A Europa sabe onde quer chegar. Tem uma estratégia digital, uma agenda de competências, uma visão  para 2030 e dois instrumentos de referência que organizam as competências que os cidadãos  precisam de adquirir: o DigComp, para a competência digital, e o EntreComp, para a competência  empreendedora. São modelos sólidos, testados, disponíveis em acesso aberto e integráveis em  qualquer sistema educativo ou organizacional. O problema? Portugal quase não os usa.

O DigComp estrutura aquilo que hoje se entende por literacia digital: pesquisar e avaliar informação  online, comunicar de forma segura, criar conteúdos, proteger a privacidade, resolver problemas com  tecnologia e aprender continuamente em ambientes digitais. São cinco áreas, 21 competências e oito  níveis de proficiência. Não se trata apenas de ensinar a usar ferramentas. Trata-se de formar cidadãos  capazes de actuar no mundo digital de forma crítica, autónoma e responsável.

O EntreComp, por sua vez, define a competência empreendedora não como abertura de negócios,  mas como capacidade para transformar ideias em valor. Valor económico, social ou cívico. A iniciativa,  a criatividade, a liderança colaborativa, a gestão do risco e a aprendizagem com a experiência são  organizadas em 15 competências interligadas. Aplicáveis em escolas, empresas, autarquias ou  organizações da sociedade civil.

A Europa disponibiliza estes quadros como bússolas para a capacitação inteligente. A Comissão  Europeia recomenda a sua integração em políticas públicas, currículos escolares, programas de  qualificação de adultos, estratégias de inovação organizacional e medidas de inclusão digital. Em  muitos países, isso já acontece. Na Estónia, na Finlândia ou na Bélgica, o DigComp e o EntreComp  orientam políticas educativas e sistemas de certificação. Em Portugal, são praticamente ignorados  fora dos círculos técnicos e académicos.

É certo que existem referências dispersas. O DigComp é parcialmente integrado no INCoDe.2030. O  EntreComp surge em alguns projectos de empreendedorismo jovem. Mas não há uma estratégia  nacional de alinhamento com estes quadros. A educação digital continua a depender do esforço de  professores isolados. O empreendedorismo é promovido como um conjunto de oficinas de  criatividade sem continuidade. E as políticas públicas de qualificação muitas vezes ignoram as  estruturas conceptuais já validadas pela própria União Europeia.

É preciso reconhecer que estamos perante dois modelos exigentes. O DigComp não se limita à  utilização de aplicações; implica pensamento crítico e domínio técnico. O EntreComp não se reduz a  concursos de ideias; exige planeamento, persistência, mobilização de recursos e avaliação de impacto.  Mas é precisamente essa exigência que os torna relevantes. Porque ensinam a agir com sentido, em  contextos de incerteza.

Num país onde se discute a transição digital, a modernização da administração e a inovação nas  escolas, continuar a ignorar estes instrumentos é um desperdício político e técnico. A Europa já tem  a bússola. Falta que Portugal a use com seriedade e não apenas como decoração em relatórios de  intenções.