“Quantos anos tens?” Esta é a pergunta que me fazem constantemente, seja num evento, numa reunião ou noutros ambientes de negócios. Curioso, pois nunca me perguntam quantos anos de experiência tenho, quantas decisões difíceis já tomei, quantos problemas já resolvi sozinha, quanta receita já gerei, para mim ou para outros. Perguntam a idade, como se esse número, sozinho, substituísse currículo, resultados e capacidade.

Esta pergunta é sempre seguida de comentários como “És muito impressionante para a tua idade”, “Há quanto tempo trabalhas afinal?”, “Quem é que te está a aconselhar?”. Ou outros, bem menos subtis.

E quando misturamos idade com género, a questão torna-se ainda mais complexa. Conheço mulheres a quem já disseram que o mercado de um produto pensado para mulheres “não era suficientemente grande”, mesmo depois de lhes mostrarem um mercado global avaliado em mais de 4,5 mil milhões de dólares. Conheço outras a quem bastou a nacionalidade para lhes fecharem portas antes da primeira reunião. E uma das minhas cofundadoras foi questionada, mais do que uma vez, sobre o porquê de estarmos a criar uma comunidade para jovens mulheres founders. Foi-lhe dito: “Se uma founder precisa de uma comunidade só para mulheres, se calhar não devias ser founder“, ou “mulheres que precisam do apoio de outras mulheres não deviam ser líderes”.

Os números confirmam isto à escala global. Segundo a Founders Forum Group, apenas 2,3% do capital de risco mundial vai para equipas fundadoras compostas só por mulheres. Quem decide continua a não nos representar: segundo a European Women in VC, apenas 16% dos general partners de fundos europeus são mulheres, gerindo apenas 9% do total de ativos sob gestão.

E o mais absurdo é que, quando essa confiança é finalmente dada a uma mulher, compensa. Um estudo da Boston Consulting Group mostrou que startups lideradas por mulheres geram mais do dobro da receita por dólar investido, face a startups lideradas exclusivamente por homens. O problema nunca foi a falta de retorno. Foi sempre a falta de confiança emprestada a tempo.

Achei, talvez ingenuamente, que em 2026 já teríamos deixado esta forma de pensar para trás. No passado, aceitava a falta de informação sobre o tema. Hoje, temos mais dados do que nunca, dados que mostram o contrário destas crenças, e continuamos a acreditar nelas. Olhamos para a idade, o género, a nacionalidade de alguém, e decidimos em silêncio se tem perfil de founder, antes mesmo de ouvirmos o seu know-how, a sua experiência, a sua startup.

Falamos de experiência como se fosse sinónimo direto de anos vividos. Mas experiência é aquilo que vivemos, não quando o vivemos. Há quem tenha vinte e cinco anos e já tenha gerido equipas, lançado produtos, negociado contratos, falhado e recomeçado várias vezes. Há quem tenha quarenta e nunca tenha saído da mesma cadeira, da mesma zona de conforto. As variáveis que determinam experiência são demasiado vastas e complexas para as reduzirmos a apenas “idade”.

Escrevo isto porque continuamos a ser minoria neste ecossistema. E a sub-representação exige mecanismos deliberados: mais mulheres em posições de referência, mais mentoras a quem recorrer, construídos ao lado de homens que também acreditam nisto, não em bolhas fechadas. Isto importa ainda mais agora, quando o discurso sobre o lugar da mulher parece estar a recuar, não a avançar.

Mas nem a idade, nem o género, deveriam ser variáveis desta equação. Já devíamos ter deixado de reduzir pessoas a duas caixas, só por não caberem num perfil que nós idealizamos. O que faz de alguém um founder não tem a ver com anos vividos nem com género. Tem a ver com a vontade constante de aprender, a resiliência para continuar quando tudo parece contra, e a capacidade de aguentar a pressão de investidores, clientes e equipa, e ainda assim aparecer, todos os dias.

Enquanto continuarmos a decidir quem merece confiança com base num número ou num rótulo, vamos continuar a matar sonhos antes de eles terem sequer a chance de nascer.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.