O português pode não ser o mais forte, o mais rápido ou o mais ágil, mas é, sem dúvida, o mais apaixonado. Talvez herdeiro do espírito indomável dos Descobrimentos, esta paixão transcende os campos e está presente em cada um dos onze milhões de portugueses espalhados pelo mundo. É essa essência – trabalhadora, aguerrida e movida por um amor profundo à sua identidade – que nos distingue e nos impulsiona, mesmo nos momentos mais desafiantes.
Essa paixão, no entanto, contrasta com as dificuldades que enfrentamos. Como é que as lacunas e os obstáculos têm um papel tão grande na nossa vida? Olhemos para os sucessos de atletas como Iuri Leitão e Rui Oliveira, Patrícia Sampaio e Miguel Monteiro nos Jogos Olímpicos de 2024. Cada uma desta conquista trouxe um orgulho enorme ao coração dos portugueses. Mas, por trás desses momentos de glória, está uma dura realidade: homens e mulheres que dedicam uma vida inteira ao desporto com recursos limitados, num sistema que lhes nega o apoio contínuo necessário. São heróis que só ganham visibilidade de quatro em quatro anos e, entre esses momentos, enfrentam enormes dificuldades para treinar, competir e viver – tal como muitos dos Lobos, que não conseguem dedicar-se exclusivamente ao râguebi.
No entanto, como atleta, aprendi que os maiores desafios são, muitas vezes, oportunidades disfarçadas. O desporto ensina-nos isso: é na adversidade que se revelam o esforço conjunto, a dedicação e a visão estratégica que nos levam a resultados extraordinários. Essa mentalidade — acredito — pode guiar o nosso país para um futuro mais forte.
Portugal tem uma paixão única pelo desporto. Muitas vezes criticada até, seja pela atenção mediática ou pelos investimentos feitos. Mas a verdade é que seja em estádios, pavilhões ou nas ruas, o desporto une-nos como poucas outras coisas conseguem. Quem não se lembra das ruas de Norte a Sul após a vitória no Euro 2016? Ou do aeroporto de Lisboa, repleto de emoção, quando os Lobos regressaram de França após o histórico Campeonato do Mundo de 2023? Um grupo de homens comuns – trabalhadores, consultores, designers, médicos e veterinários – que, com espírito de sacrifício e resiliência inabaláveis, inspiraram uma nova geração.
Foquemo-nos nestas emoções, porque o impacto do desporto vai muito além do entretenimento. O desporto transforma vidas, molda comunidades e inspira o futuro de um país. Ao longo de mais de duas décadas como atleta, aprendi que as lições do desporto me acompanham em todas as áreas da minha vida – seja como jogador de râguebi, médico dentista, estudante de medicina, marido, pai ou cidadão português. Tal como o râguebi me moldou enquanto homem, acredito que o desporto pode moldar uma sociedade.
Nas escolas, o desporto deve ser uma prioridade. Mais do que uma atividade física, deve ser uma ferramenta educativa: ensinar crianças a trabalhar em equipa, lidar com derrotas, gerir frustrações e valorizar o esforço individual e coletivo. Estas são lições que vão muito além do jogo e que ajudam a formar cidadãos completos, preparados para os desafios da vida.
Queremos um país onde cada criança tenha acesso a infraestruturas desportivas de qualidade, onde a prática desportiva seja incentivada desde cedo e onde os jovens aprendam que o verdadeiro sucesso é fruto de trabalho, paciência e perseverança. Este é o tipo de educação que transforma gerações e pode posicionar Portugal como um exemplo global.
O impacto do desporto, contudo, não se limita às escolas. Na sociedade como um todo, o desporto é um poderoso agente de mudança. Temos a responsabilidade de garantir que seja acessível a todos, independentemente da idade, género ou condição social. Devemos investir em modalidades menos tradicionais, frequentemente marginalizadas, mas que têm impacto significativo nas comunidades locais.
Outro aspeto crucial é o papel do desporto na formação de líderes. Como capitão da seleção nacional, aprendi que liderar vai além de usar uma braçadeira: é inspirar, motivar e criar um ambiente onde todos se sentem valorizados. Estas competências são essenciais para construir um Portugal mais competitivo e o desporto é o berço ideal para essa liderança.
Os grandes eventos desportivos também desempenham um papel transformador. Portugal já provou ser um excelente anfitrião, e eventos dessa dimensão impulsionam a economia, promovem o turismo, criam empregos e inspiram gerações – como o Euro 2004. No entanto, o verdadeiro legado do desporto está nas pequenas mudanças diárias: criar espaços comunitários para prática desportiva, apoiar programas inclusivos e promover uma cultura de movimento e bem-estar para todas as idades. É aqui que o desporto realmente transforma vidas.
Para o futuro, o desporto deve ser mais do que uma paixão: tem de ser uma prioridade. Sonhamos com um Portugal onde crianças crescem acreditando no poder do esforço, comunidades se unem por objetivos comuns e o bem-estar é acessível a todos. Um país que veja no desporto não apenas um reflexo do que somos, mas uma inspiração para o que podemos ser.
Porque as vitórias mais importantes não se ganham sozinhas. São fruto de esforço coletivo, de uma visão partilhada e de dedicação inabalável. Se aplicarmos essa mentalidade ao nosso País, acredito que o futuro será brilhante.
Tomás Appleton é capitão da seleção nacional de râguebi e médico dentista. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.