Com a chamada “lei da burqa” na ordem do dia, era inevitável que mais cedo ou mais tarde a politização do rosto entrasse na agenda político-partidária e, a cavalo nesta, na agenda mediática. Devo, por isso, começar por advertir que as palavras que se seguem constituem uma pequena e modesta reflexão sobre o uso do véu no islão e que não se pretende com elas alimentar uma desnecessária e estúpida “guerra cultural” ou entrincheirar na posição de inimigo quem não pensa do mesmo modo.
Sabendo nós que a actividade mímica do rosto humano consiste tanto em revelar e mostrar como em ocultar e enganar, não se trata aqui de “salvar a face” nem de “perder a face” na discussão em curso. Basta, por isso, que declaremos à entrada que todo o rosto, qualquer rosto, só se torna verdadeiramente rosto quando entra em contacto com os rostos de terceiros, quando olha para eles ou é por eles olhado. Na verdade, o véu muçulmano agride a nudez do rosto feminino de duas maneiras: em primeiro lugar, porque, sob a alegação de uma protecção da mulher do assédio do homem, ele trava e obstaculiza o olhar masculino livremente dirigido à face feminina; em segundo lugar, porque o livre olhar do rosto feminino, ocultado por detrás do véu, fica amputado e mutilado à nascença. Numa certa medida, podemos, aliás, afirmar que há no islão mais radical uma profanação sistemática do rosto da mulher.
Isto dito, vamos directos ao nosso assunto: a nudez do rosto. Os véus conhecidos como burqa, niqab, chador, hijab, quando observados numa escala ascendente de tolerância cristã, consoante esta vai do menos tolerável para o mais tolerável, isto é, de uma maior para uma menor repressão sexual da mulher, revelam-se quanto a nós propícios à análise na justa medida em que servem – qual tabela medieval cristã de gravidade da mentira… – para ilustrar o atraso cívico e político de uma parte considerável dos muçulmanos, com a sua manifesta e atávica incapacidade de se secularizarem e de aceitarem a igualdade de homem e mulher.
É aqui particularmente significativo que em nenhuma das quatro modéstias femininas atrás mencionadas, exigidas pelos maometanos à mulher, esta tenha direito ao pescoço, isto é, direito a mostrar o pescoço em público. Como veremos adiante, é desde logo importante perceber que na tradição cristã o pescoço é o elemento de ligação do corpo à cabeça e que, precisamente nessa condição, o pescoço é a ponte de acesso ao rosto visível de que cada crânio individual é o portador.
Para começar, reparemos em como o rosto salta à nossa vista a partir de um crânio, a que metonimicamente damos o nome de cabeça. Aliás, a cabeça, sede física do rosto e dos seus elementos, fronte e faces, com olhos e boca, nariz e orelhas, apresenta-se como uma espécie de península por relação ao corpo. Teologicamente falando, mas também politicamente, sem uma cabeça visível e um rosto integralmente nu não chega sequer a haver um corpo digno desse nome! Esta é a mais genuína tradição do cristianismo, para além de todas as elucubrações teológicas que se possam tecer em torno do “conhecimento” da nudez no Éden pelo casal Adão e Eva. Numa palavra, se no cristianismo a nudez envergonhada do corpo deve ser coberta, a nudez sem vergonha do rosto deve permanecer descoberta. Nenhum corpo nu, por mais belo que este seja, pode eclipsar ou tornar invisível o rosto.
Digamos, para simplificar, que qualquer que seja a modéstia escolhida, os maometanos cortam simbolicamente o pescoço à mulher! Não espanta, por isso, que um simples decote, para os mais cavernícolas de entre eles, seja uma heresia capaz de blasfemar o profeta e ofender a Deus. Quanto a mim, devo simplesmente confessar que dou mil graças a Deus (sive Natura) pelos extraordinários museus que temos na Europa, nos quais se podem ainda hoje ver tão variados e tão belos pescoços femininos.
Se nos concentrarmos agora no pescoço sempre coberto nas quatro modéstias femininas atrás referidas, burqa, niqab, chador, hijab, teremos a verdadeira medida da consideração e respeito pela mulher no Islão, leia-se, a extrema dificuldade dos maometanos em dar um rosto à mulher. Definitivamente, islão e “rostificação” não combinam. Ora, por uma razão facilmente compreensível, daquelas modéstias atrás mencionadas o hijab constitui justamente a “linha vermelha” cristã, e isto precisamente porque o véu ou o lenço tende a deixar o rosto à mostra, se bem que com cabelos e orelhas cobertos. Por isso, se na versão ortodoxa do Islão a mulher não tem muitas vezes olhos, e se nela o rosto aparece muitas vezes amputado e mutilado em alguns dos seus elementos, é natural que para a moralidade média cristã europeia tudo o que seja menos que o hijab possa constituir, senão uma afronta, uma renúncia à res publica e, nesta medida, uma falta de civilidade.
A este respeito, recordo a oportuna e pertinente observação do filósofo italiano Giorgio Agamben, quando este, num fulgurante ensaio sobre a nudez, afirma que no cristianismo «a relação rosto/corpo é marcada por uma assimetria fundamental, a qual quer que o rosto se mantenha as mais das vezes nu, enquanto o corpo está por norma coberto». Segundo o autor, a esta assimetria corresponde um «primado da cabeça», que se exprime de várias maneiras, mas que permanece mais ou menos constante em todos os domínios. Ora, não é um mero acaso se tais domínios atingem um amplo espectro. Com efeito, estes «vão da política (na qual o titular do poder se chama capo) à religião (a metáfora cefálica de Cristo em Paulo); da arte (na qual se pode representar a cabeça sem corpo – o retrato –, mas não – como é evidente no “nu” – o corpo sem cabeça) à vida quotidiana, na qual o rosto é por excelência o lugar da expressão».
Efectivamente, quando analisamos o tipo de relações que se estabelecem entre as várias partes do corpo humano e a alma, é ao rosto que necessariamente cabe o mais alto grau de unidade interna. Por isso, se diz e repete que é nas feições do rosto que a alma encontra a sua expressão mais clara; e que os olhos pertencem à alma mais do que a qualquer outro órgão, já que são os olhos que espelham as agitações secretas da nossa alma, exprimindo tanto as emoções mais vivas e as paixões mais tumultuosas como os movimentos mais doces e os sentimentos mais delicados. Pois bem, o filósofo Georg Simmel, que em 1901 escreveu um luminoso ensaio intitulado “A significação estética do rosto”, é muito claro a respeito desta unidade interna do rosto, que, a partir da diversidade dos elementos do corpo, mas acima dela, constitui a raiz que une o todo: «A principal evidência desse facto é que uma mudança que é limitada, real ou aparentemente, a um elemento do rosto – um curvar dos lábios, um levantar do nariz, uma maneira de olhar, um franzir de sobrancelhas –, modifica imediatamente todo o seu carácter e expressão. Esteticamente, não há outra parte do corpo cuja totalidade possa ser tão facilmente destruída pela desfiguração de apenas um dos seus elementos».
Ao contrário do islão, que, como sabemos, não admite o culto de imagens, a centralidade e o primado do rosto sobre o corpo no cristianismo manifestam-se ainda de outra forma, a saber, na atenção prestada àquele tipo de espiritualidade que em qualquer rosto nu possui sempre a forma da individualidade, pois o rosto não só nos impressiona como símbolo do espírito, mas também como expressão de uma personalidade única e inconfundível. «Este sentimento» – observa ainda Simmel – «foi extraordinariamente promovido desde o início do cristianismo pela cobertura do corpo». Ora, segundo Simmel, não há no mundo perceptível nenhuma outra estrutura que, como o rosto humano, combine uma tão grande variedade de formas e superfícies numa unidade absoluta de significado: «A unidade do rosto é acentuada pelo apoio da cabeça no pescoço, o que dá à cabeça uma espécie de posição peninsular em relação ao corpo e faz com que esta pareça depender apenas de si mesma – um efeito intensificado pelo facto de o corpo estar vestido até ao pescoço…».
Dir-se-ia, então, que no cristianismo o corpo deve estar vestido para que o rosto possa permanecer inteiramente nu. Nele, apenas o corpo pode ter vestes (a graça que repara e redime o pecado original), porque só o rosto nu do homem se expõe, na sua fome e miséria, directamente a Deus (sive Natura) – e não exclusivamente aos homens, que são apenas uma parte da natureza.
Assim, num corpo vestido, apenas um rosto integralmente nu permite aquela impressão de espiritualidade e graciosidade que resulta do facto de o rosto mostrar menos influência da gravidade que qualquer outra parte do corpo, uma espiritualidade que, como dissemos atrás, tem a forma de uma individualidade e personalidade únicas. Como observa, uma vez mais, Georg Simmel: «A beleza fluida a que chamamos graciosidade deve recriar-se a cada movimento da mão, inclinação do tronco, facilidade de passo: ela não deixa nenhuma forma duradoura na qual o movimento individual se cristalize. No rosto, pelo contrário, as emoções típicas do indivíduo – ódio ou timidez, um sorriso gentil ou uma busca inquieta por vantagem, e inúmeras outras – deixam traços duradouros. Somente no rosto, a emoção primeiramente expressa em movimento é depositada como a expressão de um carácter permanente. Em virtude dessa singular maleabilidade, apenas o rosto se torna o locus geométrico, por assim dizer, da personalidade interior, na medida em que esta é perceptível. A esse respeito, o cristianismo, cuja tendência é cobrir o corpo e permitir que a aparência do homem seja representada apenas pelo rosto, tem sido o mestre para aqueles que buscam a consciência da individualidade».
Chegou o momento de concluirmos e de afirmar que um rosto completamente descoberto, um rosto nu, é o lugar por excelência de uma abertura primordial ao outro. Por isso, toda a política, na medida em que esta se joga no espaço aberto pela aparência, onde as coisas não passam pelo que são, mas sim pelo que parecem, exige a exposição e o confronto público dos rostos. É pela revelação plena e irremediável do rosto que a alma de um indivíduo se revela a um outro, e essa é a razão por que que tanto filósofos, como naturalistas e fisiognomonistas, insistiram ao longo dos séculos que é nas feições do rosto que a alma encontra a sua expressão mais clara. Por isso, se a aparência que o rosto revela é para o homem um problema político de primeira grandeza, é porque a nudez integral do rosto é o lugar de um combate permanente pela verdade. Até por ser sempre único, todo o rosto traz em si mesmo uma abertura singular ao mundo, uma vez que a própria ideia do infinito que eu vislumbro no brilho do rosto nu de outrem, desperta em mim o sentido da alteridade e exterioridade radicais desse outro.
Emmanuel Lévinas (1906-1995), que construiu uma ética inteira deduzida do rosto, escreveu, a este respeito, algumas palavras dignas da nossa reflexão nestes dias de chumbo. Para o filósofo lituano, «a verdadeira essência do homem apresenta-se no seu rosto». É no encontro com o rosto do outro, na relação face-a-face que eu estabeleço com a nudez do rosto do outro, que tem início toda e qualquer Ética digna desse nome. Essa a razão por que Lévinas não entende o rosto apenas na sua apreensão estética e material, mas antes como a expressão da alteridade de alguém que se me apresenta como um Outro que dá expressão ao mundo, que pede que eu cuide dele, que me exige respeito, que, em suma, me responsabiliza perante ele: «Desde que o outro me olha, sou por ele responsável, sem mesmo ter que assumir responsabilidades a seu respeito; a sua responsabilidade incumbe-me». O rosto é, antes de mais, paixão da revelação, paixão da linguagem, paixão da comunicabilidade com a exterioridade e a alteridade do outro. O pensador lituano fala-nos por isso de uma epifania do rosto pretendendo com esta expressão significar que o rosto do Outro ultrapassa em cada instante a imagem plástica que ele pode deixar no meu cérebro, destruindo a ideia, feita à minha medida, que entretanto eu fiz dele: «Ao modo como o Outro se apresenta, ultrapassando a ideia do Outro em mim, chamamos, de facto, rosto». Na potência da sua expressão, o rosto revela-se como alteridade absoluta. É, pois, na sua própria nudez e miséria que o rosto do Outro, ao erguer-se de forma dura e absoluta nos seus olhos, impõe uma resistência de ordem ética que paralisa e desfaz os meus poderes, sendo a compreensão desta miséria e desta fome que instaura a minha proximidade a ele. «Manifestar-se como rosto» – observa o filósofo – «é impor-se para além da forma, manifestada e puramente fenomenal, é apresentar-se de uma maneira irredutível à manifestação, como a própria rectidão do frente-a-frente, sem mediação de nenhuma imagem na sua nudez, ou seja, na sua miséria e na sua fome».
Ao terminar esta breve viagem pela superfície do rosto humano, não posso deixar de evocar a memória de Hilda Puga, uma costureira de 16 anos que em 1911 deu o rosto à República Portuguesa.