. “O que parece perfeccionismo aos olhos dos outros geralmente é a visão de um líder.” Li esta frase aleatória num post de Instagram e algo dentro de mim fez clique. Não foi um clique suave, foi um daqueles que ecoam, que nos obrigam a parar o scroll infinito e a refletir sobre o nosso próprio percurso, e inevitavelmente, sobre o feedback que recebemos ao longo do caminho.
Ainda há pouco tempo uma colega partilhou comigo um feedback. Dizia que, por vezes, eu me prendia demasiado aos detalhes, que a minha tendência para o perfeccionismo acabava por me abrandar no processo de resolução de um problema. A sugestão dela era clara: tentar ser menos precisa, menos perfeccionista. Ela até o emoldurou como um elogio referindo que a precisão e o perfeccionismo eram, sem dúvida, um dom, mas que o meu verdadeiro superpoder era a velocidade, o flow. Acreditava que eu poderia ser ainda mais eficiente se simplesmente deixasse a busca pela perfeição e o controlo microscópico de lado.
E o que é que eu fiz? Aceitei e agradeci, genuinamente. Porque, no fundo, é preciso reconhecer: sempre que alguém dedica o seu tempo – e aqui foram uns largos e valiosos minutos – para pensar sobre nós, sobre como nos pode ajudar a crescer, isso é um presente de valor incalculável. “Feedback is a gift”, como se costuma dizer, e eu acredito piamente nisso. Acolhi as suas palavras não como uma crítica, mas como uma perspetiva, mais uma lente através da qual eu poderia analisar o meu próprio método de trabalho.
Mas hoje ao deparar-me com aquele post, que na verdade dissecava uma cena da série The Bear – especificamente, sobre como um dos líderes do restaurante exigia que os garfos fossem polidos até um estado de perfeição exímia – revi-me naquela aparente obsessão. Enquanto muitos, ao verem tal cena, provavelmente revirariam os olhos e murmurariam algo sobre prioridades, eu compreendi de imediato o “porquê”. Não se tratava de limpeza, porque isso é o básico, o esperado. Tratava-se de elevar a experiência a um outro patamar. É a procura pelo next-level, pela perfeição nos pormenores que a maioria ignora. E é precisamente essa busca que traça a linha entre ser meramente médio ou bom, e ser absolutamente memorável, ou remarkable.
Ser remarkable é precisamente isto: ver e executar coisas que passam despercebidas aos outros. É ter e manter padrões que nem todos compreendem e, ainda assim, continuar a aplicá-los dia após dia, com uma consistência quase religiosa. Porque toda a paixão tem um custo, e muitas vezes esse custo é ser mal interpretado. O que de fora pode parecer uma fixação desmedida, por dentro para quem a sente, é apenas clareza de visão. É saber exatamente o impacto que aquele garfo imaculado terá na experiência global do cliente. Essa dedicação reflete-se em tudo o que fazemos e, mais importante ainda, em como fazemos os outros sentirem-se.
Claro que esta paixão e este nível de exigência raramente nascem do consenso. Pelo contrário, florescem precisamente quando uma pessoa insiste num padrão em que acredita, convicta de que é o melhor para todos e para o negócio. É um caminho que exige resiliência e uma boa dose de obstinação. Até que um dia, os pontos se conectam, as estrelas se alinham, e o resultado final faz sentido para todos. Até lá, a caminhada é muitas vezes solitária.
E é por tudo isto que a liderança pode ser, por vezes, um lugar tão esquizofrénico e isolado. Porque o líder vê aquilo que os outros ainda não conseguem ver. Está atento a detalhes com os quais mais ninguém parece importar-se. Mas no fim do dia, são esses mesmos detalhes, essas minúcias aparentemente insignificantes, que ficarão na memória das pessoas quando interagirem connosco ou com o nosso produto ou negócio.
Por isso, podem chamar-lhe perfeccionismo se quiserem. Mas a história, essa, tem outro nome para isto: chama-lhe legado.
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