“Descubram o que está a acontecer e afundem os submarinos” – terão sido estas as palavras de Winston Churchill que, ainda em 1941, acreditava que o resultado de toda a Segunda Guerra Mundial dependia do desfecho da Batalha no Atlântico.
De facto, ninguém sabia melhor do que Churchill os elevados riscos de perder neste confronto marítimo, tendo escrito nas suas memórias que a única coisa que realmente o impedia de dormir durante a guerra era o perigo dos submarinos alemães.
O seu medo era justificado – o esforço de guerra Britânico colapsaria rapidamente se fosse privado de munições, petróleo e alimentos. “Foi o fator dominante durante toda a guerra”, escreveu Churchill. “Nunca, nem por um momento, pudemos esquecer que tudo o que acontecia em terra, no mar ou no ar, dependia, em última instância, do seu desfecho”.
Foi neste desespero, e sob o incessante ataque às embarcações dos Aliados pelos U-Boats alemães que, em 1942, foi criada a Western Approaches Tactical Unit (WATU), uma unidade especial da Marinha Real Britânica cujo objetivo era desenvolver táticas para combater os ataques dos submarinos alemães aos meios navais Aliados.
Quando o comandante Gilbert Roberts, um oficial reformado da Marinha Britânica e perito em jogos de tabuleiro, quis então recrutar os “melhores matemáticos e especialistas em quebra-cabeças” para a equipa da WATU – que lhe tivera sido atribuída pelo próprio Churchill – foi rapidamente informado que não sobravam homens para ele liderar.
Foi assim que, numa manhã gelada no início de 1942, Jean Laidlow, uma contabilista de apenas 21 anos, se apresentou ao serviço num edifício anónimo e inóspito em Liverpool, e iniciou uma missão que se revelaria determinante para o desfecho das batalhas mais longas e importantes da Segunda Guerra Mundial.
Juntamente com uma pequena equipa de outras jovens mulheres da “reserva” da Marinha Britânica – matemáticas, na maioria – seria liderada por um inicialmente céptico e desanimado Roberts, que lhe acabaria por ensinar tudo sobre táticas e estratégias navais.
Com idades entre os 17 e os 21 anos, estas mulheres, apelidadas de “Wrens” – que tinham em sua posse pouco mais do que paus de giz numa sala que fazia lembrar um ginásio de escola vazio – aprenderiam a usar o chão de asfalto como um tabuleiro de guerra gigante, onde recriariam a dinâmica dos ataques dos submarinos alemães através do jogo.
O plano era simples – uma equipa jogava pelos Aliados, a outra pelos Alemães. Os jogos eram feitos no chão e baseados em batalhas reais e testemunhos pessoais de oficiais da Marinha Britância que haviam sobrevivido a este tipo de ataques, para que as equipas conseguissem perceber o porquê de cada movimento e decisão, tentando assim dissecar e desconstruir a estratégia alemã e, idealmente, formular uma forma eficaz de a travar.
“Cometam os vossos erros no tabuleiro, e não os cometerão no mar”, terá dito Roberts à sua equipa.
Foi num desses dias, já ao entardecer, que Roberts pediu a Jean para ficar até mais tarde, reiniciar o jogo e voltar a simular um ataque. Já cansada, mas ainda a pensar no assunto, Jean estaria na cozinha do escritório a fazer café e sanduíches de carne para o petit-comité que restava, quando chegou o seu momento Eureka: os U-Boats não estariam a atacar os alvos à distância, disparando os seus torpedos por entre os navio-escolta; estariam, sim, a mergulhar em profundidade sem serem detetados para criar o caos dentro do agrupamento Aliado, de forma dissimulada. Como um lobo disfarçado entre os cordeiros.
Exposto o segredo alemão e o erro cardinal da tática anti-submarino Britânica, a WATU pôde desenvolver as medidas necessárias que permitiriam à sua marinha começar a contra-atacar os submarinos alemães de forma rápida e eficaz. Jean apelidou a operação “Raspberry” (Framboesa), por a comparar ao ato de “blow a raspberry to Hitler” (A expressão em inglês “to blow a raspberry” significa emitir o som de “thpppp” quando se deita a língua de fora a alguém).
Raspberry foi uma tática revolucionária com impacto imediato na guerra. Durante os anos seguintes, cinco mil oficiais de várias nações aliadas completaram o que ficou conhecido como “o curso das WATU”, incluindo o próprio Rei de Inglaterra.
O papel crucial da WATU no desfecho da Batalha do Atlântico, não pode, de forma alguma, passar despercebido, assim como o trabalho absolutamente excecional das jovens Wrens que, sem nunca terem estado em alto mar ou num submarino, ultrapassaram os experientes comandantes da Marinha Alemã.
No fim da guerra, o comandante Roberts viajou até à sede de comando dos submarinos alemães, em Flensburg, na Alemanha. Para sua grande surpresa, encontrou na sala de operações uma fotografia dele próprio, com a seguinte legenda, escrita em Alemão: “Este é o seu inimigo, o Comandante Roberts: Diretor das Táticas Anti Submarino”.