No dia 1 de outubro assinala-se o Dia Internacional das Pessoas Idosas. Provavelmente veremos centenas de iniciativas sobre envelhecimento ativo, atividades recreativas e mensagens sobre a importância de cuidar dos mais velhos. Tudo isto tem valor. Mas talvez a data também devesse servir para fazer uma pergunta mais desconfortável: em que momento da vida deixamos de ser vistos como cidadãos e passamos a ser vistos apenas como idosos?
Portugal tem hoje mais de 2,6 milhões de pessoas com 65 ou mais anos. Falamos de quase um quarto da população como se constituísse um grupo relativamente homogéneo, definido sobretudo pelas necessidades que associamos à idade: alimentação, higiene, medicação, segurança, acompanhamento e cuidados. São dimensões fundamentais e, para muitas pessoas, determinantes para uma vida digna. O problema começa quando a nossa ideia de dignidade termina aí.
Uma pessoa não deixa de precisar de propósito porque envelheceu. Não deixa de querer aprender, decidir, participar, apaixonar-se, discordar, criar, trabalhar ou contribuir para a comunidade. Não perde a sua sexualidade aos 70, nem a curiosidade aos 80, nem o direito ao risco aos 90. E, no entanto, construímos muitas das respostas ao envelhecimento a partir de uma lógica em que proteger significa frequentemente decidir pelos outros.
A Organização Mundial da Saúde define envelhecimento saudável não como a ausência de doença, mas a partir da capacidade funcional que permite às pessoas ser e fazer aquilo que valorizam. Esta diferença é importante. Obriga-nos a deixar de perguntar apenas se uma pessoa está alimentada, medicada e em segurança e a começar a perguntar se continua a conseguir viver uma vida que reconhece como sua.
Também a Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos, embora não seja aplicável a Portugal, traduz uma mudança internacional relevante na forma de pensar o envelhecimento: autonomia, independência, participação, consentimento e integração na comunidade são direitos, não extras que acrescentamos quando os cuidados básicos já estão assegurados.
Talvez uma das manifestações mais subtis do idadismo esteja precisamente aqui. Nem sempre se apresenta como hostilidade ou discriminação evidente. Às vezes aparece sob a forma de proteção. “É melhor não ir.” “É melhor alguém decidir.” “Já não tem idade para isso.” “Para quê aprender agora?” Frases aparentemente cuidadoras que, repetidas vezes, podem ir reduzindo o espaço de decisão de uma pessoa até que quase toda a sua vida seja organizada por outros.
Isto coloca um desafio enorme às políticas públicas. Se vivemos cada vez mais anos, não podemos continuar a organizar a sociedade partindo do princípio de que envelhecer significa necessariamente perder autonomia e tornar-se dependente. Precisamos de políticas de longevidade que pensem participação cívica, aprendizagem ao longo da vida, cultura, habitação, relações sociais, mobilidade, acesso digital, trabalho e voluntariado com a mesma seriedade com que pensamos cuidados.
E precisamos, sobretudo, de envolver as próprias pessoas mais velhas nessas decisões. É difícil falar de participação enquanto continuamos a desenhar respostas para uma parte tão significativa da população sem garantir que está representada nos lugares onde se decide sobre os seus bairros, serviços, instituições e comunidades.
No próximo 1 de outubro, talvez devêssemos celebrar menos a ideia abstrata de “os nossos idosos” e recordar algo bastante mais simples: estamos a falar de cidadãos.
Pessoas com direitos, desejos, opiniões, relações, contradições e projetos. Algumas precisarão de muitos cuidados, outras de poucos ou nenhuns. Todas continuarão a precisar de poder decidir sobre a própria vida.
Porque cuidar de alguém é fundamental. Mas uma sociedade que apenas sabe cuidar das pessoas quando elas envelhecem, mas deixa de saber ouvi-las, incluí-las ou dar-lhes poder de decisão, corre o risco de confundir proteção com cidadania. E viver mais só será verdadeiramente uma conquista se pudermos continuar a pertencer à sociedade durante todos esses anos.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.