Ainda ninguém perguntou — então pergunto eu, aqui, em voz alta e sem medo de citações à porta: Já vos ocorreu, ó anjos da afinação, que não foi a Joana que vos tirou contratos, mas a vossa própria performance? Que, se perderam palcos, não foi culpa do meme, nem da partilha, nem da gargalhada… Foi porque, quem manda no cheque, viu o vídeo e pensou: “Se isto é o que têm para oferecer…” Acham mesmo, com esse peito cheio de indignação, que se tivessem sido geniais, vibrantes, afinados até ao osso, alguém deixava de vos contratar por meia dúzia de piadas ou um vídeo no Tik Tok?
Não.
É isso que dói, não é?
É que ninguém se lembrou de explicar-vos o óbvio: se fosse bom, o vídeo era vosso cartão de visita, partilhado em modo de orgulho nacional. Mas não foi. Foi fraco. E fraco não vende bilhete. Ponto. É assim que o mundo funciona: Contratantes não compram fiascos embalados em desculpas. E agora, em vez de engolirem esta sopa fria com dignidade, têm o desplante de berrar que “foi o vídeo que estragou tudo!”
Não, meus caros. Quem estragou tudo foram vocês, naquele palco, naquela hora. E o vídeo apenas vos prestou um favor: poupou futuros promotores ao desastre. Deviam pagar à Joana comissão de agente: poupa-vos deslocações e cachês que nunca viriam. E o mais bonito é sonharem, quem sabe, que o Meritíssimo Juiz vai obrigar o público a gostar. Imagino a sentença: “Fica o réu intimado a aplaudir com entusiasmo. Fica o réu proibido de recordar a nota desafinada. Fica o réu condenado a elogiar a prestação em público, três vezes por dia, com hashtag.”
É de chorar a rir…ou de rir a chorar, consoante o estado de espírito. …enquanto berram e carpem mágoas, esquecem o detalhe essencial: Se quisessem mesmo salvar o que ainda resta, aceitavam o passado. Levantavam-se, ensaiavam mais, calavam-se, voltavam melhores. Ninguém é sempre bom. E ainda bem. Os erros são um degrau. A vergonha é um mestre. Mas quem troca degraus por Tribunais, quem troca o mestre por birra, faz a cama em que se deita… E depois enterra-se nela, abraçado a um recibo de honorários. Portanto, se perderam contratos, façam as contas: talvez não tenha sido a Joana. Talvez não tenha sido a net. Talvez tenha sido o vosso desafino.
Se vos custa engolir, processem-se.
E, se vos sobrar energia, processem-me também, quem sabe me obrigam a aplaudir… Prometo que, se o Juiz mandar, bato palmas. Uma vez. Devagar. Só para ver se não desafinam outra vez.
E que fique registado em ata: esta é a cláusula final do Decreto do Aplauso Judicial. Ridículo, obrigatório, devagarinho.