Poucos duvidarão hoje da crucial importância da Ciência e dos cientistas no combate ao novo coronavírus e a futuras crises do mesmo género. Nos últimos meses as televisões e os jornais têm estado repletos de virologistas, epidemiologistas e estatísticos; políticos de todo o mundo apregoam o modo como as suas decisões são tomadas com base em “dados científicos” (e nalguns casos são mesmo); comentadores leigos orgulham-se de como entendem a ciência do vírus e até ousam explicá-la, com resultados diversos; surge massificado o fenómeno do cientista de sofá, que sabe exatamente o que deve ser feito, com base na secção de Ciência do jornal generalista. Também ninguém pode questionar o papel heroico e ainda mais óbvio dos profissionais de saúde, que salvam vidas e dão conforto às suas comunidades.

Mas existe um setor de enorme importância, nem sempre visível, que faz a ponte incontornável entre os avanços no conhecimento científico e os produtos e tecnologias que, de facto, salvam vidas quando chegam às mãos dos profissionais de saúde. Falo das empresas de áreas como a biotecnologia – biotech – e de tecnologias médicas, ou medtech, que desenvolvem soluções inovadoras para problemas de saúde e que, perante um desafio nunca enfrentado, estão particularmente bem posicionadas pela sua flexibilidade estratégica e pela criatividade tipicamente elevada das suas equipas.

Foram empresas de biotecnologia que há muitos anos desenvolveram, por exemplo, técnicas como a PCR (polymerase chain reaction), hoje na base de testes de diagnóstico para Covid-19 e muitas outras doenças infeciosas. São também empresas destas que estão agora a desenvolver testes serológicos que permitirão ter uma noção da real propagação do vírus e da imunidade a ele gerada. E muitas das potenciais vacinas e terapias já a serem testadas para a Covid-19 provêm de empresas de biotecnologia, incluindo várias startups.

Em paralelo, inúmeras medtechs estão a atacar diferentes vertentes da epidemia, desde o transporte seguro de doentes contagiosos até ao fabrico de novos equipamentos protetores; desde novas formas de ventilação até métodos de deteção ou eliminação do vírus em equipamentos e superfícies.

O fenómeno Covid-19 vem apenas iluminar de forma particularmente clara a importância constante que as indústrias biotech e medtech têm tido para as sociedades modernas desde há pelo menos 40 anos. O que estas indústrias fazem agora no combate ao coronavírus, têm-no feito de forma permanente no combate às outras doenças infeciosas, ao cancro, à diabetes e muitas outras. Como ilustração, mais de 60% dos novos fármacos que entraram no mercado americano nos últimos quatro anos foram originados por startups de biotecnologia.

Estas são indústrias que se distinguem hoje pelo seu ímpeto empreendedor – novas empresas são fundadas todos os dias por cientistas-empreendedores independentes. É também um setor cujo sucesso tem dependido intimamente do contexto local, designadamente da existência de universidades e centros de I&D de topo, de incentivos estatais, de capital especializado e da infraestrutura tecnológica. É por isso que a indústria de biotecnologia está fortemente concentrada em pouco mais de 10 pólos, sobretudo nos EUA e na Europa do Norte, o que faz com que sejam essas regiões as que mais vão beneficiar do sucesso comercial e do impacto social que algumas daquelas empresas irão ter.

Apesar das boas intenções de vários governos e instituições nos últimos quinze anos, Portugal não tem feito uma aposta específica de longo prazo no setor, ou pelo menos nunca perto da escala que levou ao sucesso de países como Israel ou os nórdicos. Medidas que promovem o empreendedorismo no nosso país têm estado, muitas vezes, desfasadas da realidade particular de uma indústria de ciclos longos e capital muito intensivo, muito interligada com a investigação científica “a sério”, cujos produtos só singram se se afirmarem globalmente, e em que o “empreendedor” é tipicamente um cientista com mais de 30 anos e uma carreira de investigação, e não um adolescente com uma ideia para uma app e uma bancada no Web Summit.

Falta promover uma articulação mais próxima entre a investigação e o empreendedorismo científico, melhorando e internacionalizando os processos de transferência de tecnologia e de spin-off dos centros de I&D, e criando soluções de financiamento para projetos pré-empresariais em ligação com as universidades e os institutos.

Por outro lado, verificam-se hoje em Portugal algumas condições de base interessantes – se bem que não únicas: uma camada jovem e internacionalizada de cientistas, uma mão-cheia de centros de I&D com reputação internacional, maior facilidade em atrair investimento estrangeiro (pelo menos antes da pandemia), e evoluções muito positivas ao nível do capital de risco público e privado.

Agora que é mais fácil demonstrar a contribuintes e eleitores a importância destas indústrias inovadoras, há que pegar nas boas condições de base e expandi-las, integrá-las e melhorá-las seguindo planos estruturados a 10 anos. O argumento imediato para tal não será a criação de postos de trabalho em massa nem a aparição miraculosa de curas para esta crise. Será sim o de preparar Portugal para gerir as próximas crises, antes e durante a sua ocorrência – sejam elas epidemias, catástrofes naturais ou outras – e pelo caminho tornar a sociedade portuguesa mais inovadora, criar emprego e exportações com maior valor acrescentado, e equipar o País para o Novo Mundo em que agora entrámos.