Por vezes, a História não regressa com as mesmas formas, mas com as mesmas intenções. E, nos dias que correm, os ecos do passado tornam-se cada vez mais audíveis. No seio do Partido Republicano, circula uma ideia que desafia os alicerces da Constituição dos Estados Unidos: Donald Trump já insinuou mais do que uma vez a vontade de um terceiro mandato presidencial.
A Constituição americana é clara. Desde 1951, com a ratificação da 22.ª Emenda, está estabelecido que “nenhuma pessoa será eleita para o cargo de Presidente mais de duas vezes”. A emenda visa precisamente evitar que o poder, mesmo democrático, se eternizasse no mesmo rosto.
Mas a democracia, como sistema, vive tanto da letra da lei como da disposição coletiva para defendê-la. E é aí que a História oferece o seu espelho mais inquietante.
Louis-Napoléon Bonaparte, o homem que, em 1848, foi eleito Presidente da recém-criada Segunda República Francesa, sobrinho de Napoleão Bonaparte, soube vestir a capa de republicano enquanto afinava discretamente os instrumentos do poder pessoal. A Constituição francesa de então proibia a reeleição imediata do Presidente, obrigando a um mandato e a mais nenhum.
Soa familiar?
Donald Trump, conhecedor da Constituição apenas quando esta lhe convém, tem dado sinais de que considera a regra uma pedra no sapato, algo a contornar com a subtileza de um elefante em loja de porcelanas. Tal como Louis-Napoléon, que em 1851 decidiu rasgar o impedimento à sua reeleição com um golpe de Estado bem orquestrado, Trump joga com a linguagem, o ressentimento popular e a erosão das instituições democráticas.
Napoleão III, como passaria a chamar-se, invocou o “desejo do povo” — uma justificação que nunca passa de moda — e legitimou o golpe com um plebiscito em 1852, nas vésperas de perder o mandato de Chefe de Estado da República Francesa.
Trump, por seu lado, cultiva a ideia de que só ele representa o verdadeiro povo americano. Um plebiscito moderno pode não vir em forma de referendo, mas em rallies, hashtags e narrativas sobre eleições “roubadas”. O discurso é o mesmo: as elites traem, os tribunais não representam, o sistema é podre. Só resta o “homem forte”, o salvador da pátria.
A diferença entre Trump e Napoleão III é que, por enquanto, a Constituição Americana ainda resiste. Mas vale recordar que os textos legais, por mais sagrados que sejam, vivem do respeito que lhes é devido. E esse respeito pode ser lentamente corroído quando se normaliza o absurdo.
Num mundo onde a memória histórica dura menos do que um ciclo de notícias, recordar o exemplo francês do século XIX é mais do que um exercício de historiográfico — é um alerta. Porque os caminhos para o autoritarismo raramente começam com tanques nas ruas. Começam com um suspiro nostálgico, uma mentira repetida, um plebiscito fabricado ou um terceiro mandato sussurrado.
A História não perdoa os distraídos. E tem pouca paciência para os que acham que “nunca acontecerá”.