A atual pandemia Covid-19 tem sido até à data, apesar de ter começado na China, uma história dos países desenvolvidos (hemisfério norte), de Itália até aos Estados Unidos. A resposta tem sido o encerramento (lockdown) e a realização de testes, seguindo-se os estímulos à economia. A história do Covid-19 em África será bem diferente.

Num lado mais negro, temos poucas certezas sobre este lockdown, sobre os testes e a capacidade dos sistemas de saúde em África. Há uma ausência total de equipamento de proteção e não há uma possibilidade real de conseguir fechar a maioria da população em casa, aqueles que vivem num sistema de subsistência diária. A capacidade de realizar testes é mínima e a capacidade de disponibilizar cuidados intensivos é inexistente.

No lado da esperança, temos algumas incertezas sobre os fundamentos epidemiológicos: não sabemos se o tempo quente e húmido pode abrandar a transmissão do vírus, a média etária da população africana é muito mais jovem do que em Itália (muito embora existam outros aspetos importantes que podem jogar contra, como p. ex. a prevalência do HIV), e a obrigatoriedade da vacinação BCG poderão dar uma ajuda(?)

O que podemos fazer hoje? Usar a melhor as Tecnologias de Informação (TIC). Isto requererá uma boa capacidade (nacional) de liderança.

Vai ser difícil testar a presença do vírus. Isso requererá laboratórios e não é plausível pensar que é possível construí-los massivamente, em poucas semanas, num país médio africano. No entanto, podemos melhorar o sistema de gestão de saúde. Podemos montar plataformas simples de telefone que permitem colocar questões simples e recolher informação sobre sintomas e localizar geograficamente essas pessoas de forma a fornecer-lhes informações básicas de saúde. Aliás também é possível fazê-lo através de SMS (p. ex.: Ushahidi).

Os governos podem divulgar massivamente essas linhas, se quiserem: tipicamente eles controlam os media. O problema é: será que querem fazer isso? Nestes tempos, os governos de todo o mundo (no meu país também) têm receio da gestão da informação. Nos países africanos, em tempos normais, já são muitas as dificuldades em dar informação sobre saúde devido às crenças tradicionais.

Os governos africanos têm de ser corajosos neste aspeto e usar as tecnologias de informação para sensibilizar as pessoas sobre a máxima importância de existir distância social, de cobrirem a boca e o nariz e de lavarem as mãos.

E se uma calamidade atingir de facto África, o que podemos fazer depois? Usar as melhores políticas que permitam aliviar esse estado de calamidade. Isso requer uma boa liderança (internacional).

Como acima mencionado, não podemos descartar agora a possibilidade de muitas pessoas morrerem de Covid-19 em África. Não podemos excluir a possibilidade de algumas regiões africanas, que já têm problemas de segurança alimentar, poderem vir a passar por situações de fome devido à interrupção do fornecimento de alimentos e ao aumento dos preços prolongados no tempo por uma provável recessão mundial.

Devemos preparar-nos para essa possibilidade: isto é um aviso antecipado de um (potencial) tsunami. Felizmente, com o passar do tempo, temos vindo a melhorar na forma como lidamos com as calamidades.

Em cenários pobres e informais, existem poucas alternativas para mobilizar e coordenar governos e doadores, assim como usar eficazmente os financiamentos internacionais incondicionais (e pagamentos eletrónicos se possível).

Os subsídios também podem ser uma opção sempre que os governos tenham formas de intervir na economia formal. Investir em testes de imunização (mais simples) também pode ser decisivo de acordo com investigadores do Banco Mundial. Preparação é a chave e nós temos algum tempo. É nestes momentos que os líderes mundiais bem-intencionados se podem destacar!