, tourada, ricos, pobres, homossexualidade, direita, conservador, progressista, aborto, eutanásia… só de ouvir cada uma destas palavras, o cego ideológico, já bloqueou, já se fechou. E já nem sequer ouve qualquer ideia ou argumento; simplesmente, já tem a sua mente fechada, fixa, inamovível. E, paradoxalmente, ainda que a realidade se vá tornando avassaladora, ainda que os factos desmontem todas as fantasias, teses e teorias, previsões, visões e imaginações… o número dos que são infectados com o vírus da cegueira ideológica (frequentemente, idiotas úteis de boa vontade) tende, inexplicavelmente, a aumentar. É de facto um fenómeno que causa perplexidade.

6. Curiosamente, o cego ideológico manifesta, sempre de forma muito selectiva, sentimentos de injustiça e ressentimento, que depois de convertidos em rancor e animosidade, são direccionados para grupos ou indivíduos isolados que, no seu entender, estão na raiz do “problema”. Ele autoproclama-se como porta-voz de uma “indignação selectiva” do mal, direcionada, contudo, para determinadas agendas específica ou narrativas da moda enquanto, por outro lado, silencia ou desvaloriza outros acontecimentos equivalentes. Isto está sempre a acontecer. Esta atitude de arrogância e superioridade moral, torna qualquer debate de ideias, quase sempre inviável. Lamentavelmente, para o cego ideológico, por mais que a evidência contrária seja consistente e credível, ela será sempre rejeitada e considerada “fake news”, teoria da conspiração ou manipulação grosseira; para o cego ideológico as suas premissas iniciais serão sempre inquestionáveis.

7. Por outro lado, no decorrer deste processo, a ideia central do debate deixa de ser apenas uma ideia, e passa a ser uma extensão da própria identidade do indivíduo “opositor” que a representa e defende. Provar, então, que uma determinada ideia está errada poderá passar, pasme-se, por tornar legítimo o ataque ao próprio indivíduo que a defende (insano); é a falácia lógica clássica conhecida como argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa). Finalmente, há quem garanta que a cegueira ideológica é mais nociva que a própria maldade. A maldade pura pode ser exposta e desmascarada. Já a cegueira ideológica ardilosa, subtil… age em nome de um autoproclamado “bem maior”. O mentiroso, o ladrão e o violador sabem, na maioria das vezes, que estão a infringir regras e princípios morais. Já o fanático ideológico acredita que os fins justificam os meios. A maldade pura pode ser combatida, evitada. Já a cegueira ideológica, quando disseminada a uma escala maior (grupo, partido, estado, nação…), tem o histórico de justificar atrocidades em larga escala; o potencial destrutivo da cegueira ideológica é assim francamente maior.

Cuidado, eles “andem” aí!