«Esta liberalidade moral é um dos melhores sinais do nosso tempo. Se existe algo que nos reconcilia com a nossa época é a grande dose de imoralidade que esta permite, sem que por isso se pense menos bem dela. Muito pelo contrário! O que faz a superioridade da cultura sobre a incultura? Por exemplo, do Renascimento sobre a Idade Média? – Apenas uma pequena coisa: a grande quantidade de imoralidade que se lhe concede. Daqui se segue que todos os picos da evolução humana devam necessariamente surgir, aos olhos do fanático moral, como um non plus ultra da corrupção. Basta pensar no julgamento de Savonarola sobre Florença, no julgamento de Platão sobre a Atenas de Péricles, no julgamento de Rousseau sobre a sociedade de Voltaire, no julgamento dos alemães contra Goethe.»
A Vontade de Poder
Estas são palavras de Friedrich Nietzsche expressas num livro póstumo amaldiçoado pelas circunstâncias que ditaram a sua publicação após a morte do seu autor. Falamos da venda dos manuscritos de A Vontade de Poder aos círculos racistas alemães pela sua irmã e testamenteira, Elisabeth Förster-Nietzsche, que entregou a edição dos escritos póstumos do filósofo ao cuidado de anti-semitas profissionais, que deste modo puderam fazer do Nietzsche-Archiv (Naumburg/Weimar) uma plataforma de apoio à ideologia de “higiene racial” do Nacional-Socialismo. Como sinal de reconhecimento dos serviços prestados pela irmã do filósofo ao regime, o próprio Führer em pessoa e outros altos dirigentes do partido estiveram presentes no funeral de Elisabeth Förster-Nietzsche em 1935.
Mas porquê evocar hoje Nietzsche, num momento em que a actualidade política do país é marcada pelo problema estrutural da corrupção com sucessivos casos de tráfico de influências entre os partidos do regime, os mais e os menos gordos, que vivem hoje num permanente lodaçal e chafurdice? Poderá o filósofo alemão ajudar-nos a compreender a natureza deste fenómeno, ele que, sem rebuços, afirmou um dia que «os grandes momentos de cultura foram sempre, do ponto de vista moral, épocas de corrupção»? Pois bem, a problematização nietzscheana da décadence, e também a da corrupção que lhe está associada, é digna de um breve resumo que aqui deixo ao leitor para que este julgue por si mesmo se o diagnóstico e as conclusões do filósofo alemão se adequam ou não ao caso português.
A contrapelo do mais elementar senso comum, Nietzsche acredita que o que efectivamente move o moralista que em todas as épocas condena fanaticamente a corrupção como “escândalo dos escândalos”, não são propriamente os seus instintos morais, mas os instintos de decadência traduzidos em fórmulas de moral. Um só exemplo verbal do nosso venalíssimo quotidiano, paradoxalmente repleto de inimigos fidagais da corrupção, basta: “Os actos de fulano x, y ou z até poderão ser legais, mas não deixam, por isso, de ser profundamente imorais, portanto, altamente reprováveis”. Não entro aqui na discussão da ilegalidade da imoralidade ou da imoralidade da ilegalidade. Para simplificar, digo apenas que toda a incerteza dos instintos se apresenta inevitavelmente ao moralista de serviço de cada geração como «corrupção». Todavia, na genealogia dos valores morais efectuada pelo filósofo alemão não é a corrupção que é a maldição política do homem, mas o amolecimento do ânimo e o moralismo mais chão.
Esta tinha sido já uma queixa de Maquiavel, segundo o qual a fraqueza política do cristianismo moderno revelou ao mundo ocidental as suas poucas ou nenhumas virtudes cívicas. Com efeito, «a nossa religião» – afirma Maquiavel – «glorificou mais os homens humildes e contemplativos do que os activos. Além disso, pôs o sumo bem na humildade, na abjecção e no desprezo das coisas humanas, enquanto a antiga o punha na grandeza de ânimo, na força do corpo e em todas as outras coisas capazes de tornar os homens fortíssimos. E, se a nossa religião te exige que tenhas força, quer que tu sejas capaz de padecer – mais do que fazer – uma coisa forte. Este modo de viver, portanto, parece que tornou o mundo fraco e o deu em presa aos homens celerados, que o podem manejar com segurança vendo como a generalidade dos homens, para irem para o Paraíso, pensa mais em suportar as ofensas do que em vingá-las. E, embora pareça que o mundo se efeminou e o céu se desarmou, sem dúvida que isso se deve à baixeza dos homens, que interpretaram a nossa religião segundo o ócio, e não segundo a virtù».
Mas, voltemos ao filósofo alemão. Nietzsche distingue quatro sinais ou sintomas, que são outras tantas fases ou estádios, de corrupção: 1. a superstição; 2. o laxismo; 3. o refinamento da crueldade; 4. a corrupção dos costumes por suborno e por traição.
Antes de uma breve descrição destes quatro sinais, dá-se ao leitor o quadro geral da décadence em que a corrupção aparece e opera. Toma a palavra “o cabeça de dinamite”: «O fenómeno da décadence é necessário para o desenvolvimento e para o progresso da vida, e não temos meios para suprimir esse fenómeno. Antes pelo contrário: a razão exige que lhe devolvamos os seus direitos. Tudo o que se considerou como remédio contra a degenerescência foram apenas paliativos contra alguns dos seus efeitos. Não se suprime a caducidade através das instituições. Nem a doença. E também não o vício. A decadência: o vício – o carácter vicioso; a enfermidade – o estado enfermiço; o crime – a criminalidade; o celibato – a esterilidade; o histerismo – a fraqueza da vontade… Toda a luta moral contra o vício, o luxo, o crime, e mesmo contra a doença, aparece como uma ingenuidade, como uma coisa supérflua: – não há emenda ou reforma. Em si mesma a décadence não é algo que se deva combater: ela é absolutamente necessária, e própria de cada época e de cada povo. Os métodos de tratamento, psicológicos e morais, não mudam a marcha da décadence, nem a entravam, porque são fisiologicamente iguais a zero» – assegura o nosso filósofo.
Antes de mais, é preciso deixar claro que Friedrich Nietzsche não procura julgar se a corrupção é “boa” ou “má” em si mesma, antes se pergunta de que é que ela é um sintoma. Para Nietzsche a corrupção é um determinado estado que uma sociedade experimenta necessariamente de tempos a tempos. E à fase de “superstição”, que, segundo ele, emerge com a corrupção, chama o filósofo alemão um «pensar livre de segunda ordem». Por isso, assim que a «superstição» ganha força e intervém no conjunto da sociedade, a fé nos antigos valores morais passa para segundo lugar, de modo que uma sociedade supersticiosa, nesta acepção do termo, é forçosamente aquela em que já há muitos indivíduos e em que a apetência pelo individual e o primado do indivíduo sobre o rebanho se tornam potencialmente a regra. «O indivíduo» – afirma Nietzsche – necessita de uma legislação própria, de uma arte e de uma astúcia para a autoconservação, auto-elevação e auto-redenção».
Comparado com o «homem religioso», com o «homem crente», o «homem supersticioso» é muito mais «pessoa», afirma Nietzsche, isto é, ele torna-se mais independente e quer afirmar sem entraves o seu «direito de indivíduo». Sob esta perspectiva, o cinismo dos corruptos não é mais do que um irónico sinal de distância face a tudo o que é geral, abstracto, colectivo, face, enfim, ao que Nietzsche chama «génio da espécie» ou «moral do rebanho». Efectivamente, Friedrich Nietzsche foi um crítico feroz da democracia.
Em segundo lugar, nos tempos corruptos acusa-se de «laxismo» a sociedade onde a corrupção ganha terreno. Todavia, a substituição das antigas virtudes bélicas e cívicas pelas novas comodidades da vida sob a forma de paixões privadas não é um mal em si mesmo e, muito menos, um amolecimento da sociedade: «É mesmo provável que, nas condições de corrupção, o poder e a violência da energia de um povo sejam agora maiores que nunca e que o indivíduo gaste agora mais do que outrora teria podido fazer – é que então não era suficientemente rico…». Por isso, “um esforço mais, portugueses, se quereis ser verdadeiramente inimigos da corrupção”.
Em terceiro lugar, nas épocas de corrupção, como bem observou o liberalíssimo Benjamin Constant, o comércio e toda a sorte de tráfico sobrepõem-se à mera força bruta da guerra: «O comércio não é mais do que uma homenagem prestada à força do possuidor pelo aspirante à posse. É uma tentativa de obter de bom grado aquilo que já se não pretende conquistar pela violência. Um homem que fosse sempre o mais forte jamais teria a ideia do comércio. A experiência demonstra-lhe que a guerra o expõe a diversas resistências e perigos, levando-o a recorrer ao comércio, ou seja, a um meio mais suave e seguro de comprometer o interesse do outro naquilo que convém ao seu próprio interesse. A guerra nasce do impulso, o comércio do cálculo».
E, no entanto… no entanto, contrariando a ingénua ideia liberal de que o «esprit de commerce» suplanta definitivamente o «esprit de conquête», para Nietzsche as épocas de corrupção não são mais doces nem mais brandas ou delicadas do que as épocas de guerra, antes se tornam mais e mais refinadas no uso político que dão à força e à crueldade. E é precisamente nessas épocas que é criada a maldade; é nelas que o prazer na maldade cresce e frutifica. Por conseguinte, para Nietzsche, as épocas de corrupção são necessariamente épocas trágicas: «O modo de ferir e de torturar os outros com palavras e olhares atinge o seu máximo desenvolvimento em épocas de corrupção. Os homens da corrupção mostram-se espirituosos e caluniadores. Eles sabem que existe outro género de assassinato além daquele que exige o punhal ou o golpe de mão. Eles sabem que tudo o que é bem dito é acreditado».
Em quarto lugar, nas épocas de corrupção a venalidade, a prática do suborno e a traição atingem o auge, pois o amor do indivíduo ao seu ego é agora muito mais poderoso do que o seu amor à pátria ou à comunidade, envelhecidas, desgastadas, empurradas para o declínio e a morte. Daí que nelas se viva apenas para o presente imediato e que os indivíduos que aí operam se deixem corromper apenas “agora” e “por hoje”, relegando e procrastinado o exercício da antiga virtude para o futuro… Afinal – ajuíza Nietzsche em jeito de conclusão – a corrupção «não passa de uma palavra injuriosa para os outonos de um povo».
Estes «outonos de um povo» são necessariamente cruéis, não igualitários, elitistas, neles reinando o desprezo pela multidão e o horror ao conformismo. Todavia, a corrupção, como «expressão da anarquia que ameaça os instintos e abala o edifício das paixões que aspiram à vida», «tem uma aparência completamente diferente, conforme os tipos de vida em que se mostra». A corrupção permite diferenciar os organismos políticos em função do modo como estes respondem às tentações que as exigências da vida em comum oferecem aos homens. Como escreveu George Orwell em Mil novecentos e oitenta e quatro a respeito do tipo de vida do seu herói capturado no inferno asfixiante do Big Brother: «Tudo quanto sugerisse corrupção enchia-o sempre de uma louca esperança: – “Odeio a pureza, odeio a virtude! Só desejo que não haja no mundo uma única alma virtuosa. Quero toda a gente corrupta até à medula”».