A teoria política da ferradura consiste na ideia de que a extrema-esquerda e a extrema-direita, em vez de serem extremos opostos num espectro político linear, na realidade acabam por estar muito próximas, tal como as pontas de uma ferradura.
Quando em 1945 a URSS chegou ao campo de concentração de Auschwitz, os seus responsáveis não ficaram especialmente impressionados com os horrores que ali foram descobertos. A razão foi simples, no fim de contas não havia muitas diferenças entre o comunismo e o nazismo.
Volvidos oitenta anos, não podemos dizer que a extrema-esquerda portuguesa (PS incluído) é igual ao comunismo soviético, nem que o Chega é igual ao regime Nazi, estão muito longe disso. Ainda assim, estes partidos seguem cartilhas populistas que deixariam Lenine e Aldolf Hitler com uma lágrima no canto do olho.
No seu livro Mein Kampf (A Minha Luta), o ditador Nazi faz o diagnóstico da péssima situação em que a Alemanha se encontrava. Diagnostico esse, que em muitos casos é acertado, mas depois erra de forma flagrante nas causas dos problemas e de forma criminosa nas soluções que apresenta. O mesmo se passa em Portugal no séc. XXI. Durante o tempo da Troica a extrema-esquerda acertava no diagnostico, mas errava nas causas de forma flagrante e de forma criminosa nas soluções. Se nessa época o país tivesse sido governado pelas ideias políticas do PCP, BE e de uma parte do PS, tínhamos passado fome.
Uma das ideias mais propaladas por Hitler refere que a culpa da derrota na Primeira Guerra Mundial, da hiperinflação, do desemprego, etc, (problemas reais) se deviam, não às más decisões do povo alemão como um todo, mas aos estrangeiros. Claro está que ele desconsiderava uma série de minorias (judeus, eslavos, ciganos, etc) ao ponto de os considerar estrangeiros. Desta forma ele passou a ideia de que o povo alemão encarnava todas as virtudes, ao passo que os “estrangeiros” encarnavam todos os defeitos. Na URSS era mais ou menos a mesma coisa com os boiardos, membros de outros partidos, sabotadores, etc. No Portugal de 2025 acontece algo semelhante. Segundo o Chega, o problema da falta de casas é dos estrangeiros pobres (imigrantes) que estão a vir para Portugal. Já segundo os partidos da Geringonça a culpa é dos estrangeiros ricos (turistas, nómadas digitais, residentes não habituais e reformados estrangeiros, etc.).
A estas duas fações de fanáticos ideológicos, nunca lhes passou pela cabeça que a culpa da falta de casas possa ser dos portugueses, que de forma democrática elegeram governos que criaram constrangimentos e exigências absurdas no sector da habitação. O discurso certo para resolver o problema da falta de casas, não dá votos nem arregimenta as vítimas desse problema. É muito mais fácil capturar votos se os portugueses forem considerados vítimas de minorias como empresários do sector imobiliário, ou dos estrangeiros que não votam.
Depois da Troica o Partido Socialista percebeu que as contas públicas eram um assunto sério. Ainda assim depois que deixou de ser governo, alinhou várias vezes com os partidos da extrema-esquerda e com o Chega, no sentido de aumentar a despesa pública. O aumento extraordinário de pensões e o fim das portagens são disso exemplo. Mas o mais extraordinário, é o facto do Chega ter votado a favor de mais de 80% das alterações ao orçamento apresentadas por PCP e BE. Isso mostra a proximidade entre a extrema-direita e a extrema-esquerda.
Quando a inflação começou a afetar o bolso dos portugueses, cada sector político reagiu à sua maneira. O centro moderado pediu que o BCE parasse a sua política de expansão monetária e iniciasse uma suave subida da taxa de juro de referência. Já o Chega e os partidos da Geringonça, preferiram vociferar contra a política do BCE. Quem não se lembra dos ataques que António Costa fez a Cristene Lagarde. Para além disso o Chega, PCP, BE e PS atacavam sistematicamente a banca por não subir os juros dos depósitos e diziam que teriam de ser os bancos a assumirem a subida das prestações dos créditos. Tal como a esquerda, o Chega também defendeu um imposto especial sobre os lucros extraordinários causados pela inflação. Qualquer pessoa minimamente honesta, saberia que esta ideia era completamente absurda.
Para além das enormidades que disseram sobre política monetária, os partidos do arco do populismo também propuseram a fixação de preços de forma administrativa. Neste caso o argumento tinha a ver com a suposta ganância das empresas de distribuição. O governo socialista criou um imposto sobre os lucros extraordinários das empresas de distribuição e atiçou a ASEA para esta perseguir estas empresas. Por acaso eram as mesmas que durante anos tinham mantido os preços praticamente inalterados. É absolutamente notável que o Chega tivesse proposto uma política de preços muito semelhante aquela que é praticada na Venezuela.
A nacionalização da TAP e posterior injeção de milhares de milhões de euros foi um tema que também juntou o arco do populismo. André Ventura chegou a interpor uma providencia cautelar para impedir a reprivatização da TAP. Para o Chega o estado devia ser dono da TAP porque era estratégica, por causa da diáspora, do turismo, etc. Exatamente os mesmos argumentos da esquerda. O líder do Chega sabe que para alargar o seu poder, tem de fazer aumentar o tamanho do estado. Mesmo que isso tenha um enorme custo para os contribuintes. Para os populistas, sejam eles de esquerda ou de direita, apenas o poder pelo poder interessa.
Não é por acaso que os extremos se odeiam profundamente, eles lutam pelo mesmo tipo de eleitorado. Pessoas que gostam de se desculpabilizar pelas suas decisões e que são adeptas de soluções simples e milagrosas, tendem a votar nos partidos do arco do populismo. Em tempos, Jerónimo de Sousa disse numa entrevista que o PCP estaria disponível para aprovar tudo aquilo que fosse positivo para os portugueses e para votar contra tudo o que fosse negativo. Recentemente André Ventura disse exatamente a mesma coisa. É por este motivo que o Chega foi buscar tantos votos ao PCP. Os partidos do arco do populismo concorrem entre eles no sentido de proporcionarem aos portugueses coisas grátis, numa só palavra, Socialismo.
Aquilo que os distingue, tal como no tempo das lutas entre fascistas e comunistas, continua a ser o nacionalismo e o internacionalismo. O Chega acha que devemos ter um nacional socialismo ao passo que a esquerda acha que devemos ter um internacional socialismo. Apesar destas diferenças, o método é exatamente o mesmo, ou seja, a política do absurdo.
Para a esquerda não interessa se Portugal pode ou não acolher emigrantes, o importante é que venham, para assim aumentarem a sua base eleitoral. Para o Chega não interessa se o país precisa ou não dos emigrantes, o importante é que não venham e os que cá estão que se vão embora. Desta forma alarga a sua base eleitoral, cavalgando o facto de todos os seres humanos serem avessos ao que é estranho ou ao que não conhecem. Para o nacional-socialismo alemão a raiz de todos os problemas eram os judeus, para o nacional-socialismo português a causa de todos os nossos problemas são os ciganos e os indostânicos.
O que torna esta situação muito preocupante, é o facto de os partidos do arco do populismo terem uma larga maioria absoluta. Estão a apenas dez deputados de uma maioria constitucional. Isso significa que no quadro parlamentar atual, não poderão ser tomadas medidas que relancem o país para um novo ciclo de desenvolvimento. Quando o debate político está enviesado, as soluções tendem a ir pelo mesmo caminho. É por isso que o país anda há muito tempo a discutir os problemas da habitação, saúde, educação, etc, enquanto a situação continua a piorar.
Neste momento o PSD não tem condições políticas para governar o país de forma efetiva, por esse motivo tenta roubar votos aos partidos do arco do populismo, adotando políticas que tenderão a manter o país neste círculo vicioso de estagnação. A recente desanexação das freguesias é um exemplo flagrante. Nem o Chega, apesar do seu discurso anti tachos, teve coragem de votar contra.